A PETA (quase acrónimo de pêta) veio recentemente contestar a utilização de alguns provérbios que podem ser tomados como hostis aos animais. Consequentemente, em vez de agressivamente dizermos “kill to birds with one stone”, tal como os ingleses ou “matar dois coelhos com uma cajadada só” como utilizamos largamente em território lusitano, devemos antes amavelmente declamar “feed to birds with one scone”, mesmo que isto altere completamente o que pretendemos dizer na situação corrente. Afinal nutrir e amar é um plano muito mais idílico do que a fome e a morte. Na verdade, quanto menos negarmos esse espectro, melhor será para a condição humana, já que ele deixará de existir.

O politicamente correto é a solução da vanguarda! Porque devemos complexificar a semântica da vida e inclusive dos processos linguísticos, quando podemos aniquilar cordialmente um legado inteiro ancestral de provérbios, cujo significado vai além das letras e dos objetos concretos que o compõem?

O PAN também seguiu o conselho da PETA. Desta forma, não devemos usar o termo “agarrar o touro pelos cornos”, mas sim “agarrar a flor pelos espinhos”. O que me leva a crer que com o recente reconhecimento da emoção nas plantas, daqui a pouco temos uma PETF a entrar em conflito com este exemplo também. Já agora, acho que não devemos abordar o touro como um exemplo mítico de uma figura quase ctónica, devido à sua robustez e agressividade. Esta representação pode dar aso a uma bravura desmensurada do arquétipo do herói. Nessa narrativa, onde o herói segura simbolicamente o touro pelos cornos, como se na realidade concreta, fosse uma analogia a que um humano enfrentasse um problema de alta magnitude.

Num tom mais sério, se acreditarmos que os provérbios fazem uma simples referência a narrativas, histórias míticas, estados oníricos e coisas simples que retratam a complexidade da realidade, resta-me uma opinião. Os nossos antepassados dormiam melhor, porque tinham uma imaginação e uma tonalidade de sonhos mais fértil, que lhes permitia simbolicamente representar adequadamente os problemas da vida. Além disso, poderiam regar este conhecimento implícito além gerações. Por isso é que quando me acontecia algo, a minha avó retirava sempre da cartola um provérbio (não um coelho), que me ajudava a refletir sempre sobre o assunto, mesmo que na verdade esse provérbio envolvesse coelhos.

O politicamente correto é pouco criativo e deve ser por isso que não retira grandes coelhos da cartola. A utilização da demagogia tem promulgado a criação das polaridades que temos assistido. Na sua amigável tirania, utiliza artimanhas que colocam o legado cultural e histórico como seu vassalo. Apresento-vos um provérbio díspar do teor da mensagem, que tem sido transmitido ao longo das gerações na minha família e que nos ajuda a pensar sobre a vida: “somos prisioneiros da própria liberdade”.

Ponderando imenso sobre este assunto cheguei a uma conclusão. Cortem-me a língua! Olhando o meu veneno sátiro e maquiavélico, parece que me aproximo mais de uma víbora do que de um homem crescido. Raios! Lamento por ter cometido outra vez o mesmo erro, utilizando este recurso linguístico… Afinal coitadas das víboras que são tão simpáticas que nem andam por aí a morder assuntos destes.