O espectáculo a que assistimos no fim-de-semana, durante a reunião magna do Bloco de Esquerda, foi deveras surpreendente e não menos constrangedor – imagino que, em especial, para os apreciadores do género.

Parece que o conclave tinha o nome de “convenção”, mas a mim só me ocorreu “candidatura espontânea” – uma candidatura a um emprego no Governo de Portugal (uma “luta pelo Governo”, como lhe chamou Catarina Martins), por certo imaginando-se, triunfante, na sala do Conselho de Ministros a gizar a nacionalização da banca e das comunicações ou a dar explicações à Ministra das Finanças sobre a necessidade de endurecer a perseguição fiscal a todos os proprietários, trabalhadores ou consumidores a quem a fortuna sorria com rendimentos superiores – o topete! – ao salário mínimo.

“Quem quer casar comigo?”, ecoava pelos corredores da convenção. “Quem quer casar comigo?”, debitavam as televisões, entusiasmadas.

Catarina Martins quer casar e apregoa isso mesmo aos quatro ventos. Sentiu o poder, cheirou o poder, viu o poder, apaixonou-se pelo poder. E agora quer o poder. Quer um cargo, um ministério, uma secretaria, uma função. Pudera! Até o Galamba conseguiu, que diabo! E é mais esquerdista ainda do que o Bloco!

Deve ser por isso que, no congresso, apareceram uns jovens imberbes e meio envergonhados, que foram acantonados sob o manto discreto e burocrático da “Moção M” (de Marx?) e que, ingenuamente e de forma inconveniente, alheios ao Zeitgeist, diagnosticaram que “estamos mais fracos porque a organização à esquerda está mais fraca e descredibilizada”, criticando o seu partido por “perder a radicalidade, entre a sede de mediatismo e o trabalho burocrático e parlamentar, confundindo os meios com os fins, seguindo sem uma estratégia clara”. E, sem perceberem nada do que ali se passava, ainda se atreveram a propugnar a “construção de um partido anticapitalista que represente uma mudança do status quo e não a sua manutenção”.

Ninguém lhes explicou que se há uma coisa que é clara, claríssima, cristalina nos dias que correm é a estratégia do Bloco. A saber: meter o marxismo na gaveta, aceder ao conforto dos gabinetes e governar em paz com o PS, felizes para sempre.

Por alguma razão Catarina Martins se mostrou ofendida por ter sido esquecida pelos discursos de António Costa no congresso do PS. Não há direito – diz ela – que o chefe da coligação que dá vida ao Governo não lhe preste a devida homenagem pública e não reconheça, numa vénia, o papel fundamental do Bloco e dela própria no curso e na sustentabilidade da governação.

Não há direito – digo eu — que o seu mais-que-tudo, aquele cuja atenção e apreço mais procura, não lhe dê tempo de antena e não se mostre tão casadoiro nem tão disposto a assentar e a levar uma vida pacata como aquela que a chefe do Bloco agora deseja como nunca. Pois se até o Galamba…

E assim, do alto do palco onde está como peixe na água, exibiu o seu despeito e o seu beicinho, com expressões faciais treinadas há muito na companhia de teatro de que fez parte, pontuadas por uma colocação de voz impecável, um controlo notável da respiração e inflexões cirúrgicas e dramáticas do tom que a confirmam como a grande performer que é. Capaz mesmo, como só mesmo ela, de afirmar que o povo “conhece o Bloco”, num exercício de trapezismo sem rede, só ao alcance de quem possui a autoconfiança necessária para fingir, descaradamente e às claras, que Ricardo Robles nunca existiu.

Está tudo à venda no Bloco, que procura especular, com lucro máximo (porque, afinal, Robles existiu mesmo), o seu capital político, na ânsia de que lhe atribuam uma secretariazinha, com direito a assessores e até, quem sabe, um motorista! Que promoção, que orgulho, que sucesso! Até filmes imperialistas, glosando temas imperialistas por excelência e que veneram avatares do imperialismo servem para argumentar – Louçã e Toy Story era uma mistura muito improvável há uns anos. Mas tudo serve e os fins justificam todos os meios, como sublinhou a Moção M. E, para além do mais, olhem para o Galamba…

O Bloco não quer seguramente ser o CDS do PS, pois o “partido do táxi” soa muito a século XX, cheira a passado. Mas apostaria que Francisco Louçã e Catarina Martins sonham empolgados com o dia em que o Bloco seja consagrado como o moderníssimo “partido da Uber” do Governo PS.

Terá António Costa vocação para João Ratão? O isco foi lançado pela Carochinha, vamos ver se ele acredita nas histórias dela.