Começo por dar os merecidos parabéns a Riccardo Marchi; não pelo seu livro sobre o Chega que ainda não tive oportunidade de ler mas pela forma hábil como conseguiu de borla uma página inteira de publicidade no jornal Público. Não sei que ligações ou solidariedades tem Marchi com a Orquestra Vermelha dos Echarpés da Sacola, bisnetos naturais de Trotsky e malta afim, mas cheira um bocado a esturro tanta promozione gratuita. A não ser que o excesso de confiança induzido pela reiterada prática cúmplice do coça as minhas costas que eu coço as tuas do auto-intitulado antifascismo sem fronteiras os tenha convencido de que a sua supremacia mediática corresponde mesmo à dominância efectiva dos espíritos das massas.

No lodaçal dos equívocos e ambiguidades trazido pela imposição da novalíngua do Ministério da Verdade, a esquerdosia confunde hoje o velho conceito de massas (uni-vos, irmãos operários!) em que se alicerçava no passado o seu fulgor revolucionário com as massas que o grande capitalismo especulador, globalista e apátrida, põe hoje à disposição das suas orquestras e grupos folclóricos. Suportados pelos networks de Wall Street, Hollywood e Silicon Valley (com um Fu Manchu a espreitar à esquina), as suas bandas sem fronteiras especializaram-se em marcar o beat antifa com números como Don’t cry for me Venezuela, We will, we will stone (ou será rock?) you dos Queen ou Like a Rose, da Maria Gadu, para mencionar apenas alguns.

A impunidade de casta oligárquica permite que esses aprendizes de Prometeu alinhem por um relativismo moral e cultural que os leva a cevar os seus mais baixos instintos em inarráveis vícios, como os mais recentes escândalos têm demonstrado apesar das tentativas de branqueamento. Com efeito, o apoio dos obscenos acumuladores de riqueza que são os grandes monopolistas do mundo global fomentou nos legionários da moca da Bella Ciao uma entretela de dependências entre muitos membros das camadas que medeiam hoje o acesso à informação.

Escritores, jornalistas, artistas e professores, geralmente as pessoas «mais comprometidas e submissas», para parafrasear o comentário amargo de Hannah Arendt, são usados para controlar e manipular o acesso à informação. Não poucas vezes, a análise livre e díspar da realidade social e política é condenada por uma concertada atitude despótica que, obedecendo a um maniqueísmo de «barricada», pretende impor o que deve e pode ser dito pela classe. Mas como não há machado que corte a raiz ao pensamento surgem narrativas que, com propósito ou sem intenção, acabam por se revelar manifestações de resistência ao statu quo. E, em bloco, os lacaios reluzem as librés e cerram fileiras para o bloqueio, a ameaça e a barragem de artilharia mediática. E tentam isolar e desqualificar a anormalidade, colando-lhe etiquetas de opróbrio ou descrédito e vilificando os seus autores.  É a deriva totalitária, sem pudor nem capacidade auto-crítica. Impondo máscara-açaimo, esterilização e, se for caso disso, bisturi.

É o caso vertente. O que está em jogo nestas circunstâncias para os amantes da liberdade é a defesa da tolerância e do pluralismo, pilares base da sociedade em que escolhemos democraticamente viver. Mas levamos décadas a assistir a um ataque sistemático à diversidade (por vezes em nome da diversidade que dizem defender). A demonização do outro tenta o seu aniquilamento, incitando ao ódio o que leva a situações cada vez mais crispadas, terreno fértil para a ganância dos demagogos. E à imposição tirânica do pensamento único autorizado.

Confesso que fiquei surpreendido quando analisei os subscritores da missiva-apelo ao ódio: soube-me a coisa pouca, a flop. Talvez seja da reclusão corónica e não tenham conseguido mais e melhor. É verdade que lá está o maestro da filarmónica, conhecido grande mentor do Fórum de São Paulo e do de Puebla, amigo do narco-despotismo venezuelano e gerente de uma abastada fábrica de encher chouriços coimbrã, certificada pela UE. Acompanhado por uma pequena legião de sociólogos, antropólogos e investigadores afins especializados na vida dos primatas do Orinoco. E claro, o incontornável Rosas das palavras-de-ordens; afinal de contas noblesse oblige, n’est-ce pas? Dos inimigos da verdade e da liberdade (as duas faces da mesma moeda) esperava mais, muito mais.