25 de Abril

O milagre dos cravos /premium

Autor
2.006

Basta colocar um cravo ao peito para os vigaristas passarem a incompreendidos; os ditadores a democratas e os actuais ministros a oposição. Já o BE esquece as PPP com Salazar e Bolsonaro.

Depois de assistir à última manifestação do 25 de Abril tenho a certeza de que os milagres acontecem nesta terra predestinada. Falo naturalmente do milagre dos cravos. Aliás estou  mesmo convicta de que o milagre das rosas não é nada ao pé do milagre dos cravos. Álvaro Cunhal apoiava e admirava o terror soviético mas de cravo ao peito transformava-se num combatente pela liberdade. Jerónimo de Sousa pega num cravo pronuncia “Abril” com fervor beato e lá se esfumam os seus ditirambos sobre a Coreia do Norte e a mordaça que impõe ao movimento sindical. Aos militares então, a junção entre fardas e cravos garante-lhes o estatuto da santidade.

Não há incredulidade ou cepticismo que não se rendam diante do milagre dos cravos: em Portugal, basta colocar um cravo ao peito para os terroristas passarem a combatentes pela liberdade; os vigaristas a incompreendidos; os ditadores a democratas; os medíocres a intelectuais e os parasitas a solidários.

Mas a esta transfiguração que já estávamos mais ou menos habituados acresceu este ano um mistério que a teologia não explica mas a política esclarece: os ministros e os parceiros do Governo puseram cravo ao peito e de imediato deixaram de ser Governo para se tornarem oposição. Na avenida da Liberdade, cravo na mão, a ministra da Saúde já não é a ministra que tem de explicar como foram retirados nomes das listas de espera para se tornar numa manifestante defensora do mesmo SNS que deixa degradar a níveis nunca vistos.  Já o secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, António Mendonça Mendes transfigurou-se em jovem e desfilou com os manifestantes da Juventude Socialista que gritavam: “Queremos revolução, socialistas em acção“. Sendo certo que a única revolução que está  por fazer em Portugal é precisamente a que derrube a ditadura fiscal presidida pela secretaria de Estado dos Assuntos Fiscais, cabe perguntar se o senhor secretário de Estado dos Assuntos Fiscais quando miraculado em jovem manifestante nos toma por parvos ou se faz parvo? Por fim o ministro das Infraestruturas e Habitação, Pedro Nuno Santos, desembaraçado do Porsche, além do cravo muniu-se de calças de ganga, o que para o caso faz do seu um milagre  ainda mais promissor.

Segundo o Expresso aconteceram ainda outras manifestações que não tenho força terrena nem fé qb para analisar,   como ouvir as criancinhas ditas “afectas” ao PCP cantar  “Somos a esperança, em cada criança há sinais de mudança“. E é claro, tivemos Mariana Mortágua entoando rimas e Catarina Martins, que além de entoar também sabe fazer os gestos, transfiguradas em arrebatadas opositoras. De quê e de quem? Do Governo que como aqui assinala Cristina Miranda maquilha as contas da Segurança Social? Da transformação do aparelho de Estado numa rede familiar a que já nem os cemitérios escapam?… Nada disso. Opositoras de Salazar e Bolsonaro. Um longe no tempo – Salazar morreu em 1970! – e o outro, Bolsonaro, está a quilómetros de distância. Assim devidamente munidas dos seus demoniozinhos úteis, mais o Santo António, os cravos na lapela e o megafone, as dirigentes do BE protagonizavam não apenas o milagre de passarem de suporte do governo a contestatárias do sistema mas também levavam a cabo o exorcismo que as desembaraçava do fantasma da negociação das PPP.

Tendo em conta que apesar de tudo a descrença se pode instalar entre os assistentes destas transfigurações o  melhor será a manifestação do 25 de Abril passar da avenida da Liberdade para o Parque Mayer. A revista à portuguesa já viu coisas piores.

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Crónica

Portugal, país-slime /premium

Helena Matos
1.256

Estão a ver aquela massa viscosa com que as crianças se entretêm? O slime, claro. Portugal está a tornar-se num país-slime, onde os valores são moldados a gosto e a responsabilidade não  existe.

Crónica

Os amigos /premium

Helena Matos
780

Os amigos uns dos outros. Os amigos de Peniche. Os amigos dos animais. Os amigos do alheio. O amigo de todos... Com amigos assim não precisamos de inimigos. 

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