Os rankings das escolas foram publicados precisamente há uma semana. Nesta semana que passou, com a ponderação necessária, mais uma vez se constatou que o debate em torno dos resultados obtidos pelos alunos nas provas finais do 9º ano e sobretudo nos exames nacionais do ensino secundário  foi marcado por uma discussão excessivamente ideológica e na maior parte das vezes sem que tenha trazido consigo o sentido construtivo ou orientado para a melhoria do sistema educativo. É pena que assim seja. Mais uma vez, vale a pena recordar que a primeira divulgação dos resultados obtidos pelos alunos em exames finais aconteceu em 2001, na sequência de uma decisão judicial movida pelo jornal Público – então dirigido pelo atual publisher deste jornal – ao Ministério da Educação.

Em 2021 assinalam-se, portanto 20 anos da divulgação dos rankings. A pergunta que se impõe é a seguinte: é possível mudar num futuro próximo a forma de olhar para esta informação? Como qualificar o debate, e utilizar de forma consequente, a informação que nos é dada? 20 anos de dados são uma série suficientemente longa de informação para permitir análises que podem ir muito além do discurso simplista que habitualmente marca o debate. Creio que todas as estruturas responsáveis, a muitos níveis – Governo, Parlamento, estruturas dirigentes das escolas, Conselho Nacional de Educação, outros organismos, públicos e privados – deveriam assumir o compromisso de retirarem desta informação elementos de análise para uma melhor e mais racional definição de políticas públicas. Sobretudo porque, para além dos rankings, existem já hoje mais indicadores úteis para o efeito. Dos percursos directos de sucesso – valor que ordena as escolas atendendo à percentagem de alunos que acabaram o secundário sem retenções e com positivas nos dois exames das disciplinas trienais – passando pelos resultados das provas de aferição e considerando também os rankings, será possível desde logo olhar para alguns temas de forma a poderem ser definidas novas e melhores políticas e tomadas medidas concretas. O cruzamento da informação nestes indicadores que referi poderá, por exemplo, permitir atuar sobre escolas que sucessivamente não apresentam resultados. Agir de forma focada sobre estabelecimentos de ensino nos quais os alunos, ano após ano, não conseguem aprender.

Os rankings não servem apenas para algumas escolas brilharem no topo da tabela! Servem também para tornar evidente esta realidade no que respeita a estabelecimentos que precisam de mais e melhor intervenção, que seja diferenciada nos meios e recursos que devem ser específicos para aquela escola. O que está a ser feito – quase 20 anos depois – para mudar a realidade concreta das escolas do fundo da tabela dos rankings? Esta é uma questão que se impõe e que merece resposta. Que cruzamento de informação é possível entre as “fotografias” dos rankings e o “filme” dos percursos diretos de sucesso? A autonomia pedagógica e a flexibilidade curricular, tão queridas aos sucessivos Governos, não devem ser também elas lidas, e definidas, à luz destes critérios? Olhando para o topo da tabela, onde os colégios privados ocupam mais de 30 posições cimeiras, o que pode ser feito para que tenham ainda mais autonomia e mais liberdade?  Nomeadamente ao nível do recrutamento mais livre e autónomo dos professores que sucessivamente apresentam resultados excelentes?

Os rankings não são bons, nem maus, por isso não podem ser santificados ou diabolizados. Devem ser lidos de forma inteligente e estarem ao serviço de uma política educativa dinâmica, atual, focada no que é mais eficaz para os alunos. Temos um ano inteiro para refletir sobre esta realidade.

Como diria o P. Manuel Antunes,sj  (1918-1985) no seu livro Repensar Portugal: “Se esse sentido dos limites nos não assistir consciente, andaremos desesperados ou sonâmbulos, infantilmente entusiasmados na primeira hora da mudança e senilmente deprimidos quando verificarmos, na hora da verdade, que pouco ou nada mudou – se não, talvez, para pior (…)”

Olhar para os dados, ter a coragem e a lucidez de saber interpretá-los com mais racionalidade e menos ideologia é um imperativo que a todos convoca. Repito: temos um ano inteiro pela frente. Saibamos aproveitá-lo para preparar um debate que não se fique pela demagogia de posições e que possa ser mais sério, estruturado e consequente.

Nota: os rankings do próximo ano refletirão os resultados dos exames nacionais realizados num ano particularmente exigente em virtude da pandemia. A todos os professores e alunos dos setores de ensino público e privado desejo os maiores sucessos para os exames finais que se iniciam na próxima segunda feira.