Ao longo dos séculos, e em todas as sociedades, a loucura serviu para separar aqueles que pensavam de forma “adequada” dos outros que transgrediam as regras que se ia convencionando para o exercício de pensar. Ou porque surgiam associados à intimidação e à violência. Ou porque confabulavam e, de história para história, criavam enredos fantasiosos que, tendo todavia a ver com eles, os levavam da fantasia ao delirar. Ou porque ousavam desafiar as regras e confrontavam os poderosos com verdades “inconvenientes”, sendo tomados como ensandecidos pelo modo como, com isso, se arriscavam à morte ou ao degredo. Ou porque, num ímpeto, quebravam as regras e renunciavam ao silêncio em nome de tudo aquilo em que acreditavam. Ou porque trespassavam da singularidade para a excentricidade e assumiam um percurso marginal, de afronta ou de ruptura, por mais que, por vezes, o associassem a actos de inovação únicos, luminosos e intensos.

A loucura trouxe sempre consigo uma aura de transgressão, de rebelião e de liberdade que fez com que, em muitos momentos, os loucos parecessem mais capazes de ser felizes. Porque ora rompiam com as convenções sociais e as desafiavam; ora porque a forma, aparentemente linear, como pensavam sugeria que não pesariam sobre eles os constrangimentos que nos prendem, estando, por isso, muito mais ao seu alcance uma espécie de ingenuidade capaz de os fazer felizes mais facilmente.

É estranho que a loucura pareça ter-se transformado numa espécie de unidade medida que separa aquilo que somos da felicidade. E que, por isso, falemos da loucura saudável como um conjunto de atitudes – raras, na maior parte das vezes – que nos levam mais facilmente até à liberdade.

Mas porque é que ter uma dose de humor contagiante; ser capaz de brincar, de desconcertar e de rir; ser tomado por uma onda arrebatadora de paixão; viver o romantismo com a intensidade de um primeiro amor e a ousadia de o querer a perscrutar para sempre; não confundir a euforia com a alegria, nem o êxtase com o encantamento; conseguir apanhar um momento e, num improviso, criar episódios intensos e memoráveis; falar com transparência de tudo o que se sente; juntar sonho, ingenuidade e beleza àquilo que se vive; e acrescentar poesia a tudo o que é opaco e matizado sobre tons de cinzento sobre cinzento há-de ser uma loucura saudável? Porque vivemos tão presos na realidade e reprimimos tanto a fantasia e a expressão livre daquilo que sentimos que imaginamos que só movidos pela loucura temos como conquistar a liberdade. A que nos falta. Ou a que nos foge.

Eu não acho que ficamos mais velhos à medida que perdemos pessoas. Não só quando elas, pura e simplesmente, desaparecem do pé de nós. Nem mesmo quando as que estando ao nosso lado vão morrendo, sempre que desistem de nos ver. Dando a sensação que aquilo que somos parece esgueirar-se do seu entendimento, aos bocadinhos.

Ficamos mais velhos sempre que imaginamos que aquilo que nos separa da liberdade e da felicidade é a loucura saudável. Daí que haja muitas pessoas que, independentemente da sua idade, muito cedo na sua vida ficaram velhas demais. Porque imaginam que a loucura que as arrebate e revolve, e os medos com que ela as assusta se casam num impasse. Que não as deixa reconhecer que quando chamam loucura saudável ao amor pela vida têm com ele uma relação encolhida de medo. Que as coloca diante de liberdade e da felicidade – que as tornam mais jovens –  com a distância que dedicam às coisas ferozes com que se pode morrer. E isso, sim, é mais louco do que pode parecer.

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR