Aos 71 minutos de jogo, com o Brasil a ganhar por 1-0, golo de Neymar, o número dez não resistiu. Caído junto à linha lateral, sentiu o pé de Layún no tornozelo e começou a contorcer-se como se tivesse levado com um taser. Desde que Jesus Cristo andou pela Judeia a expulsar demónios que um corpo não se sacudia tanto. O médico brasileiro viu-se perante um dilema: dar-lhe qualquer coisa para as dores ou tomar alguma coisa para não se desmanchar a rir? A cena prolongou-se por algum tempo até que, percebendo que o árbitro não ia expulsar Layún, Neymar levantou-se, sacudiu a poeira e voltou ao campo. Mais um dia no escritório. O adepto bem pode perguntar: que necessidade é que ele, um jogador com tanto talento, tem de fazer aquilo? É mais forte do que ele. É como a Winona Ryder nas lojas de roupa. Neymar Jr. é a Winona Ryder dos fiteiros. Ele pode marcar um hat-trick, um golo de bicicleta, fazer uma assistência com passe de letra, mas o jogo só fica completo com uma simulação infame, daquelas com esgares de uma dor mortal, uma agonia de Ema Bovary.

É uma grande injustiça para o talento futebolístico do próprio Neymar, para o futebol dos seus companheiros e para o trabalho de Tite. É que o Brasil, pela primeira vez desde há muitas Copas, tem jogado como uma verdadeira equipa. Como criar uma equipa a partir dos talentos disponíveis é a questão crucial do futebol de seleções, mas, no caso do Brasil, é uma questão transcendente, existencial. Não é tanto o mistério de, muitas vezes, os inúmeros talentos brasileiros não resultarem numa equipa, como a desconfiança gradual de que o típico talento brasileiro é o maior obstáculo à construção não só de uma equipa, mas de uma equipa ganhadora. Pelo menos desde 1994 os treinadores da canarinha têm abordado o problema de duas formas: a) submetendo o talento a uma espécie de ditadura do proletariado em que o talento só é chamado a intervir cirurgicamente (Brasil 94), b) optando por uma anarquia em que talentosos e proletários são atirados para dentro do campo na esperança de que se organizem por milagre (Brasil 02). Esta última receita foi repetida, por exemplo, no último Mundial, com os resultados desastrosos que se conhecem. Mas foi preciso a hecatombe de Belo Horizonte e uma nova aposta em Dunga para a CBF inverter a marcha.

Agora, com Tite, o monstro finalmente parece funcionar. Estão lá os capangas do costume, mas seria preciso muita criatividade para dizer que esta é a seleção de Casemiro, não obstante o seu papel fundamental na equipa, como se dizia que a de 94 era a seleção de Dunga, o exterminador implacável. No início do jogo com o México, o Brasil ainda passou mal, com Vela e Lozano a atormentarem Filipe Luís e o pobre Fágner, com o seu aspecto secundário de novela das seis. Mas assim que os mexicanos ficaram sem combustível no depósito, o Brasil assumiu o controlo do jogo com toda a naturalidade e mesmo quando esteve por baixo nunca demonstrou ser aquela equipa à beira de um ataque de pânico de há quatro anos. Thiago Silva, que terminava os jogos com o ar de desgaste emocional de quem acabou de sair de um culto da IURD, agora actua com a frieza de um funcionário da alfândega: não passa nada por ele.   Parece haver um plano que, ao contrário do Brasil de Parreira, de Scolari e de Dunga, não se baseia em ferrolhos lá atrás e fé nos génios. Há cuidados e cautelas, mas não são eles o, por assim dizer, eixo filosófico da equipa.

Na semana passada, Tite, em modo Sun Tzu, disse que o lobo precisa da alcateia e que a alcateia precisa do lobo. É sempre bonito quando treinadores e jogadores começam a falar como se fossem índios do Danças com Lobos. Uma pessoa percebe que há ali qualquer ensinamento a retirar, só não sabe é qual. Arrisquemos: a equipa precisa de um líder e o líder precisa da equipa. Pode ser. O talento precisa dos operários que o amparem e os operários precisam do talento que os ilumine. Também está bem. Ou, então, Tite quer dizer que ou atacam e defendem com a coesão de uma alcateia ou morrem à fome. Bem, podem sempre ficar à espera que o lobinho Neymar ludibrie um camponês e lhe consiga roubar uma galinha, mas a ideia de Tite é que mesmo para Neymar roubar a galinha é melhor trabalharem em conjunto. A forma limpa como arrasaram a capoeira mexicana demonstra que estão no caminho certo.

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Dias antes do jogo, Marcelo lesionou-se. De acordo com o médico da seleção, o lateral-esquerdo teve um espasmo lombar devido à fraca qualidade dos colchões russos. Questionado sobre o tema, Casemiro foi tão eloquente como costuma ser eficiente a cortar bolas. Desvalorizou a explicação do clínico e recordou as dificuldades da infância. Quem já dormiu no chão vai agora queixar-se da falta de colchões ortopédicos das tele-vendas? Com tanto espalhafato de Neymar, sabe bem ouvir um jogador brasileiro sem feitio para fitas.

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Pobres japoneses. Estiveram a um pequeno passo da glória e agora devem estar a amaldiçoar José Mourinho. Roberto Martínez, treinador da Bélgica, após aprofundada análise táctica, optou por aquela solução rupestre que se tornou uma das imagens de marca do United de Mourinho: pontapé para a frente e fé no Fellaini. Resultou melhor que o tiki-taka moules-frites.