O PISA é o programa (Program for International Student Assessement) da OCDE de avaliação de estudantes de 15 anos que permite aferir o seu conhecimento e skills em dimensões como a leitura, a matemática e a ciência e sociedade da inovação. Os resultados indicam a qualidade e a comparabilidade possível entre vários países no que a estas três dimensões diz respeito. Estão envolvidos 79 países e 600.000 jovens destes mesmos países fizeram o teste em 2018.

Portugal, ou os alunos portugueses, pontuou na média (ou ligeiramente acima da média) dos países analisados nas áreas da leitura, da matemática e da ciência. Houve uma ligeira descida em ciência e sociedade da inovação face ao período anterior a 2018 (período de 2015) mas numa série temporal longa Portugal tem tido uma trajetória positiva e crescido paulatinamente nestas três dimensões. São boas notícias, apesar de tudo.

Passando para o Império do meio, a China, envolvendo estudantes de Pequim, Xangai, Jiangsu e Zhejiang (B-S-J-Z), pode-se dizer que o seu comportamento em leitura, matemática e ciência é, em média, muito superior à média dos países em análise. E nas três dimensões e comparando com os 79 países analisados, a China é quem apresenta sempre o melhor comportamento.

Em Portugal, 80% dos estudantes têm pelo menos um nível 2 (categorização do estudo, onde existem 6 níveis e o nível 2 indica, provavelmente, um mínimo aceitável; 6 é o nível máximo) em leitura contra a média dos 79 países participantes de 77%. 95% dos alunos das 4 cidades chinesas têm pelo menos o nível 2. Apenas 7% dos alunos em Portugal são top performers e, nas quatro cidades chinesas, 22% são top performers.

Em Portugal, 77% dos estudantes têm pelo menos um nível 2 em matemática contra uma média de 76% dos 79 países participantes. 98% dos alunos das 4 cidades chinesas têm pelo menos um nível 2. Em Portugal 12% dos estudantes são top performers e nas 4 cidades consideradas da China, 44% são top performers em matemática.

Em Portugal, 80% dos estudantes têm pelo menos um nível 2 em ciência e inovação contra uma média dos países participantes de 78%. 98% dos alunos das 4 cidades chinesas têm pelo menos o nível 2. Em Portugal 6% dos estudantes são considerados top performers em ciência e inovação e na china 32% são top performers.

As desigualdades em termos sócio-económico explicam, não toda, mas uma boa parte das diferenças existentes entre grupos de alunos de um mesmo país. Na China, pode argumentar-se, apenas participaram os jovens das grandes cidades.

All in all, Portugal está na média. All in all também, e mesmo considerando parte da China, a China está muito acima da média e é o grande top performer. Passado o tempo da Revolução Cultural da China e figurando Mao Tsé-tung muito mais como emblema do passado do que como substrato de pensamento e praxis, a China vai dando expressão àquilo que se convencionou dizer dela: um país, dois sistemas.

Ambos os países, Portugal e China, partiram para uma viagem de mais de 40 anos começando-a com o fim de regimes ditatoriais (embora o da China tenha apenas evoluído ou se tenha transformado). Interessante ver que em Portugal fizemos uma passagem à democracia em 1974 (há 45 anos). Interessante, também, perceber que a abertura da China ao mundo começou em 1975 (44 anos atrás) com o plano estratégico para a transformação da mesma: desenvolvimento da agricultura, da indústria, do comércio e da área militar. A China não desenvolveu ou aprofundou, porém, aquilo que poderia ter sido a quinta força transformacional: a democratização do sistema político. Ou seja, ambos os países fizeram transformações a partir de há mais de 40 anos. Portugal rumou à democracia. A China à prosperidade. Dito desta forma pode parecer outra coisa. Mas o que deve ficar desta reflexão é apenas, e só, perplexidade.

A China, primeiro com Hua Guefeng, que substituiu Mao Tsé-Tung, e depois com Deng Xiaoping, que refreou a revolução cultural e reformou definitivamente a China, pôs cobro à fome e chegou a 2009 como o maior exportador mundial. Hoje a China é a segunda economia mundial. É extensíssima a sua rede de estradas e auto-estradas, caminhos-de-ferro, aeroportos, entre muitas outras infra-estruturas. Em sensivelmente pouco mais de 40 anos a percentagem de importações e exportações no comércio mundial passou de 0,1% para 17.8%. A China tem, neste momento, o maior número de empresas nas 500 mais da Fortune (129 empresas chinesas contra 121 americanas). 700 milhões de pessoas saíram da pobreza e 400 milhões já são classe média. E a China é, hoje, o maior gerador de turistas à escala mundial (vide edição especial da Visão sobre a China, Outubro de 2019). Se a tudo isto somarmos os recordes que se vão batendo em educação, agora demonstrados pelo PISA, onde as quatro cidades chinesas escrutinadas colocam a China no primeiro lugar dos jovens de 15 anos em leitura, matemática e ciência e inovação, quais os grandes comentários a fazer?

Tiananmen, em 1989, foi o grande drawback neste rumo à prosperidade, mantendo a China no carril da disciplina mas, consequentemente, dos resultados. Sobre Hong Kong, desconhece-se o futuro. A verdade, porém, é que se registam, na China, recordes atrás de recordes (económicos e sociais) o que torna o fenómeno ainda mais complexo, e mais paradoxal, se se procurar uma explicação. Então e a carta dos direitos humanos? Então e a democracia? Entra-se na China, esquecendo estas partes, pelo menos na China que se vê (aos olhos do turista), e encontram-se pessoas como em qualquer parte do mundo, encontra-se trabalho, pujança e investimento, obra, muita obra, e muito dinheiro a circular.

É interessante perceber como nos mesmos cerca de 40 anos a China evoluiu e Portugal evoluiu. A China passou de um regime ditatorial (a que internamente se chamou, e talvez ainda chame, ditadura da democracia popular) para um regime disciplinado e disciplinador mas, também, capaz de conseguir resultados (ditatorial, ainda assim). Resultados em infra-estruturas, em empresas, no ensino (o que antecipa um futuro interessante), nas escolas e universidades. A China é hoje outra. Portugal passou de uma ditadura para uma democracia morna onde os resultados têm sido oscilantes e parcos em termos económicos. Dir-se-á que há uma disparidade imensa de recursos, de dimensão, de força de trabalho, de sistemas. Verdade. Mas porque será que a China consegue o que consegue e Portugal, mais pequeno, mais flexível, muito aberto ao exterior, com tudo o que de bom o caracteriza, não consegue melhores resultados? Trata-se de uma questão cultural? É legítima a comparação?

Há várias diferenças e isso parece claro. A principal, porém, reside na enorme diferença entre os dois mundos e os dois países na forma de encarar a vida mas, sobretudo, o trabalho. Ela está, de resto, plasmada num statement de Xi Jinping que expressa bem a diferença: “Happiness does not fall out of the blue and dreams will not come true by themselves. We need to be down-to-earth and work hard. We should uphold the idea that working hard is the most honorable, noblest, greatest and most beautiful virtue.“

E se alguém perguntar o porquê da diferença de resultados a chave estará quase incontornavelmente no valor do trabalho. Portugal precisa de trabalhar muito mais. E muito melhor. A diferença está, claramente, no Made in China versus no Made in Portugal. E que grande é a diferença. Sendo certo que, em democracia, o Made in Portugal teria que ser proporcionalmente muito superior.