Não venhas, Senhor Jesus! Não nasças num mundo que te há-de desprezar! Não queiras descer a uma terra que te vai crucificar! Não, não venhas, Senhor Jesus!

Na iminência do teu nascimento, inverte o processo da tua encarnação e regressa à direita do Pai, que é onde deves estar. Foge deste mundo que fizeste, mas que não te reconhece. Esquece os homens que criaste à tua imagem e semelhança: são outros Cains, que a Abel querem matar. Não, Senhor Jesus, não venhas a este mundo morar. É em Deus o teu lugar, é aí que, com o Pai e o Espírito Santo, na unidade da Santíssima Trindade, deves reinar. Não, Senhor Jesus, não venhas a este mundo, que te vai desprezar.

Não queiras nascer, pois numa manjedoura te vais reclinar. Não peças pousada, porque as portas estão aferrolhadas e não te querem deixar entrar. Não procures lugar nas estalagens, porque estão cheias e para ti não há lugar.

Não venhas ao teu reino, que não te vai reconhecer, nem aceitar. Não venhas libertar os teus súbditos, porque não querem que, sobre eles, possas reinar. Não venhas, Senhor, que outro rei, Herodes, ocupou o trono e, quando souber do teu nascimento, te há-de perseguir e exilar.

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Não, não venhas, Senhor Jesus! Detém, enquanto é tempo, o teu louco propósito de nos amar. Sê razoável e desiste desse teu empenho de a todos, sem excepção, salvar.

Não, não venhas, Senhor Jesus! Para quê nascer, se não vais ter a teu lado nenhum familiar?! Não, não venhas, porque só terás uma estrebaria e uns quantos pastores para te acompanhar. Os habitantes de Belém, terra dos que, como tu, são da casa e família de David, nas suas pobres casas não te vão hospedar.

Não, não venhas, porque os teus parentes não te irão compreender, quando começares a pregar. Eles próprios, carne da tua carne e sangue do teu sangue, com o pretexto de que estás louco, te irão calar!

Não, não venhas Senhor Jesus, porque os habitantes de Nazaré te irão negar. Sim, eles que tão bem conheceram a tua Santíssima Mãe e São José, eles que também privaram com as tuas ‘irmãs’ e ‘irmãos’, não vão reconhecer que tu és o Messias. Depois de leres a Escritura na sinagoga e explicares o seu sentido messiânico, a tua gente te há-de levar ao cimo do monte para de lá te precipitar! Não, não venhas, Senhor Jesus, que te vão assassinar!

Não, não venhas, Senhor Jesus! Não te querem os ricos, que na sua opulência julgam ter tudo, e detestam quem lhes diz que devem partilhar o que a eles sobra e a escassez de tantos deveria atenuar. Não te querem os pobres, que te acusam de ser cúmplice das injustiças do mundo e de nada fazeres para a sua miséria remediar.

Não, não venhas, Senhor Jesus! Para que queres salvar quem nem sequer te quer acolher?! Para que vens falar a quem não te quer ouvir?! Para que queres ser luz de quem quer ser cego, só para não te ver e adorar, nomeadamente nos irmãos que deveria socorrer e amar?!  Para que vens salvar quem rejeita a graça que lhe queres dar? Para que vens libertar quem quer permanecer cativo das suas paixões?! Para que vens amar quem tanto te odeia?

Não, não venhas, Senhor Jesus! Para quê fundar a Igreja se Pedro, por três vezes, te vai negar? Para quê ensinar os teus discípulos se, no horto das oliveiras, todos te vão abandonar?! Porquê aceitar o beijo de Judas, se é o sinal da traição que te vai crucificar?! Para quê carregar essa Cruz, se fomos nós que a ela te quisemos atar? Para quê nascer, Senhor, se é a morte que te vamos dar?!

Oh, Senhor Jesus, enlouqueceste de amor por toda a humanidade e quão penosa há-de ser para ti essa tua desvairada paixão! Em nome das chagas do teu santíssimo Corpo crucificado, em nome do teu preciosíssimo Sangue por nós derramado, em nome dos espinhos da tua coroa de Rei, em nome dos golpes de azorrague da tua flagelação, em nome das burlas da milícia impiedosa, em nome dos escarros na tua santíssima face, em nome das tuas quedas a caminho do Calvário, em nome da tua Santa Cruz, não venhas, Senhor Jesus! Não, não venhas, que te vamos ferir, ofender e matar!

Não venhas ao mundo, mas … vem aos nossos corações e nasce de novo no sorriso inocente das crianças; na santa rebeldia dos jovens, que te querem seguir para o mundo mudar; e na esperança dos velhos, que têm em ti a certeza da vida que não há-de acabar. Nasce de novo, Senhor Jesus, no compromisso dos noivos que, no seu amor, te querem amar; na pureza das virgens, que a ti se vão consagrar; no beijo que os teus sacerdotes vão depor sobre o teu altar.

Sim, Senhor Jesus, vem e nasce de novo no alívio dos doentes, na luz dos cegos, na música dos surdos, no cântico dos mudos e nas danças dos paralíticos. Nasce de novo, Senhor Jesus, como comida dos esfomeados, como bebida dos sedentos, como vestido dos nus, como pátria dos refugiados, como lar dos sem-abrigo, como companhia dos que estão sós, como esperança dos desesperados, como fé dos que não crêem, como mansidão dos violentos, como perdão dos ofendidos, como justiça dos oprimidos e paz para os que sofrem a guerra.

Nasce de novo, Senhor Jesus, também este ano, nos nossos corações. Na pobreza e solidão do estábulo de Belém, está a razão por que trocaste a glória do Céu pelas misérias da terra: o nosso pobre amor que, nada valendo, vale mais do que tudo o que o mundo é.