O Congresso do PCP fica marcado pela desconfortável posição do Partido Comunista enquanto pilar fundamental da “geringonça” que sustenta o governo do PS. Em todos os principais momentos do Congresso – e em especial nas intervenções de Jerónimo de Sousa – ficou patente o desejo de demarcação relativamente ao PS. O problema para o PCP é que esse é um discurso difícil quando se é um elemento imprescindível da base parlamentar que viabiliza e apoia o governo em funções.

O PCP procura persuadir o eleitorado mais à esquerda de que o apoio ao governo do PS não é bem um apoio, um pouco como Bill Clinton afirmava há uns anos atrás que “fumou, mas não inalou”. É a esta luz que devem ser entendidas as constantes referências e críticas dirigidas ao PSD e CDS – mais de um ano depois de Passos Coelho ter deixado de ser primeiro-ministro. O papão de um “governo de direita” continua a ser a única forma de o PCP justificar o seu apoio ao governo do PS em contradição com quase tudo o que defendeu durante anos. Mas esta é uma estratégia retórica que pode estar a chegar ao final do prazo de validade.

É certo que, devido à sua participação na “geringonça”, o PCP tem resultados importantes para apresentar. Para destacar apenas os mais relevantes para os comunistas: mesmo sem coligação formal, António Costa basicamente entregou ao PCP o Ministério da Educação e a política de transportes, ao mesmo tempo que as benesses de curto prazo dirigidas aos funcionários públicos incidem em sectores nucleares do eleitorado comunista.

Mas tudo isto tem acarretado um preço político elevado para o PCP: o de viabilizar uma governação que, no essencial, continua sujeita aos compromissos com as instituições da UE e comprometida com a presença de Portugal na zona euro. Ou seja: uma governação em radical oposição com as principais linhas programáticas do PCP. Importa recordar que continuamos a estar perante um Partido que, a propósito da morte do brutal ditador cubano, considera “simplista e errado qualificar Fidel como ditador”, lembra com nostalgia a URSS e vê a NATO e os EUA como “a grande ameaça que os povos enfrentam”, mesmo depois da eleição de Donald Trump, com quem aparentemente teria maiores afinidades no âmbito da política externa.

Entre a ortodoxia comunista e a “geringonça”, o Congresso mostrou um PCP desconfortável e a procurar convencer o seu eleitorado de que sustenta o governo do PS sem no entanto apoiar a sua orientação política. Se as sondagens que vão saindo continuarem a não ser animadoras para os comunistas – e em especial se forem dando conta da possibilidade de António Costa poder chegar à maioria absoluta – este desconforto aumentará. Resta saber até quando as contrapartidas sectoriais e o notável desempenho táctico de António Costa na gestão política da “geringonça” continuarão a ser suficientes para manter o PCP refém do PS.

André Azevedo Alves é professor do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa