O meu ambiente de trabalho é casual. Eu mesmo tento trazer casualidade para esse ambiente de trabalho. E trabalho de porta aberta, sem quaisquer aparelhos de música nos ouvidos, para que não haja barreiras nem tão pouco inibições a entrar. A falar. A expor. A partilhar. A acessibilidade é máxima. E isto funciona sempre bem. Tal como com o telemóvel que dou sempre na primeira aula e funciona sempre bem para alunos.

Quem quer que seja, no meu gabinete, pergunta se pode entrar antes de o fazer. Como no telemóvel, os alunos preferem mandar um whatsapp a telefonar. Ocasionalmente ocorre um telefonema de interrupção, de aluno ou não, e ocasionalmente sou interrompido sem necessidade no meu gabinete, aproveitando a porta aberta. Faz parte das regras que me imponho e vivo bem com elas. Vivo bem porque acredito nelas e acredito que tudo o que seja fora da prioridade e da necessidade premente será tratado – diz o bom senso – por mensagem ou perguntando se é oportuno entrar e falar naquele momento.

Há, porém, quem não interprete o sinal de porta aberta como um sinal de acessibilidade máxima para assuntos importantes. É como se eu não tivesse também de trabalhar. Como há quem interprete o telemóvel como sendo para telefonar, não importa a hora, e como se o assunto do outro lado não pudesse esperar e não houvesse amanhã.

São normalmente outliers.

Incomodam-me? Não. Mas devo dizer que me preocupam. Porquê? Porque deixaram de ter sentido crítico sobre o que é importante e o que é acessório.

No meu gabinete atendo todos os stakeholders de uma operação de formação de executivos, alunos, professores e toda uma comunidade grande à minha volta, aparecendo outliers não marcados e em máxima urgência. Penso para comigo se haverá necessidades fisiológicas máximas de xixi no meu gabinete. Tipo cão a marcar território. Porquê? Porque há um padrão e são sempre os mesmos.  São muito poucos, poucos mesmo, outliers, e não são aqueles com quem trabalho de perto dia após dia, porque esses normalmente sabem que tenho de trabalhar. Há, porém, um perfil interessante no ar. Vai sendo (ainda) gerível, porque pequeno.

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Noto, porém, de há uns anos a esta parte que quem entra no gabinete fá-lo sem perguntar se pode ou se deve entrar. E telefonam como se o assunto que têm na cabeça tivesse de ser resolvido às horas que querem que se resolva. E insistem no telefonema, repetindo-o, sem parar.

Este sintoma revela algumas questões preocupantes como a incapacidade de autonomia, a incapacidade de decisão própria e a incapacidade de priorização. Já para não falar no auto-centramento e na incapacidade de contenção. Mas, pior que tudo isto, é que noto que – e não me parece que esteja errado – a maioria dos temas que trazem não têm qualquer prioridade, não são urgentes e são verdadeiros nadas. É claro que comecei a ligar, qual causa-efeito, este fenómeno ao xixi do cão! Há casos em que é isso mas há casos em que talvez não o seja. Não sei mas vou criar um nexo de causalidade comportamental, observar mais e darei uma resposta logo que tenha dados empíricos suficientes para responder a esta questão.

Se me incomoda? A mim, pessoalmente, não. Enquanto forem geríveis. Mas acho que deveria incomodar os próprios pela falta de noção do que são prioridades, do que é a autonomia e pela falta de contenção.

O problema maior, que também noto, é que estão a aumentar.