Envelhecimento

No país do “has been” /premium

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Somos portugueses e temos orgulho em sê-lo, importa que Portugal reconheça todos, novos e velhos, façam o que fizerem ou tiverem feito, coisas grandes ou modestas, como o seu mais importante capital.

Foi importante, ocupou cargos relevantes, teve direito a primeiras páginas, ou mesmo segundas, entrevistas na televisão, carro com motorista, passadeira vermelha, holofotes, prebendas várias, tudo isso ou só parte disso.

É em geral mais velho, mas também pode ser jovem, foi político, empresário, CEO, artista, desportista, dirigente associativo, ou outra coisa qualquer que lhe tenha dado palco.

Aplica-se ao “has been” o prefixo ex: ex-ministro, ex-campeão, ex-director-geral, ex-chefe, ex-jornalista, ex-isto e ex-aquilo (pode também usar-se o adjectivo “antigo”, como em antigo Embaixador ou antigo Chefe do Estado Maior, mas é menos simpático).

Foi útil ao país, à sua empresa, à empresa de outros, ou nem por isso, criou Fundações e dessarte se fez perene (talvez eterno), nesse caso poucos de nós o podem imitar, ou talvez tenha tido apenas os seus 15’, comprazendo-se no espelho da sua própria e fátua notoriedade, recusando-se a cair no esquecimento.

São cada vez mais os “have been” em Portugal. Porque desde a implantação da democracia houve milhares de titulares de cargos políticos, centenas de meios de comunicação social criados e outros tantos extintos, muitas empresas com sucesso e outras tantas despenhadas na falência, actores e escritores e cantores e desportistas que se alçaram por instantes e mérito próprio ao pináculo da fama e de lá caíram. Naturalmente.

O aumento da esperança de vida também aumentou o número dos “have been” e, sobretudo, a sua longevidade. Isto é, não apenas “já foram” mas sê-lo-ão por muito mais tempo.

Em português, “has-been” pode traduzir-se por “ultrapassado”. “Já era”. Mais prosaica e cruelmente, um “falhado”. Nada disso: um “has-been” que aceite a sua condição, sem deixar de estar activo, assim a sociedade o permita, sóbrio nos propósitos e contido nas críticas e na apreciação dos que depois de si venham, sem demonstrar inveja ou ressentimento, não é um falhado nem um ultrapassado, é um membro útil e essencial do fabrico social.

Ora eles são cada vez mais, como escrevi. Reformados mas não conformados. Retirados mas não convencidos. Percebe-se que têm saudades do tempo em que eram o que foram. E isso representa para o país um enorme capital, de experiência, maturidade e saber-fazer.

E também pode ser um problema real.

Há dois lados na questão: quem foi relevante tem de saber deixar os outros, mais jovens, ou mesmo que o não sejam, ocupar o seu lugar, sem dramas nem reminiscências vãs (“como eu fazia…”). Porque chegou a altura. Porque é assim a vida, a democracia, o negócio, a empresa, o campo de futebol.

Tem de saber, desde logo, sair a tempo.

Então nada é pior do que não sair a tempo? Errado. Pior ainda, tendo saído a tempo ou a destempo, é continuar a agir, incluindo no espaço público, como se ainda fosse seu o palco, o mesmo de antes, como se ainda tivesse poder, influência, reputação, na passada apoucando aqueles para quem o tempo é agora, é o deles, que “são” agora o que ele já foi.

Escrevi em tempos sobre a perda de importância que o envelhecimento acarreta. O longo naufrágio a que se referiu De Gaulle e que condena tanta gente válida ao ostracismo. A eles todos, e em minha própria intenção, conjurei: “…continuem vivos, recusem o naufrágio; se for preciso, mandem o bote à água e embarquem nele para mais uma aventura, uma só aventura mais. Recusem a ideia da peste grisalha, dos velhos que impedem a progressão dos novos, porque tão racista é a recusa dos outros por causa da cor da pele, como de alguém por ter mais idade. E competência é competência, aos 20 como aos 60”. Escrevi-o e reitero-o.

Mas não se confunda essa recusa com a obstinada procura das luzes da ribalta.

“Do not go gentle into that good night, Old age should burn and rave at the close of day; Rage, Rage against the dying of the light” (“Não entreis com gentileza nessa noite doce, A velhice deve arder e delirar ao findar do dia; Raiva, raiva, contra a agonia da luz”):

Não, o poema de Dylan Thomas, não apela à revolta contra os novos, os que ocupam funções que ocupámos antes e se incumbem do que há anos nos incumbimos. É na quietude dinâmica, no respeito pelos que nos sucedem, guiados pelas convicções até ao finar da luz, que nos fazemos respeitar e nos afirmamos vivos antes de, com naturalidade, deixarmos de o estar.

Há hoje em dia recursos, canais de comunicação, formas e conteúdos disponíveis em número suficiente para quem quiser manter-se activo, qualquer que seja a sua idade. Ninguém precisa de viver a vida em bicos de pés, a exigir que reparem nele.

O “has been” que não entenda isso, destrói o seu legado e apouca o seu merecimento, contribuindo ainda para alimentar o discurso imbecil dos que afirmam estar Portugal infectado pela “peste grisalha”. Num país que inexoravelmente vai envelhecer, a terceira idade será cada vez mais um pilar da sociedade, um activo valioso e a preservar.

E é por isso que o “has been” que age fascinado pela profundidade do seu próprio umbigo será apenas um “has not been”. Algo que ele próprio se encarrega de revelar.

Somos portugueses e temos orgulho em sê-lo, importa que Portugal reconheça todos, novos e velhos, façam o que fizerem ou tiverem feito, coisas grandes e coisas modestas, como o seu mais importante capital.

Para que as saudades do tempo que passou nos tornem dignos cidadãos do futuro, enquanto habitarmos nele, ou mesmo depois disso…

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