Algumas pessoas acham que um país é como um vapor ou uma substância radioactiva que afecta todos os que vivem nele. Acham que há qualidades no solo, ou que aquilo que se passou naquela área deixou marcas que se sentem muitos séculos depois. Outras pessoas, reagindo a esta teoria, acham pelo contrário que um país é aquilo que em cada momento aqueles que lá vivem decidem que é; e que os que lá vivem têm em cada momento a capacidade de mudar tudo; e por isso cada momento é temporário e reversível.

A primeira teoria exagera para o lado da predestinação; por um lado nunca ninguém, e com certeza nenhum químico, isolou as substâncias de que os países seriam feitos; e todas as teorias sobre a memória dos materiais são fantasiosas, pelo menos no sentido em que estar num sítio não me faz fazer coisas parecidas com as coisas que os meus antepassados fizeram nesse sítio: partir a caminho de Ceuta ou fundar um clube de bingo.

A segunda teoria exagera para o lado do livre-arbítrio. Exagera aquilo que em cada momento as pessoas de um país podem fazer acerca de si próprias e desse país; exagera as capacidades das nossas decisões, como se todas as coisas pudessem ser mudadas por decisões e por acções humanas. E no entanto todos concordariam que se um referendo entre formigas decidisse que seria mais vantajoso a espécie passar a ser dotada de uma sétima pata não se seguiria desse exercício o desenvolvimento de uma pata suplementar.

Há certas coisas que os habitantes de um país podem decidir fazer (passar a guiar pela esquerda, privatizar os tribunais, proibir a construção no leito das ribeiras); e outras que não (decidir que dois é a raiz quadrada de nove, respirar debaixo de água ou construir um futuro melhor). Há certas coisas que sabem como fazer (normalmente, embora nem sempre, as que podem decidir fazer); e outras que não têm a mínima ideia de como se faz (normalmente, mas nem sempre, as que não podem).

Um país são certas modos característicos de fazer as coisas, isto é, uma soma de deliberações, actividades e fantasias. Esses modos alteram-se, embora muito devagar e raramente por decisão. Existem além disso afinidades entre modos de fazer as coisas e por isso afinidades entre países; mas raramente essas afinidades são completas. A quem vai de Portugal pela primeira vez a Espanha espantarão sempre os ferros forjados, e as senhoras a fazer tricot à beira-mar; a quem vem de Espanha pela primeira vez a Portugal a maneira como se usa a palavra ‘alegado’, e a obsessão com bolos. Ora nenhuma destas coisas se começou a fazer por decisão; e nenhuma nasceu exactamente do clima e da história. Os países não são o resultado de decisões, do clima, ou da história; os países não são resultados.