O que dizer do hábito crescente de no final do ano nos revelarmos através da música que ouvimos? O Spotify permite que exibamos com vaidade os artistas e as canções ouvidos que assim revelam a qualidade das nossas escolhas, o critério da nossa audição, a vocação que temos, enfim, para a grandeza pública. Até eu me sinto tentado a integrar o cortejo e confirmar as melhores expectativas que certamente as pessoas alimentam acerca do meu esclarecimento musical e, quem sabe, surpreender até por um qualquer elemento inesperado. Mas nos últimos dois anos resisti. Talvez não seja sensato confirmar a vocação que tenho para a grandeza através dos sons que ouço.

Quando falamos de vocação, falamos de ouvir uma voz. Por trás da ideia profissional de vocação há toda uma longa história religiosa. Hoje temos profissões sem recordar que na origem da ideia está a necessidade de ouvirmos a voz de um Deus que nos chamava. Quem continuar a acreditar em Deus hoje saberá, por isso, que ouvir a voz é o mais importante de tudo, uma vez que na história da Criação foi essa voz divina que deu origem a todas as coisas—até ouvirmos a voz ainda não começámos realmente a viver, dirá um pregador de profissão como eu. Logo, quando falamos acerca de vocação não estamos apenas a falar do que devemos fazer, profissionalmente ou noutro campo qualquer; falamos de quem somos (ou, pelo menos, do que devemos ser).

O mundo começou com a versão perfeita do “Let It Be” dos Beatles (e a minha relação com os Beatles não é propriamente fácil). Deus disse uma espécie de “deixa ser” e daí veio a luz: “deixa ser a luz” e a luz apareceu (Génesis 1:3). A importância da palavra entre cristãos nunca é demais também porque é ela que traz a voz que dá origem ao conceito de vocação. Não sabemos viver sem palavras e isso leva-nos, consequentemente, a não saber viver sem cruzá-las com a música. Canções são também modos de a palavra começar universos novos em nós.

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