Rádio Observador

Bruno de Carvalho

O estigma /premium

Autor

Ultrapassaram-se todos os limites da sordidez. Esta notícia é a demonstração do desrespeito que grassa sobre a saúde mental, pois nela há a insinuação torpe de que o visado estará “doente da cabeça”.

Agora não importa saber se o senhor conhecido pela alcunha de “Mustafá” é o hipotético dirigente, como o nome poderia indiciar, de uma célula sportinguista do califado. Nem me interessa escabulhar na enjoativa sucessão de notícias sobre a detenção do Dr. Bruno de Carvalho para interrogatório, mau grado o homem já seja culpado antes de ser acusado. Não, não me interessa estar aqui a discutir as complexidades e atrasos da justiça portuguesa, nem a ininteligibilidade social das penas aplicadas, nem a necessidade de se permitir prisão preventiva sem acusação.

Interessar-me-ia mais discutir a cobertura mediática que se faz sempre que alguém supostamente “importante” é preso, com a resultante elevação de estatuto pela própria detenção, cada vez com maior impertinência jornalística, sem respeito pelas suas famílias, pelos encarcerados e pelo público em geral. Tem de haver limites nos locais, momentos, perguntas – algumas de uma estultícia exuberante – e nas pessoas a quem elas são dirigidas. O que pode um pai dizer, à porta da cadeia improvisada, sobre a detenção do SEU FILHO?

Chegámos a um estado de coisas em que se faz o essencial do julgamento antes de começarem as audiências, aplicam-se as penas nos cafés, entre a leitura das últimas de desporto, modas – que pirosa que ela ia — e casamentos, e, no meio disto tudo, ainda há a possibilidade de transformar o hipotético culpado em vilão ou vítima consoante o gosto de cada um.

Enfim, vivemos um tempo em que é mais conveniente falar de futebol, dos seus “dirigentes”, do nosso explorador anal e de todo o tipo de coisas picantes e essencialmente irrelevantes para a vida diária de cada um. Claro que isto serve a quem procura vender notícias — note-se que sou um viciado na imprensa que desejo livre –, tal como serve uma certa prática da política que está mais interessada em que se avaliem feitos proctológicos, certamente sob a ressalva de terem sido consentidos, penaltis mal marcados e condecorações coletivas de equipas vencedoras, cujo mérito não contesto.

Bem melhor para as fotografias e para que não se perca tempo a falar de crescimento económico em desaceleração, da saúde precária, de equipamentos obsoletos, de falta de camas nos hospitais, da crescente escassez de médicos especialistas, de greves, e das listas dos desesperados pela espera de cirurgias, consultas ou tratamentos. E, no tema da segurança pública, é bom evitar falar da falta de efetivos ou das condições lamentáveis dos meios de transporte para os operacionais.

Reparem como a nossa imprensa sustenta o duplo vínculo de exigir eficácia na luta contra o crime e, ao mesmo tempo, reprova o uso da força que, quando praticada pelas polícias, é sempre excessiva, mesmo quando usada em resposta a tiros disparados sobre os agentes ou guardas. Ou, falando de justiça, não interessa mergulhar nas condições dos tribunais, tão más como as de muitos hospitais e centros de saúde que ainda esperam por remodelação ou substituição. “Mergulhar” não é figura de estilo se nos lembrarmos da água que algumas construções metem durante as chuvas de inverno.

E ainda há Tancos, onde o papel do Estado e dos seus agentes está por explicar, e há os fogos, e há tantas outras coisa mais importantes do que o futebol e os seus agentes. Desculpem-me os aficionados mas também não consigo considerar o toureio e a cinegética como as prioridades primeiras do debate sobre a Nação.

Neste estado de coisas, a minha indignação é ainda maior quando pude ler, em sítio de jornal desportivo – também os leio – que “Bruno de Carvalho está a ser medicado com calmantes e antidepressivos, o que já acontecia antes de ser detido, segundo o Correio da Manhã. O diário da Cofina relata que as autoridades encontraram em sua casa várias embalagens de medicamentos, que foram levadas para o posto da GNR de Alcochete, onde continua a tomar a medicação”.

Ultrapassaram-se todos os limites da sordidez. Esta notícia é a demonstração, como se ainda nos faltassem provas, do desrespeito e desconsideração que grassa sobre a saúde mental. Há a insinuação torpe de que o visado estará “doente da cabeça”, como se isso fosse, por si só, condenável e desvalorizante. O nosso concidadão que agora está em avaliação de natureza criminal, caso entenda pedir inimputabilidade, precisaria de avaliação pericial antes de se lhe atribuir um qualquer rótulo patológico. E, se isso acontecesse, teria todo o direito à sua privacidade e segredo médico. Afinal quem foi que entendeu revelar aos jornalistas, que não tiveram pejo em publicar a informação, a suposta medicação prescrita ao detido?

E nem há defesa possível. Tomar medicamentos não é desonra, seja para o que for, nem ter ansiedade ou depressão pode ser socialmente pior do que ter enxaquecas ou sofrer do fígado. As doenças de cada um e a gravidade das mesmas são assuntos pessoais, do mais privado que existe. Quando será que a população, toda ela, os jornais, os fazedores de opinião, compreenderão finalmente que a saúde mental é uma das bases do bem-estar de toda a sociedade.

Se há uma pessoa que toma medicação para o sistema nervoso central, ninguém, a não ser o próprio, a sua família dentro dos limites que a pessoa medicada quiser estabelecer, e quem o trata devem ter interesse nisso. Se há pessoas medicadas para perturbações, distúrbios ou doenças mentais, chamem-lhes o que quiserem, temos de nos congratular. Desejamos que a prescrição tenha sido tecnicamente indicada e que faça o efeito pretendido. Preocupemo-nos mais com os que ainda não conseguiram ter uma consulta com o psiquiatra, não têm acesso a psicoterapia, ainda estão no enorme grupo dos que precisam de avaliação diagnóstica e eventual tratamento.

Olhemos para a nossa sociedade, para as formas como nos organizamos, para as nossas cidades, escolas e locais de trabalho para percebermos o que temos de fazer para prevenir os problemas de saúde, não só a mental, e educar a população sobre a imperiosidade de evitar o estigma que se exerce sobre os doentes, erradamente julgados como os mais fracos, com especial enfoque sobre os que sofrem de patologia da área mental. Por favor, leiam este texto do Dr. Horta Osório, um dos mais importantes que li nos últimos anos, pela forma em que está escrito, pela grandiosidade de quem o escreveu e pelo seu conteúdo e valor informativo.

Aproveitemos a discussão em torno do comportamento de adeptos desportivos para rever a maneira como a comunicação, tribal e adversa, se faz sobre todo o tipo de modalidades, cuja prática pública se tornou em espaços bélicos urbanos. Melhorem os programas de televisão e rádio sobre futebol e quejandos. Usem o desporto como promoção da saúde, eliminem o estigma, seja de que tipo for. Grita-se pelo fim da discriminação racial, de sexo, de género – esta magnífica invenção do socialmente correto –, das preferências sexuais, dos deficientes, dos infetados com HIV, mas nunca mais chega a hora de acabar com a estigmatização da doença mental, onde a rotulação das pessoas é muito prejudicial para a procura de ajuda e cumprimento de qualquer plano terapêutico,

Pobre País em que a medicação que cada um toma é notícia. Desgraçada comunicação social que propala e promove o estigma sobre a medicação psiquiátrica. Há um enorme caminho de educação sanitária e social que todos temos de percorrer. Seria bom que a nossa comunicação social deixasse de ter comportamentos como os dos que escreveram e publicaram a notícia sobre os psicofármacos encontrados em casa do Dr. Bruno de Carvalho. Precisamos de um imprensa forte, livre, denunciante, proativa e investigadora. Dependemos da informação, da boa e da relevante. É mais importante escrever sobre medicamentos a que os doentes não têm acesso do que sobre as prescrições de um arguido. Uma coisa é certa, se ele tomasse anti-hipertensores – não sei se toma – não haveria notícia. E, no entanto, a hipertensão mata e é prevenível.

Não queremos ser todos iguais, pois não?

Maio de 2014, nasceu o Observador. Junho de 2019, nasceu a Rádio Observador.

Há cinco anos poucos acreditavam que era possível criar um novo jornal de qualidade em Portugal, ainda por cima só online. Foi possível. Agora chegou a vez da rádio, de novo construída em moldes que rompem com as rotinas e os hábitos estabelecidos.

Nestes anos o caminho do Observador foi feito sem compromissos. Nunca sacrificámos a procura do máximo rigor no nosso jornalismo, tal como nunca abdicámos de uma feroz independência, sem concessões. Ao mesmo tempo não fomos na onda – o Observador quis ser diferente dos outros de órgãos de informação, porque não queremos ser todos iguais, nem pensar todos da mesma maneira, pois não?

Fizemos este caminho passo a passo, contando com os nossos leitores, que todos os meses são mais. E, desde há pouco mais de um ano, com os leitores que são também nossos assinantes. Cada novo passo que damos depende deles, pelo que não temos outra forma de o dizer – se é leitor do Observador, se gosta do Observador, se sente falta do Observador, se acha que o Observador é necessário para que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia, então dê o pequeno passo de fazer uma assinatura.

Não custa nada – ou custa muito pouco. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
Serviço Nacional de Saúde

Perguntas incómodas

Fernando Leal da Costa

Eram 116 as razões para fechar a MAC, hoje ainda mais evidentes pois a necessidade de rodar urgências seria evitada se o número de maternidades de Lisboa fosse o adequado ao número de partos na região

Medicamentos

Sobre as Matildes

Fernando Leal da Costa
138

Queixamo-nos de que pagamos demasiados impostos. Há quem prometa baixá-los, quem exija cortá-los, mas ninguém nos explica como sustentar o SNS onde os medicamentos tenderão a ficar cada vez mais caros

Saúde Pública

A legalização da venda de estupefacientes

Fernando Leal da Costa

O debate ideológico ou moral não nos esclarece sobre o que é mesmo importante. Em causa não está saber se a venda deve ser legal, mas se a legalização da venda introduz ou tira valor à saúde pública.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)