Os seres humanos sempre viajaram. Por curiosidade ou necessidade, sozinhos, em família ou em grupos, a mobilidade é uma característica dos humanos. Estudos recentes (vg. Paulo Lopes, in. Viajar na Idade Média) concluem que o homem medieval viajou muito mais que aquilo que se supunha. “Sobretudo no período posterior ao Séc. XII, os historiadores têm vindo a demonstrar, como a sociedade do Ocidente medieval, conheceu uma intensa circulação de homens e ideias”. As cidades do Porto e Lisboa, pelo menos até ao surgimento da Inquisição no Séc. XVII, foram desde sempre cidades cosmopolitas, com número significativo de estrangeiros residentes ou de passagem.

Hoje, viaja-se muito. Empiricamente, poderia dizer-se que então, nada de novo. Mas não é assim. A população mundial, é agora cerca de 8 mil milhões de pessoas e estas não se movimentam pelos mesmos meios do passado, quando por terra, se deslocavam a pé, em cima de um burro ou numa carroça e no mar em barcos a remos ou à vela. Praticamente não criavam qualquer dano ambiental. Deixavam apenas o lixo por onde passavam, que não incluía embalagens de plástico, claro. Não sofriam com uma atmosfera poluída é certo, mas uma simples pequena queda poderia significar a morte, pois não existiam medicamentos.

Quando Greta Thunberg viaja de barco à vela (escolha que a própria, teve a sensatez de explicar ser um acto simbólico) ou quando lhe oferecem um burro para fazer a viajem entre Lisboa e Madrid, mais não estamos que perante o simbolismo, dos modos de viajar medievais.

Não é sequer para levar a sério – salvo na cabeça de alguns doidos – que num planeta que tem hoje 8 mil milhões de almas e que, pior ou melhor conforme os sítios, consegue sustentar e garantir uma longevidade de vida média, três vezes superior à do tempo medieval, possa manter essa sustentabilidade, mudando radicalmente a curto prazo, os seus meios de produção e de mobilidade. Já se perdeu muito tempo é certo, mas isso é um atraso que já não poderemos reverter. A não ser que se adoptasse uma política eugenista ou malthusiana, sacrificando as necessidades da população actual, o tempo que demorará a cumprir as metas da descarbonização (confiando nas teses científicas maioritárias e assumindo que esse é o real problema), tem de ser compatível com a sustentabilidade da sobrevivência das pessoas que hoje estão vivas. O que se pode, por conseguinte, fazer desde já, é iniciar a mudança de hábitos de vida, em paralelo com as reformas do nosso modo de produzir. Recordemos que o modelo de produção actual, vem da revolução industrial do Séc. XVIII, em cujos alicerces ainda hoje se apoia, apesar da informática e da era digital. Este processo de transformação é necessariamente mais lento e tem de operar à escala mundial e não apenas na Europa desenvolvida, que é uma parte muito pequena do mundo.

O que certamente pode ser mais rápido e menos doloroso, é mudar o modo de consumir. Esta atitude, muito mais individual que coletiva, está ao alcance de cada um e não precisa de pedir licença.

Podemos começar pela “paranoia das viagens”, ou outra designação que se queira adoptar, que tomou conta de quase toda a espécie humana, estejamos na Europa, na América ou na Ásia.

Em 24 de Julho de 2019, como referiu na altura o Observador, foram registados 225 mil voos em 24 horas à escala mundial. Significa 20 mil aviões no ar em simultâneo. O número de navios de cruzeiro, não pára de aumentar. Só os 10 maiores actualmente a operar, transportam entre hóspedes e tripulação, 9000 pessoas em cada navio. Ou seja, se aportarem em algumas cidades, mais que dobram no espaço de algumas horas, a população residente da zona histórica de uma cidade, sem contar com os que lá chegaram de avião, autocarro ou comboio.

Claro que para acolher todos estes viajantes, como a natureza tem horror ao vazio, tornaram-se bairros inteiros em zonas Airbnb, sem falar na construção massiva de hotéis. Na Europa em 2019, existe um aumento de 23% nos licenciamentos de novos hotéis, isto é, 1704 estabelecimentos, que correspondem a 260.000 quartos de hotel. Só estamos a falar dos novos, note-se…

A carga, com reflexos na sustentabilidade ambiental desde modo de vida e de desenvolvimento económico, deixa, em prejuízo ambiental, o metano das vacas, a léguas de importância…

Quem frequenta aeroportos, certamente quase todos os que tiveram a paciência de ler este texto, vê agora uma paisagem humana inteiramente diferente da que ocorria no final do Séc. XX. Hoje, perto de 40% das pessoas que embarcam são idosos reformados, 40% são jovens, alguns mesmo muito jovens, quase todos em turismo e talvez apenas 20%, sejam pessoas que se deslocam por necessidade profissional.

É claro que não está em causa, limitar a liberdade de todos poderem viajar. Se a vontade das pessoas, for no sentido de continuar a andar freneticamente a mexer-se dum lado para o outro, por vezes para tirar algumas fotos para o Facebook e colocarem  mais um pionés no mapa do mundo, para poderem dizer que já lá estiveram, paciência, vai ser assim. Criou-se e não foi inocentemente, a ideia, que uma pessoa que não viaja, é uma espécie de falhado ou troglodita ignorante.

O que precisamos sem dúvida, é ter alguma consciência da proporção de cada factor para sustentabilidade ambiental.

Será de facto importante, reconverter ou fechar uma qualquer fábrica de adubos algures na Índia, porque tem uma carga poluente inaceitável. Mas ter 225 mil voos em 24 horas, na maioria ocupados por viajantes ou turistas, que são as mesmas pessoas que empenhadamente se encontram nas manifestações contra as alterações climáticas, não deixa de ser no mínimo, bizarro.