Uma vez, num texto de The Spectator, Alexander Chancellor declarou que era old-fashioned em algumas coisas e dava exemplos que o provavam: acreditava em pontuação e em frases com verbos. Isto funcionou como declaração de interesses num texto que passou a explicar como já via desatualizado o conceito de palavras ‘U’ e ‘non-U’ (de upper-class e non-upper-class) celebrizado por Nancy Mitford e o linguista Alan C. S. Ross no inacreditavelmente delicioso livro que é Noblesse Oblige.

(E aqui aproveito para congratular o leitor que foi a correr para os alfarrabistas da net procurar Noblesse Oblige, subtítulo An Enquiry Into the Identifiable Characteristics of the English Aristocracy. Tem lá o ensaio U and Non-U de Ross – que explicará, entre outras coisas, porque ficou a Duquesa de Grantham, de Downton Abbey, indignada com a palavra weekend. Um ensaio da Nancy Mitford sobre a aristocracia inglesa. Um texto de Evelyn Waugh chamado An Open Letter to the Hon. Mrs Peter Rodd (Nancy Mitford) on a Very Serious Subject – título que provoca suspiros em qualquer adorador de Waugh. Um texto, que não muda vidas, de Christopher Sykes, o antecessor da autora de chick lit Plum Sykes. E umas rimas de John Betjeman. Que melhor uso um amante de livros pode dar ao seu dinheiro?)

Bom, não gosto nada de me descrever como old-fashioned, mas às vezes sinto-me como Alexander Chancellor. Parece que as coisas mais básicas – racionalidade a olhar para a realidade, um ténue resquício de sensatez, uma pitada de prudência – estão já fora de moda e quem as aconselha é, na melhor das alternativas, uma relíquia vintage.

Isto, claro (foram avisados no título), a propósito das reações ao acolhimento dos refugiados da Síria e do Norte de África na Europa. Para que fique claro, informo que também estou fora de moda em algumas coisas: acredito em, podendo, ajudarmos aqueles que precisam ou que estão momentaneamente desamparados. Pelo que sim, parece-me que deve a UE acolher os refugiados possíveis. E, aos que não puder acolher de forma permanente, deve acolher temporariamente, alimentar, proteger do frio até que possam regressar ao seu país quando (se?) houver paz ou possam viajar para outras paragens.

Não estou, portanto, com os que clamam pelo encerramento da Europa a estas pessoas desesperadas. Como dizia no facebook o blogger e escritor John Wolf, para esses o transtorno só se vai resolver quando um jogador de futebol de origem síria andar a marcar golos pela seleção portuguesa.

Mas confesso que também não percebo a histeria dos que advogam furiosamente o acolhimento. E menos ainda percebo a falta de empatia que têm pelos desamparados de Portugal que estão assustados com a vinda dos refugiados. E não, não me refiro aos sem-abrigo. Refiro-me à empregada doméstica que tem medo de ser substituída por uma refugiada líbia que cobre menos à hora. Ou ao empregado da construção civil que teme que o patrão prefira um refugiado sírio que conhece uns rudimentos de engenharia. Ou ao utilizador de transportes públicos farto de ser assaltado e que sabe lá se os refugiados que não têm não aumentarão a insegurança. Ou à mãe de família que recebe mil euros líquidos de ordenado, não tem abono de família mas vê recursos a serem gastos com os refugiados.

É muito fácil mostrar indignação com a falta de generosidade de outros quando estamos a pensar que até nos ficaria bem contratar um refugiado para podar os arbustos do jardim da casa de praia. É mesmo muito U, como diriam Mitford e Ross, chamarmos de xenófobos e racistas aqueles que, afinal, serão os afetados com o acolhimento de refugiados.

Para a horda de ultrajados não se pode referir de modo nenhum que há riscos no acolhimento destes refugiados. Na Alemanha, uma escola ao lado de um centro de acolhimento de refugiados sírios já impôs que as alunas (alemãs) se vestissem com os braços cobertos, para não ferir as suscetibilidades dos jovens sírios nem potenciar violações. (E lá estamos mais uma vez a por o ónus da prevenção de violações nas potenciais vítimas.) Por mim, não estou disposta a fingir que acomodar as suscetibilidades muçulmanas não vai contra a igualdade entre os sexos – que devia ser um valor fundamental deste continente. E se o acolhimento aos refugiados passar por limitar as minhas liberdades e os meus direitos, só por ser mulher, digo que não aceito. Quem é recebido que se adapte, é um princípio intocável.

Também não se pode referir a (in)segurança nesta entrada massiva de refugiados (a maioria deles querendo apenas fugir da guerra). De facto passaria lá pela cabeça de um terrorista do ISIS aproveitar-se desta vaga. Os terroristas são, como se sabe, gente carregadinha de fairplay. Li várias tonterias irresponsáveis de políticos, mas um grande produtor de tolices declarou que os terroristas vêm de avião (adivinharam: Guterres). Eu até diria que vêm em classe executiva e com bagagem com monograma de marca de luxo. E as suas quatro esposas, todas cobertas com os seus niqabs, atrás. E, para não enganarem mesmo ninguém, com livros sobre montagem de explosivos debaixo do braço, à vista de toda a gente.

Mas mesmo para os refugiados que cá chegam a fugir ao ISIS, quem garante que não se radicalizarão em mesquitas e centros islâmicos que espalhem o ódio ao ocidente e incitem ao terrorismo, tudo sob a nossa magnânima liberdade de expressão? É que nem é preciso correr mal a integração. Só quem se esforça é que esqueceu que os atentados de Londres de 2005 foram realizados por muçulmanos perfeitamente integrados na comunidade. E que o que não falta são jihadistas que cresceram cheios de mimos dos generosos estados sociais europeus.

Pensando bem, os piores amigos dos refugiados são os que tão histrionicamente defendem o seu acolhimento. Se mostrassem que estão conscientes dos riscos (em vez de os negar) e prometessem vigilância, talvez sossegassem quem tem dúvidas. Porque sim, há prudências e cautelas necessárias. Mas, claro, é muito mais fácil gritar ‘xenofobia’.

N.R. Por lapso, este texto foi inicialmente adicionado com o nome de David Dinis. Nossas desculpas à Maria João Marques e aos leitores.