E subitamente o mundo entornou-se. Ficou do avesso, revirou os relógios, ditou outros ritmos, polarizou-nos a mente, meteu-nos medo e mandou-nos para casa. E nós obedecemos, fomos obedecendo.  Alertados por despertadores não sincronizados, cada país foi organizando as suas regras, sob toque das experiências vizinhas, filtradas pela autoconsciência dos próprios recursos, mais ou menos limitados.

Na Alemanha, onde vivo, as diferentes regiões que compõem o país têm autonomia nestas decisões políticas, pelo que o país foi tocando de maneira desconcertada, com os músicos a tentarem organizar-se em compassos diferentes, e a procurarem colmatar a ausência de maestro. As medidas chegaram tarde, as escolas aqui fecharam um a três dias depois das escolas em Portugal, quando o cenário de pacientes infetados era sobejamente maior que o número de pessoas infetadas no nosso país, mesmo ajustando a proporção das populações. Talvez seja por isso que, só ontem, houve mais cerca de 4500 novos casos de infetados na Alemanha. Para já, a mortalidade é baixa, apesar de tudo. Mas quero crer que Portugal soube ser mais prudente na prevenção, e no determinismo das medidas tomadas. As pessoas foram alertadas sobre a gravidade da pandemia, quando aqui ainda se passeavam pelos parques infantis e pelas ruas, precisamente por não terem entendido a profundidade do conselho, pouco claro por sinal, ao “isolamento social”. Não quer dizer que Portugal seja exemplar; não se compreende, por exemplo, que haja profissionais de saúde sem máscaras, ou centros de saúde na área da Grande Lisboa sem desinfetante para limpar o chão. Bom, mas não sabemos o que será daqui, não sabemos o que será daí, só queria agora chegar a um ponto específico: estamos todos (quase) em casa.

E estar permanentemente em casa é um desafio tremendo. De uma forma geral, estamos habituados a acordar em família e a reunirmo-nos só mais tarde, ao fim do dia, depois de um número grande de horas vividas nos vários exteriores da nossa rotina. Mas o calendário está agora furado, virou monotonia, e o recolher põe-nos à prova a capacidade de tolerância, de nos suportarmos nas nossas divergências e de as endireitarmos no nosso pequeno espaço comum. Pode ser preciso “respirar fundo” frequentemente. Isto não significa que não nos gostamos, que não apreciamos o demorado convívio familiar. Simplesmente, a pandemia atual, para além de ter vindo para nos agitar o frenesim da vida de fora, também tem a capacidade, por estar descontrolada e por não sabermos onde nos conduzirá, de nos inquietar por dentro, de nos desequilibrar a mente.

Enquanto pedopsiquiatra, estou especialmente preocupada com a saúde mental das nossas crianças. É nosso dever, enquanto pais, sermos filtradores desta nova realidade, para que possa ser entregue aos nossos filhos com um impacto que não os magoe. A exposição dos miúdos à novidade do que vivemos não lhes pode chegar como uma avalanche, numa carga que não tolerem. Como poderemos, então, ajudá-los? Especifiquemos: em primeiro lugar, apesar de por certo os miúdos já terem ouvido falar do vírus corona na escola ou no jardim infantil, cabe aos pais explicarem de novo o significado do que se está a passar e o porquê de estarmos em casa, de maneira simples, não dramática, ajustada à faixa etária da criança ou adolescente, à sua capacidade de entendimento, e também às características da sua personalidade (um exemplo, se o meu filho for por natureza excessivamente preocupado com assuntos que habitualmente não são tão globalmente preocupantes, é preciso um cuidado extra para não lhe oferecermos informação excessiva, que ele não saiba gerir, e que tenha o efeito de semear na sua cabeça ainda mais ansiedade). Não queremos que tenham dúvidas, deve ser permitido que os miúdos façam as perguntas que precisarem, não apenas no momento de uma conversa inicial com os pais, mas sempre que tiverem mais questões. Mais uma vez, as respostas dos pais devem ser esclarecedoras, verdadeiras, mas não pormenorizadas em demasia, se isso implicar ansiedade e preocupação nos mais novos.

Em segundo lugar, considero que se deve, em conjunto com as crianças, fazer um plano para organizar os dias. Estar em casa não é sinónimo de estar de férias. Elas estão habituadas a atividades mais ou menos organizadas, a situação é nova, mas as rotinas devem manter-se o mais próximo do que era habitual. Talvez seja interessante a inclusão de momentos de aprendizagem, de leitura, de artes plásticas, de música, de exercício físico, de jogos e brincadeiras, e também outros momentos mais livres, apreciados por eles. Mas não há formas únicas de organização dos dias e  a criatividade de cada um será amplamente mestra. Quanto mais pequenas forem as crianças (salvaguardando uma capacidade comunicativa já bem estabelecida), mais importante será esta necessidade de lhes ampararmos os dias, anunciarmos o que vem, para permitirmos que depois antecipem, prevejam, e se sintam seguras. Esta segurança é essencial para a manutenção da saúde mental de cada um e, felizmente, só requer pessoas e as suas relações, e não tanto o espaço físico onde nos movemos.

Em terceiro lugar, a organização do dia não deve desorganizar marcos maiores como o dia e a noite. É importante que os miúdos se deitem às horas habituais e possam descansar o número suficiente de horas, como se tivessem que ir para a escola no dia seguinte. Especialmente entre os adolescentes, não devemos permitir que passem a viver de noite, e a dormir de dia, invertendo os seus ritmos biológicos. A luz parece-me uma companheira simpática em tempos de quarentena, tirar bocadinhos de dia para apanhar sol à janela pode ser revitalizante.

Em quarto lugar, devemos promover hábitos de vida saudáveis, tais como uma alimentação equilibrada e exercício físico regular. Há quem tenha jardins, há quem tenha varandas (assegurando, obviamente, a segurança de cada um!), e há quem tenha um espaço interior onde fazer ginástica. Não importa onde, importa que exista para ajudar a regular a energia de cada um, e que seja divertido. Há plataformas na internet com aulas de ginástica para crianças, por exemplo. Da mesma forma, comer bem é essencial, e por que não cozinhar às vezes com os miúdos?! Pela saúde dos nossos filhos, e para prevenir eventuais problemas como a obesidade, é importante mantermos exercício físico, alimentação equilibrada, e consumo de água de mãos dadas.

Em quinto lugar, considero que devemos permitir que os miúdos mantenham contacto com os amigos via redes sociais, que possam partilhar o que têm feito, facilitando que os companheiros de todos os dias assim permaneçam, companheiros de todos os dias mesmo, numa dimensão de normalidade.

As medidas que enumero são exemplificativas, não pretendem ser regras em absoluto, há muitos caminhos para um mesmo destino. Em momento de crise, como a que vivemos, o verdadeiramente importante é mantermo-nos leves, com esperança, e equilibrados. No nosso equilíbrio, na estabilidade do nosso lar, assentará a consequente estabilidade dos nossos filhos. Todos somos específicos, podemos ser também específicos na gestão das nossas escolhas.

Estar em quarentena, virando a perspetiva ao prisma, é talvez um privilégio: pela vantagem de uma segurança mais garantida (infelizmente não permitida aos inúmeros heróis que por nós lutam em terreno aceso), e pelo tempo com os nossos filhos espraiado pelos nossos dias. Habitualmente não temos tempo, para já ainda o temos. Queremos deixar de o ter depressa desta forma, mas, enquanto existir, que saibamos fazer o melhor dele.