Todos os que gostam de música, em especial de Blues, possivelmente já se confrontaram (ou foram confrontados) com este dilema … quem é melhor, o BB King ou o Eric Clapton? Na verdade, é uma pergunta descabida pois não se podem comparar dois nomes que ficarão marcados na história da música.

O mesmo despropósito deve ser aplicado à relação de importância entre a Agricultura (entendida como o conjunto de actividades rurais) e a conservação de recursos naturais. De uma forma geral podemos afirmar que nem os recursos naturais que temos hoje existiriam sem a actividade agro-silvo-pastoril, nem os sistemas agrícolas e florestais que temos hoje existiriam sem os recursos naturais que dispomos.

Por outras palavras, a actividade humana moldou e foi moldada pelos recursos disponíveis e as paisagens rurais que temos hoje são o resultado dessa convivência.

Esta complementaridade tem vindo a ser esquecida, com claro pendente desfavorável para as questões rurais. Em fases de mudanças de ciclo político nunca é demais lembrar a importância das actividades agropecuárias enquanto pilar da coesão social e territorial.

Contudo, e como seria de esperar, os impactos resultantes da actividade humana nem sempre foram positivos e potenciadores desses mesmo recursos. Foi por isso necessário adaptar essas técnicas às novas condições do meio e às novas exigências da sociedade. Essa adaptação é hoje fundamental para fazer frente ao Mundo Global e aos desafios resultantes de mudanças e alterações das condicionantes físicas, biológicas, climatéricas e de mercado.

A natureza agreste dos recursos das nossas serranias do Norte e Centro, obrigou o Homem a enveredar por práticas de pastoreio extensivas que criaram um mosaico de vegetação que permitiu a permanência de espécies como o lobo, veados e um conjunto diverso de passeriformes. Foi por entre esses recursos que as nossas raças autóctones se desenvolveram e que as nossas tradições se desenvolveram e enraizaram.

Também o mosaico agrícola de pomares, vinhas, hortícolas e pequenos bosquetes, suporta um conjunto variado de espécies de aves, como as alvéolas, chapins e verdelhões, bem como um leque de insectos polinizadores sem os quais essas culturas não existiriam. Este é um excelente exemplo que demonstra a forma como as relações milenares entre a agricultura e a fauna resultaram num benefício “comum” que devemos manter e melhorar.

Foi a utilização de rotações de cereal/pousio que, encontrando a melhor forma de aproveitar solos com menor capacidade produtiva, possibilitou que espécies como a abetarda e o sisão pudessem coexistir com comunidades agrícolas. Ao mesmo tempo, as parcelas em pousio, usadas para pastagem, permitiam uma exploração extensiva da pastagem, criando um mosaico de parcelas agrícolas e florestais capaz de suportar predadores e presas, águias, lebres, perdizes e abutres.

Estes predadores de topo como a águia-imperial e o lince, bem como os abutres, mantêm o equilíbrio destes ecossistemas, contribuindo desta forma para a manutenção das actividades rurais que estão na base desses ecossistemas. Hoje a gestão cinegética, muitas vezes complementando práticas agro-pecuárias, contribui para a coesão territorial e social de muitas das zonas mais fragilizadas pelo abandono e despovoamento.

Mesmo junto às grandes cidades, os nossos estuários são hoje o exemplo desse complemento, pois os arrozais desempenham um papel fundamental no ciclo diário da vida de patos, maçaricos, íbis, colhereiros e pilritos.

É esta paisagem diversa em termos de recursos e de tradições que constitui a nossa principal bandeira e o mais valioso recurso: os nossos saberes e sabores.

Ou seja, sempre que comemos uma sopa de legumes, um bife, cabrito ou borrego assado, acompanhado por batatas e castanhas, uma perdiz ou um coelho no forno, enquanto saboreamos um bom vinho ou um sumo de laranja e terminamos a refeição com uma maçã assada ou uma pera bêbeda, não nos podemos esquecer do lobo, das águias, do lince, do abutre-preto, dos chapins, dos trigueirões e das abelhas que nos possibilitaram o repasto.

Mas em paralelo sempre que formos passear para o Douro, sempre que subirmos aos 2.000m da Serra, quando formos apreciar os moinhos do Oeste, quando ouvimos o cantar das gentes do Alentejo ou quando saboreamos os doces Algarvios, lembremo-nos de todos aqueles que diariamente tornam esses sentimentos possíveis, os agricultores, proprietários florestais e gestores cinegéticos, responsáveis pela manutenção das actividades que suportam a nossa paisagem rural.

Cabe-nos a nós enquanto consumidores fazer as escolhas que potenciem esta complementaridade, privilegiando a produção nacional, não só pela sua qualidade e segurança, mas também pelo seu papel enquanto gestores de paisagem e de recursos.

Cabe-nos a nós enquanto decisores defender o Mundo Rural e os Recursos Naturais em paralelo, promovendo regulamentação clara, eficiente e simples. Cabe a todos evitar a escolha descabida entre o BB King e o Eric Clapton.

Técnico Florestal da CONFAGRI