Era já fim de tarde de um domingo, quando a lista apresentada por André Ventura para a direção nacional do Chega foi chumbada pela segunda vez. O líder do partido subiu ao palco assumindo as responsabilidades e, numa pausa dramática, desatou a choramingar enquanto os delegados berravam em pânico, temendo que ele se demitisse.

André Ventura é um mestre do espetáculo político. Sabe mobilizar as massas, sabe entrar constantemente nos holofotes dos media e sabe, perfeitamente, como usar os sentimentos das pessoas para seu proveito pessoal. E os militantes do Chega serão o alvo predileto para conseguir essa manipulação. São ávidos seguidores do grande líder que aderem facilmente ao culto da sua personalidade.

Consta que terão sido guerrilhas internas, típicas de um partido de sistema mesquinho e recheado de egos pessoais, aquilo que motivou os dois chumbos da direção nacional. E se os delegados e dirigentes do partido estavam uns contra os outros, André Ventura percebeu que, fora da convenção do Chega, o país iria perceber que ele liderava um partido desunido. A única forma de unir os delegados foi tornar-se num mártir, assumindo para si as responsabilidades e passando a ideia que a culpa era dele. Ora, os delegados sabiam bem que o problema não era esse, mas embalaram-se no canto da sereia temendo afligir o grande líder.

Assim, tal como um namorado abusivo que chora, pedindo desculpas depois de agredir a sua cara metade, também André Ventura se revestiu de lágrimas de crocodilo para, num perfeito ato de chantagem emocional, levar ao desespero os seus fiéis seguidores, que prontamente se disponibilizaram para aprovar a nova lista.

Mas o problema está sobretudo numa questão de democracia. Fosse, ou não, guerrilhas internas, se há uma lista que não é aprovada, é preciso retirar daí conclusões. E Ventura insistiu, vez após vez, nos mesmos nomes, nas mesmas ideias, procurando vencer, pelo desgaste, os delegados da convenção, ao invés de promover uma solução que satisfizesse todos. Quando a terceira lista foi aprovada, já só estava um terço dos delegados presente, e Ventura ainda veio dizer que a democracia funciona no Chega. É esta a consideração que Ventura tem pelos seus militantes e pelo seu voto.

Ppara cumprir, praticamente, todos os principais requisitos de um bom populista, faltou-lhe, contudo, algo que guardou para o fim: culpar o inimigo externo – quando disse que, depois do segundo chumbo, já havia gente de outros partidos a esfregar as mãos, insinuando que o sonho do Chega poderia acabar ali. É impressionante a capacidade de Ventura criar um sentimento de urgência e de “tudo ou nada” em tudo o que faz, colocando as pessoas a sentir que estiveram à beira do fim do mundo e que conseguiram ultrapassá-lo. E acusar o inimigo externo reforça a ideia de perseverança do coletivo e o sentimento de união.

O ego de Ventura é gigante, ao ponto de já não haver espaço nem para os seus militantes, que manipula a seu bel-prazer, nem para os portugueses, que são apenas um meio para o fim, o fim que perseguiu a vida toda: alcançar o poder, custe o que custar. E não conseguindo disfarçar o ego, usa-o para reforçar o tal culto à personalidade, digno de grandes tiranos como Hitler, Estaline, Mussolini e os líderes da Coreia do Norte. À saída da convenção, centrou o tema das suas entrevistas no que sentiu e no que pensou durante todos aqueles momentos, quase como se estivesse numa entrevista sobre a sua vida pessoal.

Ventura mostra, cada vez mais, ser o pior do que há na política. É mentiroso, egocentrado, manipulador, absolutamente permeável, ao contrário do que diz, a interesses económicos e com uma ambição desmedida. Para ele, isto é tudo um jogo, uma brincadeira. E o pior é que está a ganhar.