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É preciso cuidado com as simplificações. Por um lado, está a de Galileu, silenciado sem contemplação pelos detentores do poder. Acusado de negacionismo (ou heresia), Galileu é um aviso para as gerações futuras da iniquidade do poder político. Por outro, aqueles que afirmam que Galileu não era negacionista pois defendia a verdade cientificamente demonstrada. Negacionista era a Igreja, todos os que hoje se comportam da mesma forma anticientífica. Em comum, ambas reclamam ser detentoras da razão. É natural. Galileu representa no panteão moderno o último mártir do enfrentamento entre a Fé e a Razão, uma alegoria tardia, do séc. XIX. Símbolo da crença moderna na infalibilidade do método científico.

Ao contrário do que reclamam, a resposta não pode estar dependente de Galileu ter tido razão. Que sucede quando o negacionista não tem razão ou quando não consegue demonstrar que a tem? Não continua a ser errada a condenação? A resposta de ambas versões seria não. Se Galileu estava equivocado a condenação seria justa. E se ninguém o admite é porque dificilmente alguém admite estar equivocado, em particular no Caso Galileu, onde “toda a gente sabe” que Galileu tinha razão. Só que a grande maioria não sabe que Galileu nunca conseguiu provar que tinha razão.

Começando pelo óbvio, ninguém condenou Galileu por dizer que a Terra era redonda. Que a Terra era uma esfera toda a gente sabia. Galileu também não foi condenado por modelar o Sol no centro do Universo. O Calendário Gregoriano, concluído três décadas antes, já tinha sido baseado nas Tabelas Prussianas que, por sua vez, se elaboraram utilizando os cálculos de Copérnico. Também não foi condenado de heresia. Em 1616, foi proibido de ensinar ou defender o heliocentrismo e, em 1633, culpado de suspeita de heresia (uma acusação comparativamente menor) por não respeitar essa proibição.

O motivo pelo qual Galileu foi censurado, detido e coagido pelo Santo Ofício, foi por afirmar que a Terra se movia, condição imprescindível para o heliocentrismo poder ser uma explicação factual do Universo (e não um modelo). A famosa frase que Galileu poderá ter dito (mas, provavelmente não) no momento em que abjurava “e, no entanto, move-se” resume a questão. Tudo dependia dessa prova. Só que a prova de que a Terra gira sobre si própria revelou-se bastante evasiva. Foi inclusivamente posterior à de que gira à volta do Sol. A Translação ficou demonstrada com descoberta acidental da aberração da luz estelar em 1729 por Bradley. A Rotação demorou muito mais tempo. Só se conseguiu medir em 1851 em Paris, por Focault e o seu famoso pêndulo.

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A Teoria Heliocêntrica como explicação factual do Universo implica obviamente que a Terra gire sobre si mesma, mesmo que tal não se consiga demonstrar. A partir do momento em que é aceite como facto, o mesmo sucede com a rotação da Terra, mesmo sem prova. O problema para Galileu foi que, em 1616, aquilo a que chamaríamos hoje o “consenso científico” era que a Terra se encontrava imóvel. Apesar da divulgação do uso dos cálculos de Copérnico durante o séc. XVI, até 1616 não deve ter havido mais de uma dúzia de cientistas a quem a obra de Copérnico tenha convencido como explicação física do Universo.

Aquando do segundo julgamento, em 1633, embora já houvesse uma maior aceitação do heliocentrismo, o modelo geo-heliocêntrico, baseado nas observações de Tycho Brahé, ainda não tinha sido refutado. Uma versão deste, com órbitas elípticas, até explicava melhor que o Copernicano o movimento dos corpos celestes, com a óbvia vantagem de não contrariar as Escrituras. É que o Diálogo, que vale a condenação do Santo Oficio em 1633 (talvez mais por ridicularizar a opinião do Papa que pelo conteúdo astronómico), põe em confronto os modelos Copernicano e Ptolomaico de órbitas circulares num momento em que a comunidade de astrólogos já se dividia essencialmente entre os modelos de Kepler e Tycho de órbitas elípticas. Ou seja, quando Galileu abjura, o sistema Copernicano já está praticamente ultrapassado.

Apesar da crescente popularidade, o consenso heliocêntrico ainda teve que esperar mais algumas décadas. Em 1651, o astrónomo Giovanni Batista Riccioli publicou o Almagestum Novum, o tratado astronómico mais completo elaborado até então, onde ainda enumerava 126 argumentos a favor e contra das duas hipóteses (77 a favor do Geocentrismo e 49 contra). Só a partir de 1665 é que a opinião científica começou a pender para o heliocentrismo com a demonstração da Segunda Lei Planetária de Kepler por Mercator e, notoriamente, a partir 1686, com o anúncio da Lei Universal da Gravitação de Newton, que confirma a Terceira Lei Planetária de Kepler. Em suma, para fazer valer a sua defesa em 1616, Galileu necessitava demonstrar que a Terra se movia a uma audiência científica bastante incrédula.

Isto não significa que Galileu estivesse louco. Mesmo sem uma prova cabal de que a Terra se movia, Galileu dispunha de vários indícios que lhe faziam acreditar que a razão lhe assistia, começando pelo facto, sobejamente admitido, mesmo pelos maiores defensores de modelo Ptolomaico, de existirem várias falhas entre o que este previa e o que se observava. Só que a questão nunca foi o modelo. A questão mais profunda, onde se inseria a questão do movimento terrestre, era a concepção aristotélica do Universo.

Com a observação dos cometas a finais do séc XVI e de supernovas em 1572 (por Tycho) e 1604 (por Kepler), o Universo eterno imutável e perfeito de Aristóteles começava a entrar em decomposição. O momento era oportuno para Galileu e a publicação de Siderius Nuncius em 1610 trouxe-lhe merecidas reputação e fama. Olhando pelo telescópio Galileu viu muitas estrelas desconhecidas, 4 satélites à volta de Júpiter e que a Lua tinha montanhas como a Terra. Essas observações punham em causa o firmamento aristotélico. Que sentido tinha num Universo imutável e perfeito haver coisas novas ou invisíveis à vista desarmada? Quando soube que o acusavam, correu a Roma para defender as suas ideias perante o Santo Ofício. Era normal que se mostrasse confiante e até um pouco arrogante. Galileu nunca foi conhecido pela modéstia. Convenhamos que possuía bastantes trunfos na manga e deve de ter ficado perplexo com a obstinação com que os principais cientistas recusavam deixar morrer a ideia de uma Terra imóvel. Dizem que a ciência avança um funeral de cada vez.

Admito que esta explicação sucinta, sem qualquer referência a questões de fé, pareça incompleta. Afinal de contas, é inegável que em 1616 a Teoria Heliocêntrica (aquilo a que a Igreja chamava a doutrina de Pitágoras) de que a Terra se movia foi declarada contrária às Escrituras, nomeadamente à famosa passagem em que Josué ordenou que o Sol parasse no céu. Esta é geralmente a prova conclusiva para quem defende que o Caso Galileu foi um enfrentamento entre a Fé e a Razão: a refutação assenta num argumento teológico. Só que a Teologia também se baseava em argumentos científicos.

A famosa carta enviada em 1615 pelo cardeal Belarmino a Foscarini, um padre carmelita, amigo de Galileu e também heliocentrista, é bastante elucidativa a este respeito. Nela, o cardeal aconselha os dois a tratarem o heliocentrismo como mera hipótese matemática. Em relação às Escrituras, o cardeal afirma na missiva que “se existisse uma demonstração verdadeira de que o Sol está no centro do mundo e a Terra no terceiro céu, e que é a Terra a que gira à volta do Sol e não o contrário, então teríamos que proceder com grande circunspeção na explicação das passagens das Escrituras que parecem dizer o contrário. Deveríamos dizer que não as entendemos e não declarar falsa uma opinião que se provou ser verdadeira. Mas eu não acredito que exista tal demonstração, até que esta me seja apresentada.” Trocado por miúdos: Belarmino está a dizer que as Escrituras são a verdade de qualquer das formas, e que Foscarini (e Galileu) não deveriam tentar levar mais além do campo matemático a ideia de que é a Terra que gira à volta do Sol porque isso não está demonstrado. Galileu ou bem ignorou o conselho ou já não foi a tempo de retroceder.

Porque motivo é preciso levar a questão mais além do campo matemático? Porque mesmo o modelo Ptolomaico nunca passou na cabeça dos astrónomos da época de uma representação. A realidade do Universo era a Física Aristotélica. E para gente supostamente tão atrasada, alguma espécie de prova empírica do contrário teria sido importante. Essa é a segunda conclusão que se pode retirar da carta de Belarmino. Só que, como vimos antes, as provas demoraram mais de 200 anos a aparecer. Em 1616 a posição científica mais razoável era que a Terra se encontrava imóvel. A questão do movimento da Terra não foi uma questão de Fé contra a Razão. Pelo contrário, a Teologia interpretou a Escritura de acordo com os conhecimentos científicos da época.

O argumento teológico assentava no conhecimento da realidade, quer dizer, em argumentos científicos e não apenas numa interpretação literal das Escrituras. Aliás, a Igreja Católica nunca defendeu que as Escrituras deviam ser interpretadas literalmente. A interpretação literal da Bíblia não só é muito mais frequente em protestantes do que em católicos, como é muito mais comum hoje em dia do que era em 1616. Para poder interpretar a Bíblia de forma literal era preciso saber ler. A maior parte das pessoas não sabia. No Concílio de Trento a Igreja autoproclamou ser interprete suprema das Escrituras pelo que, em teoria, poderia até ter declarado que a passagem de Josué não devia ser interpretada literalmente, mas decidiu-se pelo contrário.

O séc. XVII foi um período revolucionário para as ciências naturais. Se por um lado é compreensível que a mudança de paradigma para uma explicação matemática dos fenómenos físicos, de que Galileu era pioneiro, corria o risco de não ser aceite pela comunidade científica, o mesmo não se pode dizer das consequências políticas e penais (Galileu foi condenado a prisão domiciliária) que foram absolutamente escusadas e, felizmente, ainda chocam a sensibilidade moderna. O argumento teológico é, em realidade, um elemento político na justificação da sentença. Fazer da questão um enfrentamento entre Fé e Razão, quando está claro que havia ciência dos dois lados, só serve para nos distrair do verdadeiro problema.

Durante mais de meio século, a Igreja Católica até tinha convivido relativamente bem com o heliocentrismo e Galileu não tinha tido nenhum problema com as autoridades eclesiásticas. Pelo contrário, foi bem recebido pelo Colégio Romano em 1611 e os jesuítas encontravam-se entre os seus maiores defensores. Só que os inimigos de Galileu, ou quem sabe se dos jesuítas, forçaram o Santo Ofício a ter que tomar uma decisão a respeito de uma questão sobre a qual tudo indica não haver muita vontade de decidir. O que Galileu fez, de forma involuntária, foi desafiar esses poderes a, mais do que defender uma verdade oficial pré-existente, ter que a definir. Na véspera da Guerra dos Trinta Anos, que iria alterar radicalmente as fronteiras na Europa, a decisão sobre a heliocentricidade transformou-se numa questão política, numa oportunidade para o papado recuperar o poder que sentia escapar. Nesse contexto é provável que a Igreja tenha querido aumentar o seu prestígio apostando a sua autoridade na hipótese que acreditava plenamente ser a mais verosímil.

O que a Igreja não percebeu então, e continuamos a não querer perceber hoje, é que qualquer decisão política de estabelecer uma verdade oficial sobre temas científicos, inclusivamente com a melhor das intenções, tem o efeito perverso de interferir no próprio processo de formas não intencionadas, imprevisíveis e com consequências potencialmente desastrosas. Nenhuma decisão política é feita exclusivamente tomando em consideração critérios científicos. É impossível. As sociedades são demasiado complexas para que o cálculo político, mesmo que baseado nalguma ciência, produza soluções perfeitas e, quando os principais beneficiários são potencialmente aqueles indivíduos ou grupos que em cada momento sustentam o regime, necessitamos de travões a essa interferência se não queremos que a propaganda ou a ideologia tomem conta. Esses travões chamam-se Liberdade de Expressão e Direitos Naturais. Dar carta branca aos governos para interferir na vida das pessoas, para as injectar, para as fechar em casa, para as impedir de trabalhar é escancarar as portas a essa interferência. Tentar silenciar quem não acata é abrir o caminho ao desastre.

Podemos confiar em que os esforços de meios de comunicação e redes sociais para ridicularizar e calar aqueles que discrepam do pensamento oficial, aqueles que questionam a vacinação de populações saudáveis de baixo risco, ou as consequências económicas de parar a actividade não vai impedir o desenvolvimento de conhecimento útil? Apostar exclusivamente nos “especialistas” ungidos pelos governos, pelas farmacêuticas ou pelos gigantes da tecnologia vai permitir encontrar uma solução? Trofin Lysenko é um exemplo muito mais próximo e fácil de compreender que Galileu de como a cegueira ideológica, os interesses políticos, e o monopólio da violência estatal se aliaram para implementar políticas que agravaram o problema da pouca produtividade agrícola da URSS a coberto de critérios supostamente científicos e espalharam a fome e a penúria que supostamente queriam erradicar. Até nisso a Igreja foi mais inteligente. Dois anos depois da condenação do heliocentrismo, a proibição foi parcialmente revogada, permitindo-se a publicação de versões “corrigidas do erro pitagórico” das obras proibidas. Uma versão de De Revolutionibus de Copérnico esteve disponível logo em 1621. A informação que a obra continha para o desenvolvimento da Cartografia e da Navegação era demasiado importante para ser proibida. Podemos ter as mesmas garantias hoje?

Recordemos sempre que Galileu nunca conseguiu provar que tinha razão. Essa é a principal ilação do caso. A questão nunca é se os negacionistas têm razão. A questão é que impedir o conhecimento que pode ser produzido a partir de hipóteses que parecem absurdas ao consenso científico (para não dizer ao político) para satisfazer populismos é um tiro da sociedade no próprio pé. Que as ideias tenham liberdade e, se se revelarem melhores explicações, substituam as antigas é o único e verdadeiro método científico. Uma sociedade complexa que assenta a sua prosperidade e fortaleza numa extensa divisão e coordenação do conhecimento entre os indivíduos não pode sobreviver se se submete à tirania do pensamento único. Mesmo quando essa tirania acredita honestamente possuir a razão e estar a actuar de acordo com a melhor ciência disponível. Isso é tão verdadeiro em 1616 como em 2021. Centralizar o conhecimento nas mãos de alguns iluminados, e calar todos os que expressam opiniões diversas equivale a autodeclarar-se como interprete supremo do significado das Escrituras. Obrigar as populações a obedecer aos decretos de políticas teológicas, mesmo se baseadas em ciência, sob pena de prisão, multa ou privação de acesso a bens e serviços é alimentar o pior fanatismo. Nunca acaba bem.