Fogo de Pedrógão Grande

“Para o melhor e para o pior” – encantos e desencantos do nosso Portugal

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É a este “encanto pós desencanto” que nos temos que agarrar e que devemos incentivar e transmitir aos que nos rodeiam. Por muito bizarro que possa parecer, isso até é estudado por académicos.

Era minha intenção hoje falar-vos dos encantos de Portugal. Não só das praias, e das cidades lindas, mas ia falar dos últimos eventos marcantes, todos ocorridos no mesmo dia, quase à laia de uma espécie de milagre — a visita do Papa Francisco nas celebrações de canonização dos pastorinhos Francisco e Jacinta e a vitória de Portugal no festival da Eurovisão, que após anos infindáveis sempre nos últimos lugares soube a uma espécie de milagre por tão inusitado que foi. E no seguimento disto, previa falar-vos do Observatório da Sociedade Portuguesa da Católica Lisbon, o qual coordeno, e que faz estudos trimestrais a monitorizar não só a felicidade dos Portugueses, como muitos outros indicadores igualmente relevantes: bem-estar, confiança na economia, satisfação com a vida, qualidade de vida, mudança de hábitos de consumo, hábitos de poupança, rendimento e poupança. E com isto tudo tencionava transmitir que aparentemente estamos numa fase de encanto com Portugal pois os resultados de muitos destes indicadores sugerem uma evolução positiva sistemática ao longo dos últimos meses.

No entanto, acho que é difícil falarmos nestes encantos de Portugal quando os últimos dias foram marcados por tamanho desencanto. A maior parte de nós acordou no Domingo de manhã com a notícia fatídica de que tantos dos nossos amigos, familiares, conhecidos, vizinhos tinham falecido no fogo infernal que assolou a região de Pedrogão Grande. Uns a fugir, outros a tentar salvar familiares e amigos, um facto é que 64 destes nossos amigos e familiares, perderam a vida naquela que vai ficar conhecida como a “estrada da morte”. E outros 250 ficaram feridos, muitos em estado grave. E isso causa-nos não só uma enorme tristeza, mas também um enorme sentimento de impotência. Que podemos fazer? Muitos de nós (incluindo eu própria) corremos a satisfazer o apelo dos bombeiros e das sociedades de proteção civil e demos por nós à porta dos quarteis de bombeiros a dar dezenas de pacotes de bolachas, barrinhas energéticas, garrafas de água… tudo o que nos pediram. E com isso acalmámos um pouco o nosso sentimento de culpa de tão pouco conseguirmos fazer para ajudar. Mas o que são uns pacotes de bolachas em comparação com a dedicação dos milhares de bombeiros que estão lá no famoso “teatro de operações” a pôr a sua vida em risco para salvar a de tantos outros? Pouco, muito pouco.

E nessa altura, muitos daqueles que estão em frente ao televisor, debaixo da sua ventoinha, no conforto da sua casa, insurgiram-se contra o governo, contra a ministra da Administração Interna, contra as câmaras, contra tudo e todos! E isto como se os “outros” tivessem a capacidade de impedir que aconteçam catástrofes naturais (como tudo leva a crer que tenha sido o caso), tivessem capacidade de prever e impedir o que “nós” das nossas casas e vidinhas confortáveis não conseguimos impedir.

E isto foi para mim uma outra espécie de desencanto: de desencanto com as pessoas. O fogo ainda decorria, já a caminho de Góis, num comportamento desenfreado, e ao invés de se levantarem de em frente aos televisores e irem lutar ao lado das populações prestando apoio, doando o ombro amigo, já os contestatários da praxe exigiam a demissão da ministra, a culpabilização do governo, num ataque desenfreado, à semelhança do fogo, de busca ao “culpado(s)”. Como se esta busca cega pelo culpado(s) permitisse de algum modo mitigar esta terrível tragédia. Ou como se isto ajudasse a minimizar a dor daqueles que sentiram a perda dos seus amigos e familiares. Nada destas culpabilizações ajudam. É necessário que os que ficaram connosco façam o luto, em paz, no seu recanto. Criem memórias daqueles que desapareceram. Lidem com a realidade da sua eterna falta de presença física e que aqueles que têm fé que acreditem que os que partiram os vão continuar a acompanhar… não é fácil, eu sei. Mas a vida é como os casamentos — para o melhor e para o pior. Tanto tem coisas lindas como coisas terrivelmente tristes e feias.

Mas depois deste desencanto com as pessoas, veio também um pouco de encanto, e que muitos leitores podem também ter experienciado. Telefonemas de amigos e familiares a relembrar que gostam de nós, familiares a expressar preocupação, desconhecidos a serem gentis e a relembrar que a vida é muito mais agradável se formos simpáticos e prestáveis uns para os outros, ateus convictos a falarem na possibilidade de existência de vida eterna, tudo a relembrar que a seguir ao desencanto pode vir o encanto.

E é a este “encanto pós desencanto” que nos temos que agarrar e que devemos incentivar e transmitir aos que nos rodeiam. Por muito bizarro que possa parecer, existem vários académicos que estudam os efeitos destes fenómenos trágicos nos comportamentos e crenças dos indivíduos — mortality salience research. Vários estudos académicos que estudaram este fenómeno reportam alteração de comportamentos após uma exposição saliente à mortalidade, a maior parte das vezes relacionados com um enfoque em comportamentos centrais para o nosso próprio sistema de valores ou autoestima. Por exemplo, nos EUA depois do trágico ataque de 11 de setembro 2001 registou-se um aumento no tempo despendido com amigos e familiares, um aumento nas idas à Igreja, e também um aumento no consumo de bens materiais (*). Assim sendo, é provável que daqui a uns meses se venha a verificar que este vai ser um período marcado por um crescimento económico e por um crescimento incomum na venda de determinados produtos de luxo. Vamos atribuir com certeza este crescimento ao turismo, ou a um aumento do rendimento disponível, mas na realidade parte deste fenómeno poderá ser simplesmente explicado por este enorme desencanto que sentimos agora.

Professora da Católica Lisbon- School of Business and Economics

(*) Para mais detalhe ver Ferraro, Shiv, & Bettman (2005): “Let us eat and drink, for tomorrow we shall die: Effects of mortality salience and self-esteem on self-regulation in consumer choice”. Journal of Consumer Research, 32(1), 65-75..

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