De repente, liga-se a televisão ou abre-se o jornal e deparamo-nos com um não tão admirável mundo novo que se vai revelando ao abrigo e sob a cobertura deste Covid, que é notícia de abertura todos os dias. São nacionalizações sem fundamento plausível, injeções de capital milionárias em empresas de “bandeira” cronicamente falidas e que nos deixam a todos cheios de dúvidas e desconfianças, ainda que nos digam que assim “cada português fica com um bocadinho da TAP”. Eu sempre quis ter uma roda de avião, se puder ser, mas da Efacec não sei o que me possa calhar… E ficamos a perceber que nos endividámos todos por decisões em prol da boa imagem do Governo, mas o dinheiro já não chega para pagar um suplemento salarial a todo o pessoal médico que lutou, sem olhar à sua saúde, às suas famílias, muito para além das suas forças… e salvou vidas! Vidas a sério! Não são só números e estatísticas e racios do Governo: vidas humanas que ainda vão ter muito para dar a este mundo. E agora o milagre português volta ser só Fátima, porque o desconfinamento trapalhão e desorganizado faz-nos ficar outra vez na lista negra da Europa.

E mais, ali aparecem alterações ministeriais sem cobertura, sem as explicações necessárias e devidas e quase à revelia da população que, quando abre os olhos, nem sabe o que lhe aconteceu. Dizia-se que a meio da batalha não se mudam generais, mas afinal, em vista de uma das maiores crises económico-financeiras mundiais, desautorizam-se generais e comandantes com a conivência do presidente dos afectos, que, com a necessidade de manter distâncias de segurança, resolveu governar com o Governo e, como se temia, mal…. Muda-se tudo e deixa de haver quem responda pelo que foi feito ou decidido, no passado ou para o futuro próximo, nas nossas contas de 2020 e 2021.

E tudo passa entre os pingos da chuva ou entre os números do Covid…

Mais súbito e brutal ainda, face a uma actuação bárbara de um polícia branco sobre um negro, que ficou gravada num telemóvel nos EUA, sublevam-se pessoas do mundo inteiro – todos passamos a ser racistas, nem que seja porque, no limite, os nossos penta-avós aceitaram a existência de escravos; retiram-se das redes de streaming filmes clássicos e históricos que fazem parte da mais básica cultura cinéfila de qualquer um de nós; vandalizam-se estátuas e vilipendiam-se pessoas de valor, de cultura, de bem, com feitos e obras comprovadamente excepcionais, só porque viveram numa época em que a escravatura era parte da vida de todos e viveram de acordo com as suas épocas. Profundamente errada, desumana e criminosa aos nossos olhos, a escravatura era inquestionável aos olhos de quem viveu aqueles tempos e, como tudo na história dos Homens, tem de ser analisado à luz das suas épocas e dos valores e culturas que eram as suas.

E mais grave e assustador: a reboque desta vaga anti-racista (que funciona só para um lado) vemos o Governo anunciar discretamente que vai passar a monitorizar a internet para detectar discursos de ódio! Assim, de repente, até podia parecer uma coisa boa ou útil… mas não, não parece e não é!! A simples ideia de “monitorização” de discursos, sejam estes de ódio, de amor, de amigo ou de escárnio e mal dizer, repugna até à medula o mais básico defensor de um Estado de Direito, da liberdade de expressão, da liberdade de pensamento, da liberdade… enfim!

Sempre disse, no que me toca, que, nem que ficasse tonta e quisesse deixar de defender o Estado de Direito, nunca o poderia fazer, mais não fosse por interesse próprio, porque em qualquer sistema onde não existisse liberdade de expressão eu seria das primeiras a ser presa e, no mínimo, deportada para as Desertas para falar para as cagarras!!

Agora sinto-me apreensiva… estarei eu próxima de ter de limitar as minhas prosas?

Quem vai definir o que serão discursos de ódio para efeitos desta tal monitorização? E quais serão as consequências ? Será que, quando na minha veste de portista primária, irei ser acusada de discursos de ódio, quando no auge da minha transfiguração, disser alarvidades sobre quem quer que esteja a jogar contra nós? Será que quando falar de pedofilia, violação ou homicídio qualificado, vou ter de ter um discurso moderado ou usar o “alegadamente” que tenho de usar na minha profissão?

Confesso que esta monitorização, associada à novilingua já adoptada por marcas de cosmética, que retiram dos seus produtos termos como “branqueamento”, me lembra cada vez mais, assustadoramente, Orwell e que tudo me aterroriza e me leva a falar e a escrever… porque para que o mal vingue basta que os Homens de bem fiquem calados…

Apesar de tudo, ainda estamos só na espuma dos dias…

Mas, se isto tudo for avante, o que virá à seguir? Que mais daquilo que dizemos na internet virá a ser “monitorizado”? Que outras palavras deixaremos de poder utilizar? Quem o vai decidir? E para que efeitos? E com que consequências?

Chamem-me catastrofista, mas de onde estou sentada prefiro falar e berrar a minha indignação!

É de um mundo assustador, aquele futuro que se antevê daqui, do meu sofá…