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Na saúde o dinheiro nunca chega

Autor
  • Miguel Gouveia
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No caso da saúde, as posições assumidas por algumas forças políticas perante as parcerias público-privadas (PPP) correspondem a um preconceito ideológico que pode custar bastante caro.

Não há muito tempo, discutia-se o que é que alguns presidentes de câmara deveriam fazer para ganhar eleições. Primeiro foi a moda de construir pavilhões multiusos. Depois foi a das piscinas municipais. Finalmente veio a moda das rotundas. Muito do país ficou cheio de pavilhões, piscinas e rotundas pelo que um presidente da câmara que quiser sobressair pelo cimento terá de fazer outra coisa para chamar a atenção e captar os votos. Mas o quê? Onde é que um presidente da câmara pode gastar dinheiro para ganhar as próximas eleições? A resposta não é óbvia. A vida não está fácil para os presidentes das câmaras!

Em contraste, a vida nunca é fácil para um Ministro da Saúde porque há sempre muitas razões para gastar umas dezenas de milhões. E algumas das razões até fazem sentido. Por exemplo podem gastar-se umas dezenas de milhões a pagar por uma cura quase completa para a hepatite C. Podem gastar-se uns milhões a garantir que todos os cidadãos têm acesso a um médico de família. Podem gastar-se umas dezenas de milhões a renovar o equipamento dos hospitais mais desatualizados. Podem até gastar-se umas dezenas de milhões para expandir as deficitárias redes de cuidados continuados e paliativos. Podem também gastar-se umas dezenas de milhões fortalecendo os cuidados primários para responderem melhor aos problemas dos doentes e mitigar o uso excessivo das urgências. Ou podem gastar-se umas dezenas de milhões para melhorar os cuidados numa área secundarizada como a da saúde mental.

Naturalmente também podemos utilizar umas dezenas de milhões para dar mais a ganhar às corporações que dominam a saúde e garantir uma vida política mais calma ou gastar umas dezenas (centenas?) de milhões fazendo edifícios de hospitais ou de centros de saúde que podem não ser estritamente necessários mas que servem para inaugurar nas vésperas de eleições.

Onde é que se vai buscar o dinheiro? Aumentar os impostos ou ficar com uma maior fatia dos que existem é um desvio de dinheiro que iria para outros: as reações podem ser pouco pacíficas… Reformar estruturas como fechar hospitais ineficientes ou serviços de baixo valor é fácil de dizer mas representa um verdadeiro suicídio político! Pois é, a vida não está fácil para um Ministro da Saúde.

Não é fácil resolver todos estes problemas, mas talvez começar por não os agravar seja uma boa estratégia, por exemplo não gastando mais do que atualmente para ter os mesmos serviços. No caso da saúde, as posições assumidas por algumas forças políticas perante as parcerias público-privadas (PPP) correspondem a um preconceito ideológico que pode custar bastante caro. Os estudos recentes de algumas PPP indicam que o Estado teria custos mais elevados se prestasse diretamente os mesmos serviços. A evolução do Hospital Amadora-Sintra após o término da gestão privada indicia um aumento substancial dos custos. Quem tem o poder de decisão pode resolver gratificar inclinações ideológicas, é essa a prerrogativa do poder. Se ao menos depois houvesse dinheiro para os cuidados continuados, para a saúde mental, para reequipar hospitais ou para ter médicos de família para todos…

Professor Associado na Católica Lisbon School of Business & Economics, mig@clsbe.lisboa.ucp.pt

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