Rádio Observador

Democracia

La République sommes nous

Autor
  • José Luís Andrade

Raul Brandão, realista e sarcástico, comentou no seu tempo que o que os nossos jacobinos queriam dizer era que «Isto agora é nosso! Nós também queremos comer! E não cabemos todos!». Palavras actuais.

Há algumas semanas atrás, o senhor Mélenchon, guru da extrema-esquerda, fazendo frente aos agentes da justiça francesa que procuravam realizar buscas na sua casa de Marselha, declarou colericamente, mas com a pompa gaulesa que as circunstâncias exigiam, «La République c’est moi!». Esta bestunta presunção, dos que se julgam acima da Lei, membros privilegiados duma nova aristocracia iluminada e predestinada, é aliás um traço comum entre as correntes jacobinas que ao longo do tempo se julgam donas e senhoras dos regimes, ou melhor, dos sistemas políticos. Para Afonso Costa e José Relvas, durante os primórdios da nossa I República, «o país era de todos mas o Estado é dos republicanos», parafraseando a formulação política de João Chagas: «A Nação é de todos mas o Estado é nosso». Como a originalidade de pensamento era escassa, copiavam avidamente o que de França lhe chegava e devem ter-se inspirado no seu herói Georges Clémenceau: «Le peuple est le roi. Il règne. Mais il ne gouverne pas». Raul Brandão, mais realista e sarcástico, comentava que o que eles na realidade queriam dizer era que «Isto agora é nosso! Nós também queremos comer! E não cabemos todos!».

Sempre que a aplicação prática das regras democráticas produz resultados contrários às pretensões do seu instalado Cabido da Sé do Poder, aqui d’el rei! que cai o Carmo e a Trindade!. Dogmaticamente, a única explicação que encontram é que o jogo teve de ser viciado, contranatura, manipulado por sombrias forças ocultas desejosas de repor o Ancien Régime, a Inquisição, a influência dos Jesuítas e quejandas manifestações de retrógrado reaccionarismo. Por exemplo, assim aconteceu em Espanha, nas eleições de Novembro de 1933, quando o PSOE perdeu a votação para a direita: não se resignou a largar o osso do poder e de imediato intentou a via revolucionária para reconquistar pelas armas o que perdera nas urnas. Falhou mas a agitação que o acontecimento introduzira em Espanha havia de levar à eclosão da Guerra Civil.

Vem isto a propósito do valente choque que as chamadas elites «influentes», tropa de choque dos senhores donos disto tudo levaram com a eleição do novo presidente do Brasil. Como foi possível? Depois de tantos livros passeados pela trela no Jardim da Estrela, de tantas noites de insónia e esconjura da Cleópatra de Vila Franca de Xira, de tanta fala de académico decorado com fáleras tituladas a lembrar um velho general da Coreia do Norte ajoujado com o peso de tanta condecoração, não é que o povo «estúpido», «nojento» e «inculto» vai votar no «fascismo»?! Tantas telenovelas a explicar a «normalidade» normal, a passar a mensagem das novas auroras dos amanhãs que cantam e dos novos prometeus demiúrgicos, do Obama, de Hillary, do Guterres e de tantos outros. Tanta caridade de engenharia social para quê?

Tornado irrelevante pela dura realidade do real, o circo mediático, com os seus palhaços amestrados e saltimbancos contorcionistas, ainda não percebeu o que lhe caiu em cima. Os seus «artistas», em crise de histerismo, ainda continuam arrogantemente a pensar que são eles, os iluminados, a conduzir no sentido correcto; os 58 milhões de brasileiros estão em contramão. Eles, a «elite», os «verdadeiros porta-vozes dos pobres, dos oprimidos, dos descontentes», não merecem tal desconsideração. Eles, os elevadores das minorias, os defensores da «normalidade» LGBT & etc, os carrascos dos fachos. «Se calhar é a democracia; se calhar foi-se demasiado longe ao conceder o voto a toda a gente; se calhar só devia votar quem obtivesse o certificado de bom comportamento cívico anti-fascista. Sei lá?! Isto assim não pode continuar! Ele é o Putin, o Trump, o Orbán, o Salvini e agora o Bolsonaro. Isto tem de parar. Nós é que somos os intérpretes da autêntica consciência da Humanidade, nós é que sabemos o que é melhor para o povo…»

Ridículos. Se não fosse trágico, sobre o ruído do coro dos walking-dead, tanto ódio, tamanha intolerância e arrogância até era cómica.

Não queremos ser todos iguais, pois não?

Maio de 2014, nasceu o Observador. Junho de 2019, nasceu a Rádio Observador.

Há cinco anos poucos acreditavam que era possível criar um novo jornal de qualidade em Portugal, ainda por cima só online. Foi possível. Agora chegou a vez da rádio, de novo construída em moldes que rompem com as rotinas e os hábitos estabelecidos.

Nestes anos o caminho do Observador foi feito sem compromissos. Nunca sacrificámos a procura do máximo rigor no nosso jornalismo, tal como nunca abdicámos de uma feroz independência, sem concessões. Ao mesmo tempo não fomos na onda – o Observador quis ser diferente dos outros de órgãos de informação, porque não queremos ser todos iguais, nem pensar todos da mesma maneira, pois não?

Fizemos este caminho passo a passo, contando com os nossos leitores, que todos os meses são mais. E, desde há pouco mais de um ano, com os leitores que são também nossos assinantes. Cada novo passo que damos depende deles, pelo que não temos outra forma de o dizer – se é leitor do Observador, se gosta do Observador, se sente falta do Observador, se acha que o Observador é necessário para que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia, então dê o pequeno passo de fazer uma assinatura.

Não custa nada – ou custa muito pouco. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
Monumentos

A Restauração defenestrada

José Luís Andrade
194

Eis-nos chegados à humilhação máxima: ver retornar ao Palácio da Independência a mesma tribo dos o escaqueiraram no PREC. A génese da SHIP (o seu ADN, como hoje se diz) parece esquecida.

Comunismo

Quando a "Pasionaria" virou católica…

José Luís Andrade
184

Depois de ter sido uma das figuras maiores da máquina de propaganda de Moscovo, a "Pasionaria" acabou os seus dias reconciliada com a sua fé de infância e juventude, tendo regressado à Igreja Católica

Espanha

Talibãs no Valle de los Caídos

José Luís Andrade
305

Sem cair na propaganda, e independentemente dos números correctos, a última guerra civil de Espanha foi um conflito terrível e selvagem, com demasiados actos canalhas e com pouca misericórdia presente

Democracia

Ainda Hong Kong, Macau e a Democracia

Ricardo Pinheiro Alves

Hong Kong e Macau reflectem a diferença entre 330 anos de construção lenta e gradual, mas consistente, de Liberdade e Democracia no Reino Unido, e apenas 44 anos nem sempre consensuais em Portugal.

China

Hong Kong, Macau e cultura democrática

Ricardo Pinheiro Alves
209

Os portugueses que foram colocados em Macau durante a administração portuguesa trataram em primeiro lugar da sua vidinha. O que deixaram foi uma cultura de subserviência e aproveitamento oportunista.

Democracia

A segunda parte do 25 de Abril /premium

Rui Ramos
420

Há 40 anos, a Aliança Democrática salvou a democracia em Portugal. Como vai agora evoluir o regime, sem uma direita democrática reformista como a que em 1979 fundou a AD?

Democracia

O otimista é o novo revolucionário

António Pimenta de Brito

Não navegar na maionese da desgraça, a qual também é cómoda, pois não nos responsabiliza a encontrar soluções. De resto este é um comportamento muito português, o “contentamento descontente” camoniano

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)