Não deixa de ser reconfortante para os que não apreciam a imprevisibilidade na natureza humana que nem perante as maiores calamidades os maluquinhos parem de produzir os seus disparates.

Estava o mundo inteiro ainda em choque com o terramoto do Nepal e a mortandade e destruição de casas e monumentos que trouxe quando já a cantora turca e ativista dos direitos dos animais Leman Sam informava o mundo sobre as causas do sismo. Claro que há pessoas sensaboronas e crédulas que acreditam na verdade oficial de ter sido um embate de placas tectónicas, com a placa indiana a deslizar mais do que o costume para baixo da placa euro-asiática. Mas Leman Sam sabe melhor. E, para nosso gáudio, contou-nos.

No final de 2014 ocorreu no Nepal o festival em celebração da deusa hindu Gadhimai, sendo sacrificados largos milhares de búfalos, cabras e pombos. Ora como é evidente – e a cantora turca notou – o terramoto não se tratou de mais do que a deusa hindu reclamar igual sacrifício dos humanos que sacrificaram os animais. Uma espécie de reposição do equilíbrio cósmico, se quiserem. À parte ficar por esclarecer se a deusa que fez tremer a terra foi Gadhimai outra vez, ou se foi Kali (que tem reputação de destruidora), todos vemos que o tweet da senhora turca tem uma lógica inabalável.

Um tanto desnecessário o tweet, no entanto, porque a causa dos terramotos já havia ficado estabelecida em 2010, quando um clérigo iraniano nos elucidou: é o sexo extraconjugal (provocado, por sua vez, pelas vestimentas insinuantes das mulheres pouco castas) que causa os terramotos. E como parece que o clérigo iraniano é dado à literalidade, os terramotos que referia não eram os sensoriais nem as consequências sísmicas nas relações humanas; não: eram mesmo aqueles que fazem as casas tremer e os edifícios desabarem.

(Mário Soares – suspiremos – apresentou também uma explicação alternativa, dando ideia de que as placas tectónicas são reativas à usura dos mercados.)

E agora, enquanto os leitores chamam desdenhosamente ‘rústicos e crédulos’ aos cientistas cujas conclusões hoje vos trouxe, apresento-vos outra espécie de crença que, no fundo, não está tão distante destas causas heterodoxas para os terramotos: a crença portuguesa de que há uns magos que sabem como endireitar o país.

Os magos definem-se por serem pessoas que estudaram muito – e lá fora, onde é tudo mais a sério. Logo, são pessoas que ‘sabem’. E neste país com níveis de iliteracia embaraçosos e com uma tradição de analfabetismo de que ainda hoje suportamos os custos, julga-se que estudar nos torna imunes aos nossos valores, aos nossos preconceitos, à nossa personalidade, à nossa visão do mundo. E nos permite alcançar uma sabedoria imparcial, capaz de encontrar as soluções certas e justas. Lá está: deixa-se de se ser humano para passar a ser um mago.

Estas ideias não são novas. O déspota iluminado do antigo regime, cuja iluminação lhe permite governar pelo Bem. O ‘homem superior’ confuciano, um letrado que governa os ‘homens pequenos’ e sabe melhor do que estes o que lhes é melhor. As formas de decisão comunistas, que acreditam que o sacrossanto coletivo consegue sempre a decisão imaculada. Todas as ditaduras, que nos oferecem o homem (geralmente é homem) providencial que vai corrigir as injustiças, acalmar as desordens e impor a moral (qualquer que seja).

Por cá a crença em magos é fulgurante. Temos as versões domésticas: Cavaco Silva ou o tentado ‘professor de Coimbra, meu Deus’. Temos as versões estrangeiradas: António Borges e, por estes dias, Mário Centeno (cujas credenciais académicas de Harvard os jornalistas, certamente com o coração acelerado de emoção, informam esmeradamente). (De resto os jornais já noticiaram, para fazer prova de imparcialidade, que o programa económico do PSD está a ser coordenado por três economistas de Chicago, a alma mater de Milton Friedman; uma santíssima trindade de magos de Chicago, portanto.) E temos as versões estrangeiras, as que causam maior euforia. Os melhores exemplos são Paul Krugman e Thomas Piketty. (A paixão não correspondida da esquerda portuguesa por Varoufakis é de outra natureza, a ser analisada em eventual crónica à parte.)

Krugman esboroou a sua qualidade de mago rapidamente, porque dizia heresias como a necessidade de Portugal descer ordenados para se tornar competitivo (para mim, aqui como no resto Krugman está errado). E o bom mago – ou, pelo menos, o mago perene – não diz heresias socialistas. Mas Piketty ainda não desiludiu, pelo que foi apresentado por socialistas de vários tons de encarnado (e pela comunicação social) como quem transmite A Verdade Revelada. Do que ouvimos e lemos até parece que não há contestação teórica ao seu trabalho e, ninguém tem autorização para duvidar, o académico transmite-nos O Caminho. E façam favor de não lembrar as calamidades mais mortíferas que o sismo no Nepal que provocou por esse mundo a elevação da eliminação das desigualdades a fim último da política – em vez de o muito mais nobre combate à pobreza.

Por tudo isto, quando por estes dias nos cruzarmos com quem está como basbaque com Piketty (sei lá, ocorre-me António Costa), lembremo-nos que sofre de uma irracionalidade que não é assim tão diferente da de um clérigo iraniano e de uma cantora turca.