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No ano 2020, a economia mundial retraiu em 4,4%. E os efeitos da pandemia, com a segunda e a terceira vagas por vir, semeiam incertezas sobre o ano 2021 pelas irregularidades de recuperação entre as diferentes economias afetadas.

A China parece ser o único país a beneficiar de uma ação rápida no controlo do vírus. Paradoxo: foi onde o vírus apareceu, para depois mais prejudicar todo o mundo, com exceção da própria China!

Os prejuízos são enormes: as mortes em condições aflitivas, em isolamento; um ambiente de angústia e incerteza com impacto psicológico e reflexo no rendimento de todo o tipo de trabalho. Os lockdowns decretados, e bem, para evitar uma mais rápida proliferação do vírus agudizaram os efeitos económicos negativos.

Houve setores restritos1, a quem a vida correu muito melhor. O e-commerce deu um enorme salto positivo, juntamente com a atividade do agronegócio, pois todos precisamos de comer, pobres e ricos. E também o grande impulso que recebeu a digitalização para que as pequenas loja de bairro, as kiranas, pudessem ser o elo final de entrega de produtos do e-commerce.

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A digitalização, também pela importância de se entrar nas tecnologias mais avançadas, como a IA-Inteligência Artificial, as ML- Learning, a Robótica, etc., foi muito positiva para todas as empresas de TI, que tiveram de ampliar os seus quadros. Elas souberam aproveitar a onda do WFH – Work from Home (trabalhar a partir de casa), evitando aglomerações de pessoas e o potencial contágio nos escritórios de alta densidade humana.

Nas atividades industriais houve um impacto negativo por dois motivos. Por um lado, os lockdowns reduziram a economia da mobilidade, dos táxis, rickshaws, autocarros, comboios, etc. e a aquisição de veículos. Por outro, as exportações diminuíram a nível global, pois a pandemia afetou todos os países.

O setor informal da economia, o pequeno mas abundante comércio de rua, que nas grandes cidades ocupa milhões de pessoas, a restauração e cafés improvisados, retraiu-se.

Nos produtos de consumo, a forma de os produzir teve de ser ajustada, com menor número de trabalhadores. O mesmo se verificou na produção de fármacos, desinfetantes e produtos de proteção pessoal que estiveram muito ativos, mas cuja produção diminuiu quando se deu o vírus por vencido e com grande procura de novo, com o aumento de casos na segunda vaga.

No âmbito laboral, o aumento da procura de trabalho pelo e-commerce e mais fortemente pelo setor da saúde – testes virais, presença nas salas de hospitais improvisadas, ambulâncias, vacinações, etc. – absorveu muita mão-de-obra libertada pelos setores paralisados.

Quando terminará a segunda vaga? Todos se perguntam. Já muitos experts falam na terceira vaga, referindo que ela incidirá sobre os mais jovens. Qual a base dessa afirmação? Talvez por se tratar de um grupo que ainda está à espera da vacinação, não tendo sido considerado vulnerável. Ou porque a abertura das escolas poderá potenciar os contactos e os contágios.

Os países que vacinaram mais pessoas estão em melhores condições para reativar a sua economia. Outros irão a um ritmo mais lento. Esperemos que prevaleça a solidariedade para que os países pobres possam vacinar o povo e retomar o trabalho.

Como é natural, o número de pessoas que vivem abaixo do limiar da pobreza sofreu um grande aumento. Só na Índia, pensa-se que terão sido afetados 300 milhões de pessoas.

Que soluções para tudo isto? Há que tentar tudo e em especial as ideias que ocorrerem aos empreendedores para impulsionar a retoma da economia, ainda sob o efeito da pandemia, porque há dúvidas se não reincidirá em novas vagas e se futuramente não teremos de continuar a conviver com o vírus.

Seria louvável que os milionários se dessem a uns minutos de reflexão para concluir o que fazer com os seus milhões. Guardar no banco ou caixa-forte é solução do século passado. Hoje, a riqueza vale quando aplicada para produzir mais riqueza para a sociedade, ocupando o maior número de pessoas.

Será preciso investir mais nos agronegócios, na investigação para a melhoria das espécies vegetais e para processamento e conservas; no sector das pescas,  na criação em viveiros e tanques, na pesca de mar alto, com impulso para a indústria conserveira; nas TI e nos diversos domínios que vão marcar o futuro, como a IA, a Robótica, a IoT-Internet das Coisas e de um modo inteligente.

A Empresa Zoho, por exemplo, está a criar pequenos centros nas zonas rurais, como se refere nas passagens de uma entrevista a Sridar Vembu2, CEO da Zoho, que quer criar um grande polo com muitos pequenos centros espalhados em Tenkasi, Tamil Nadu: “A partir do último ano, abrimos cerca de 20 escritórios rurais com 20 a 30 postos de trabalho, com potencial para expandirem até aos 100 postos. Planeamos abrir mais escritórios na Índia e noutros países. (…) Há muito talento latente no mundo à espera de uma oportunidade. A concentração de trabalho nas cidades tirou jovens talentosos das aldeias e levou-os para onde eles eram necessários. Com trabalhos bem remunerados nas aldeias, Zoho está a ajudar a repor o talento que lhes pertence. Depois de algum tempo pudemos ver como isso beneficia a comunidade local e leva ao desenvolvimento geral e ao crescimento económico.  (…) Esperamos que Zoho tenha uma percentagem substancial de empregados nas áreas rurais com um papel chave no desenvolvimento de capacitações e na criação de empregos nessas comunidades.”

Será que a produtividade da Zoho fica comprometida ao fixar-se nas áreas semi-urbanas ou rurais?

“Tendo em conta a realidade da Índia, as organizações privadas devem tomar a seu cargo a capacitação dos candidatos. Esse investimento tem um retorno muito elevado. Para ilustrar, um distrito rural como Tenkasi tem um PIB per capita anual de cerca de 1.500 dólares; e um trabalhador típico produz cerca de 3 mil dólares. Investindo na formação, podemos elevar a produção anual para 10, 20 mil dólares com  facilidade, o que permite elevar as remunerações dos trabalhadores e ainda investir nas infraestruturas locais. Os ganhos deste crescimento são imensos. As organizações que elevam a produtividade desta forma garantem um crescimento superior e rendibilidade a longo prazo.”

Todos devem sentir o apelo para fazer algo mais do que está ao seu alcance para tentar ultrapassar a crise e as suas multifacetadas consequências.

[1] Estou a escrever de Mumbai e tendo bem presente a realidade deste grande país que é a Índia.

[2] Entrevista de 22 de abril de 2021, de Sindu Kashyaap “From rise in income to community development, how Sridhar Vembu’s Zoo is transforming India”. A Zoho Corporation, empresa de TI fundada por Sridar Vembu, em 1996, com sede em Chennai (Tamil Nadu), tem hoje 10 mil trabalhadores  e vendas de 590 milhões do dólares (2020).