Há pouquíssimo tempo, depois de 12 anos de poder incontestado do PT, ninguém dava um tostão furado pelo candidato relativamente pálido do PSDB, Aécio Neves. Sem dúvida, parte importante da história da eleição quase perdida pela presidenta Dilma, deve-se à irrupção meteórica de Marina Silva na sequência da morte do candidato do PSB, Eduardo Campos. Sem a brecha introduzida por Marina na fortaleza governamental e clientelar do PT, Aécio não teria tido a oportunidade que teve e que, por pouco, não o levava à presidência, abrindo hipoteticamente o caminho à modernização política e social do Brasil. A oposição ao PT quase não existia e não possuia um líder. Agora, tem uma cara, Aécio, e o país está «rachado em dois». Neste sentido, a mudança já começou.

Com o resultado mais curto da história das eleições presidenciais brasileiras, que Dilma ganhou por 3% em mais de 100 milhões de votantes, o PT vence na metade norte do país, pobre e assistida, mas perde de forma igualmente maciça na metade sul próspera e moderna encabeçada por S. Paulo. Está aberta a campanha para a próxima eleição e, daqui até lá, será incessante a disputa sobre o modelo societal que o Brasil seguirá.

Nesta batalha, Aécio parte com o vento atrás de si contra uma presidenta quase derrotada e sem fôlego político nem económico. Basta dizer que o congresso brasileiro, já conhecido por uma fragmentação única no mundo e pela troca constante de favores, ficou depois destas eleições mais fragmentado do que nunca. O poder do PT sobre a sociedade será, a partir de hoje, o alvo único de toda a contestação e de todas as contra-propostas das oposições organizadas, bem como dos movimentos sociais desencadeados antes das eleições, para não falar dos processos contra a corrupção, a começar pelo caso da gigantesca Petrobrás.

Nada leva a crer que Dilma, Lula e o PT tenham rins para dar volta a isso, como demonstraram durante o final da campanha ao apelarem ao medo dos «pobres» do norte contra os «ricos» do sul, que pretenderiam roubar-lhes o «bolsa família» e o programa da «minha casa, minha vida». É o medo difuso que explica, no mundo inteiro, a propensão de uma massa significativa do eleitorado para apoiar os candidatos à reeleição, segundo o princípio de que estes, por maus que sejam, já são conhecidos, enquanto os novos candidatos nunca se sabe…

As caras fechadas e os sorrisos forçados do «palanque» da Avenida Paulista ao comemorar a vitória de Dilma não deixam pressagiar que sejam capazes de convencer muita gente a acreditar nas suas promessas de «liderança pacífica». Nem a base mais ideológica e aguerrida do PT consentiria isso. Esta olhará agora para Aécio, o PSDB e a sua base social com mais de 50 milhões de eleitores, recrutados nos estados mais desenvolvidos do Brasil, como concorrentes permanentes com uma credibilidade acrescida; mais do que isso, como uma alternativa pronta a assumir as suas responsabilidades.

Não é possível conhecer desde já o pensamento do PSDB e dos seus aliados potenciais a este respeito, nem as capacidades de liderança pessoal de Aécio. Em compensação, podemos estar certos de que o enorme aperto político em que o PT se encontra, bem como a completa contradição da sua base eleitoral de hoje comparada com a da primeira vitória de Lula, farão vir ao de cima o dirigismo – e as pressões – do seu esquerdismo ideológico original. E com este virão os slogans contra a «direita» e o «imperialismo», assim como os correspondentes apoios aos países latino-americanos por menos democráticos que sejam, tipo Venezuela, assim como à frente económica e não só dos «emergentes», continuando assim a alimentar a nova guerra fria larvar.

Há quem pense que seria mais possível o PT aliar-se ao PSDB para promover uma efectiva «reforma política», mas isso seria reconhecer que esses dois partidos são, efectivamente, as duas únicas forças políticas significativas com um quantum de coerência ideológica equiparável à dos grandes partidos das democracias consolidadas. Ora, isso está excluído do horizonte do PT. O que este fará porventura, como Dilma anunciou na noite da eleição, é recuperar demagogicamente a proposta de plebiscitar uma alegada «reforma política» proposta pelos manifestantes do ano passado.

O mais verosímil, contudo, no quadro da actual perda de ritmo do crescimento económico e da extrema fragmentação partidária, onde nenhum dos 27 partidos (!) terá uma posição de domínio (basta dizer que o PT, sendo o maior deles, não chega a ter 15% dos deputados), é que a presidenta embarque numa pesca à linha voto a voto, favor a favor, bancada a bancada, sem resultados substantivos para ninguém. Esperemos, em compensação, que a frente de oposição não faça o mesmo e que Aécio Neves e os seus apoiantes sejam capazes de construir e sustentar durante os próximos anos um projecto de mudança nacional e internacional credível, que reincorpore o Brasil num modelo societal democrático equiparável ao da União Europeia.