Há uns meses atrás, o Observador publicou um texto em que eu defendia que alimentos provenientes de animais e plantas geneticamente modificados não fazem mal à saúde, e concluía na inexorabilidade da sua introdução generalizada no mercado. Mal sabia eu que a Food and Drug Administration (FDA) dos EUA iria aprovar para consumo humano, como o fez a semana passada, o primeiro animal “transgénico”, neste caso um salmão que cresce duas vezes mais depressa do que um salmão “normal” porque produz mais da sua própria hormona de crescimento.

Qualifiquemos, antes de mais a FDA: trata-se de uma agência de extremo rigor e exigência, como bem sabem os doentes e médicos que se veem obrigados a esperar anos por licenças de utilização de novos medicamentos, o que também indica que a FDA é impermeável às pressões de lobbies tão poderosos como são os das multinacionais farmacêuticas. Note-se que, neste caso, o pedido de aprovação à FDA tinha sido feito há 20 anos!

Mais interessante ainda, o Gabinete da Casa Branca para Políticas de Ciência e Tecnologia anunciou que nos próximos doze meses irá rever os regulamentos que, desde 1992, se têm aplicado a este assunto. Naturalmente, porque graças a tecnologias recentes, os “novos transgénicos” não têm transgenes, não têm nenhum ADN que não lhes pertença. Como eu tinha salientado naquele artigo, estas novas tecnologias permitem fazer em poucos meses o que os agricultores “biológicos” sempre fizeram, mas em muitos anos: a selecção de variedades mais interessantes por sucessivos cruzamentos selectivos, agora por alteração dirigida de uma sequência de ADN no genoma normal.

Está assim comprovado que não há qualquer razão médica ou biológica para proibir os “novos transgénicos”. [Razões de outras naturezas são invocadas contra os transgénicos, mas a sua discussão terá de ficar para outra ocasião.] Desde que devidamente identificados, a venda de tais produtos permite finalmente a todos a liberdade de escolherem o que comem. Não esqueçamos que alguns defensores dos transgénicos estão convencidos que a criação de animais e plantas à custa de hormonas, antibióticos e fertilizantes é eticamente mais criticável e objectivamente pior para a saúde e para o ambiente. Por exemplo, nos últimos 20 anos, os produtores de salmão “convencional” desenvolveram processos que permitem crescimentos tão rápidos quanto o dos transgénicos, mas eu não tenho acesso aos detalhes de tais métodos.

Esta decisão da FDA representa um marco na consolidação da “nova agricultura”, que racionalmente poupa nos recursos utilizados para alimentar todos os habitantes do planeta. Em democracia, não há maneira de parar o progresso. Esperemos que a União Europeia atente nesta decisão e reveja, rapidamente, a sua posição oficial

Antigo director do Instituto Gulbenkian de Ciência 1998-2012, presidente da Sociedade das Ciências Médicas de Lisboa