A última Encíclica do Papa deveria ser de leitura obrigatória por todos e, em particular pelos responsáveis e líderes políticos, governamentais, empresariais, líderes de opinião e por quem tem poder de decisão em todas as instâncias das nossas sociedades.

Quando acabei de ler “Fratelli Tutti” a sensação foi a de ter levado um murro no estômago e a de ter ganho um peso na consciência.

Um soco contra a altivez, a sobranceria, a superioridade, a arrogância que algumas vezes dominam os decisores da nossa vida coletiva. Um peso na consciência por que talvez não estejamos a fazer o suficiente, o possível pelos mais carenciados e mais vulneráveis da nossa comunidade. Mas a Encíclica é também um soco contra os cidadãos que se alheiam da família, dos amigos, dos conhecidos, dos vizinhos, dos colegas de trabalho, dos outros cidadãos com quem se cruzam com indiferença nos caminhos da vida.

Sejamos claros: os “outros” afinal somos “nós”. É esta consciência que temos que interiorizar e cultivar.

A Doutrina da Igreja e outros Papas já nos tinham dado outras Encíclicas com um pensamento social certeiro, corajoso, mesmo fraturante perante as realidades das nossas sociedades, mas nunca como agora, fez tanto sentido falar de Fraternidade, de Amizade, de Solidariedade, de coresponsabilização de uns pelos outros porque ninguém vive e se salva sozinho.

Esta Encíclica apanhou-nos a todos no meio de uma pandemia sem fim à vista que obscurece a clarividência e a luz de qualquer responsável político.

Se há alguma coisa que a realidade que atravessamos tem de positivo é a lição que apanhámos sobre quanto somos pequenos, quanto somos insignificantes, quanto somos incapazes perante a magnitude do que está a acontecer. E, no entanto, foi por atos e irresponsabilidades humanas que nasceu este vírus que nos atormenta.

Se esta situação traz alguma coisa de novo, é a interpelação que nos faz sobre a justiça do mundo que estamos a construir, as desigualdades entre as nações, os povos e os indivíduos e a forma indiferente como, por vezes, olhamos e muitas vezes ignoramos o nosso semelhante.

Se esta pandemia, tem algum efeito nos homens, é o de refletirmos sobre como estamos a devorar o planeta e como cada um de nós pode fazer alguma coisa para mudar o rumo dos acontecimentos e tornar o mundo um lugar mais habitável e mais justo para todos.

Alguns números revelados há dias, mas engolidos pela voragem do sensacionalismo, dão-nos a dimensão de como estamos e onde podemos chegar se não atuarmos desde já para mudar o rumo das nossas comunidades.

A Organização das Nações Unidas concluiu que será impossível cumprir o objetivo de acabar com a Fome em 2030, como esteva determinado, e pior prevê que 130 milhões de pessoas possam vir a enfrentar uma crise alimenta aguda até ao final deste ano.

O Banco Mundial e a UNICEF referem que uma em cada seis crianças de todo o mundo vivia em extrema pobreza antes da pandemia, quase um quinto da população mundial e os impactos da Covid vão agravar significativamente esta realidade.

A fome, a miséria e a exclusão têm pressa e não podem esperar mais.

E não estamos a falar de números ou situações longínquas. Elas estão à nossa volta, na nossa terra e quantas vezes tocam-nos e nem sequer sentimos.

Se a visão tem que ser global, a ação local é imperiosa, pois as consequências da pandemia na nossa economia e no nosso tecido social é preocupante e estamos perante o maior desafio das últimas décdas.

Esta pandemia empobreceu e voltou a endividar a nossa comunidade depois de um período de recuperação e de alguma prosperidade. O desemprego está a aumentar, as privações voltaram a atingir muitas famílias e há riscos de ruturas sociais, esse embora todos os apoios, e bem, disponibilizados pelos Governos e pelos Municípios.

Haverá, seguramente, um Antes e um Depois desta pandemia!

O Antes da auto- suficiência tem que dar lugar à humildade; a ganância tem que perder para a justiça social; o interesse particular tem que ceder ao bem comum; a delapidação dos recursos naturais tem que ser substituída pela sustentabilidade ambiental; o mercado selvagem sem regras deve mudar para uma economia de rosto humano que dignifique quem investe e quem trabalha; a riqueza concentrada nas mãos de alguns deve ser distribuída de forma mais justa; a saúde, a educação e a habitação não podem ser apenas direito de alguns, mas um direito de todos.

Não podemos encarar como uma normalidade ter sem- abrigos nas nossas cidades; não podemos ignorar os mendigos que povoam as nossas ruas; não podemos ficar indiferentes aos idosos abandonados nos hospitais; não podemos esquecer os doentes mentais que aumentam nas comunidades; não podemos desistir dos nossos jovens que entraram nas toxicodependências; não podemos aceitar que existam mulheres vítimas de uma violência sem fim; não podemos admitir qualquer xenofobia perante os emigrantes que regressam à sua terra; não podemos tolerar que sejam sempre os mesmos a pagarem as crises; não podemos resignar-nos perante a pobreza à nossa volta e dizer que sempre foi assim e assim será.

Esta teoria da inevitabilidade é um vírus que mina as nossas sociedades, que tolda o pensamento e coarta a nossa ação.

Precisamos de estar mais atentos uns para com os outros, de ter mais atenção aos que ficam nas periferias do desenvolvimento, de estabelecer um novo relacionamento social.

Afinal, como cantava Vinícius de Moraes citado na Encíclica pelo Papa: «a vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro na vida».

Como cristão, só posso ter Esperança de que saberemos encontrar um novo caminho para o nosso país e o nosso mundo.

A receita é-nos oferecida pelo Papa Francisco nesta Encíclica.

É com certeza um caminho de pedras, mas que nos conduzirá a sociedades mais justas, mais harmoniosas, mais equilibradas, onde todos tenham o direito á Felicidade e a uma Vida com Dignidade.