Rádio Observador

Índia

Energias renováveis e poluição

Autor
  • Eugenio Viassa Monteiro

Em 1991 a Índia teve o seu renascimento económico com a abertura da economia e aproveitou o seu escol de engenheiros e licenciados em variadas saberes, bem preparados e sub-aproveitados.

Os efeitos do CO2 na alteração climática parecem ser óbvios e reconhecidos. E felizmente o ‘mundo’, sobretudo o rico, já se convenceu de que não pode ver tranquilamente ‘a banda passar’, sem uma actuação no sentido de reduzir as emissões. Como é óbvio os que mais energia consomem, os países ricos, mais poluem. Há países com uma cultura milenar, para quem a conservação da natureza e quanto a compõe é uma dever, para não criar desequilíbrios. É o caso da Índia, com quem se pode aprender muito, da sua sabedoria acumulada.

Há uns anos atrás, a Chief Minister de Delhi, Sheila Diskit, decretou que todos os taxis e rickshaws da cidade só podiam ser movidos a gás dentro de 1 ano. E assim se fez, melhorando sensivelmente a qualidade do ar. Outras iniciativas se tem tomado, como circularem as matrículas par ou impar… Mas o alívio maior deve vir com maior uso dos transportes colectivos, em especial o Metro, e dos carros eléctricos. Estes já se fabricam na Índia, mas agora verão aumentar a produção (marca Mahindra, Reva).

De facto, a Índia, com uma população 1290 milhões, tem dado a maior atenção às fontes energéticas, por ser também o país de maior crescimento económico, como se espera que seja nos próximos 20 anos, pelo menos. Como faz? Ainda quando não era compensador produzir energia renovável sob certas formas – a solar e a eólica ­–, ela fê-lo e vai continuar célere.

Em concreto, está a fazer os aproveitamentos hidroeléctricos possíveis, com as precauções de realojar famílias deslocadas e minimizar os impactes ambientais; e, marcou metas muito elevadas para a energia eólica e solar.

Dos 25.000 MW eólicos já instalados e a produzir (Dez. 2015), quer dar o salto para os aos 60.000 MW em 2022. Tem uma boa indústria para a produção de grupos geradores, embora a limitação seja o baixo factor de aproveitamento, de cerca de 15% apenas. Hoje a Índia ocupa a 4ª posição mundial nesta energia, o que não é mau.

Da energia solar, tem instalados e a produzir 5.130 MW (Jan. 2016), o que é um valor bom, comparado com países desenvolvidos. Pretende chegar aos 100.000 MW em 2022. É uma meta ousada, pois a tecnologia está em maturação, com baixo rendimento por metro quadrado, e os custos unitários a caírem, sendo já competitivos com o KW produzido por via térmica. Faz falta uma evolução para maior concentração do calor, e menos área por MW instalado. Há investigação e progressos…

Estas duas formas têm a dupla vantagem: produzem energia sem libertação do CO2 e criam trabalho à montante, na fabricação de geradores eólicos e células ou painéis fotovoltaicos, tão desejados pelo Programa ‘Make in India’.

Qual a razão do ‘Make in India’? A Índia nas mãos dos colonizadores britânicos ficou destruída na sua capacidade de produzir riqueza: se em 1700 produzia, segundo Angus Maddison, 27% da riqueza mundial, que era transferida para o Reino Unido; nessa altura, a Europa, no seu todo, apenas produzia 23% da riqueza do mundo! Logo após a saída dos ingleses, em 1952, a Índia só produzia 3% da riqueza mundial! Alguém se lembrará que é natural, por o perfil da riqueza se ter alterado de 1700 para 1952. Talvez… Mas tome-se em conta que a Índia, já em 1500, tinha serviços: comerciava e transportava para as vizinhanças próximas e longínquas as especiarias, sedas, pigmentos, açúcar, diamantes, etc. Não era só potência agrícola, como a Europa; e só assim se entende a pressa em despachar Vasco da Gama para a Índia, porque a vantagem é sempre de quem chega primeiro.

Em 1991 a Índia teve o seu renascimento económico com a abertura da economia e aproveitou o seu escol de engenheiros e licenciados em variadas saberes, bem preparados e sub-aproveitados, e começou a criar riqueza em serviços de TI, a melhorar a agricultura e a retomar a indústria decadente. Sem boas infraestruturas, foi pela senda mais óbvia: dos serviços e, destes, os de mais fácil transporte, à velocidade da luz, pela internet.

O período de 1950 a 1991 fora de completa esterilidade, com o anacrónico modelo económico, altamente intervencionista, designado de ‘socialismo indiano’. Não se criou trabalho, nem riqueza, em valores substanciais, para a retoma económica. Esta, só começou em 1991, quando a iminência da ruptura financeira obrigou à abertura económica, com competição interna e externa. Isso sim, melhorou a qualidade e os custos de todos os produtos fabricados localmente.

De há tempos, o primeiro-ministro Modi está a focar na indústria, com o vigoroso programa ‘make in India’, ao ser a indústria quem cria mais postos de trabalho, de menor qualificação, por unidade de capital investido. As energias vão ser um pequeno motor do programa.

A Índia tem também longa experiência na geração de energia nuclear, pois construiu e explora 18 centrais e tem alguma potência adicional em instalação. A energia nuclear pode ter o problema da radioactividade, controlável. E tem associado o receio permanente de algum acidente, que pode ter efeitos imprevisíveis.

A energia hídrica é limpa; pode ter impactes ambientais sobre o clima e a fauna local. Dos cerca de 94.000 MW de potencial hídrico já estão aproveitados 42.000 e programados outros.

Ao ter pouco petróleo e gás, a Índia é hoje dos países que muito racionalmente procura satisfazer as suas necessidades de energia, explorando com moderação o carvão, apesar de ter o subsolo muito rico desse combustível, que é poluente. Segue assim a via mais onerosa, das energias renováveis, esperando que dêem experiência e conhecimentos para as ir tornando mais económicas a prazo.

Professor da AESE-Business School. Dirigente da AAPI

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