1. “Quinta Feira e outros dias” (Porto Editora) é a versão do primeiro mandato presidencial de Cavaco Silva, por ele próprio, protagonista invulgar da cena política e líder político mais votado de sempre nas quatro décadas da nossa democracia. Mais que um “quanto baste” para o tornar numa indispensável fonte de esclarecimento para o estudo da História recente ou simplesmente para quem se interesse pelo fenómeno político e pela vida pública. (Deve haver muitos estudiosos e curiosos, o livro esgotou num fim de semana). Tão importante quanto interessante, li-o de um fôlego. Interessa-me o personagem, gosto de política, sigo-a – e persigo-a – há muitas décadas, ouvi e vi muito. Sou, em resumo, uma leitora naturalmente predisposta para o que aí esteve e o que aí está.

2. E o que aí está é um relato minucioso, detalhado, circunstanciado e não duvido que rigoroso – o que não é o mesmo que completo – de uma relação política. Descrita em vários passos mas circunscrita ao quadro único das quintas-feiras da vida do ex-Presidente da República ao longo de cinco anos, eis a primeira grande surpresa da obra. Não pela história em si, pois era fácil de adivinhar que um dia ela nos seria (fatalmente) “entregue”. Cavaco Silva aprecia deixar registo na primeira pessoa, já o sabíamos desde a autobiografia sobre a década vivida em S. Bento. Faltava Belém, chegou agora o primeiro volume.

Voltando ao tema: a primeira surpresa foi para mim o facto de Cavaco Silva ter optado por circunscrever quase exclusivamente os seus primeiros cinco anos de Belém a um casulo. Um casulo para dois, José Sócrates e ele mesmo. Não há quase mais ar, nem mais vida, há “aquilo”. O que sendo aliás imenso, perturbante e pesado, não parece poder ter sido tudo mas talvez afinal tenha sido. O que então justificaria a intenção desta escolha: ninguém deita mãos a tão exaustiva, documentada, cuidada e muito séria revisão da matéria se essa não tivesse sido “a” ideia central e, simultaneamente, a prioridade desta escrita. Muito ficou de fora, é certo, embora haja, claro, os capítulos iniciais lidos com curiosidade e nalguns casos com deleite. Antecedem o “relato principal” e, segunda surpresa, mostram-nos alguém que está muito bem consigo mesmo e, como não se cansa de repetir e nos lembrar, “muito grato à vida”. Eis o que não é de somenos.

Lembro me que um dia, há largos meses, sabendo eu que Cavaco Silva já se encontrava em plena escrita deste livro, lhe perguntei se “íamos” ter alguns retratos de maior recorte psicológico, pinceladas pessoais nas suas apreciações, traços mais intimistas na observação da política, da vida, das coisas. Desabafos. Descobertas. Desconcertos.

Não “íamos” disse-me ele. Tratava-se da sua versão sobre um determinado período da vida nacional onde, tendo assumido as mais altas responsabilidades, entendia ser sua obrigação fornecer ao país o seu testemunho escrito. Quase como uma missão, quase como quem, no termo dessa mesma missão, se senta a uma secretária e redige o seu relatório. Na altura não percebi, parecia-me um desperdício. E uma pena não saber o que pensava Cavaco Silva sobre muita coisa e muita gente. Como vira o evoluir da cena europeia, como como olhara a deriva do mundo, com quem criara sintonias e dessintonias nas matérias internacionais, que retivera dos homens e mulheres que conheceu, que lhe disseram uns e outras?

Agora percebo que não poderia ter sido de outro modo nem que a obra pudesse ter sido diferente. Agora, hoje, após ter lido o livro com atenção, também percebo a velocidade da escrita e a urgência da prestação de contas. Através de uma história com estatuto de História, invejáveis ingredientes e duas pessoas lá dentro, frente a frente e em tensão. Aposta de risco, resultado indispensável. Ainda bem que há livro. Tão relevante quanto o que lemos é o podermos lê-lo. Em Portugal escreve-se se pouco e com alguma preguiça. Felizmente Passos Coelho está também a escrever e há algum tempo já.

3. Ou porque conheço o político Cavaco Silva desde 1980 (julgo ter sido uma das primeiras pessoas, senão a primeira pessoa, a entrevistá-lo, um dia em sua casa, após ter titulado as Finanças no governo de Sá Carneiro entre 1979/1980), ou porque não uso má fé, ou porque tenho boa memória, encontrei verosimilhança política no que li e critério no relato. Mas o que sobretudo lá encontrei – em relevo – foi a força da realidade e, quando há pouco mencionei os ingredientes, a realidade é certamente o menos disfarçável de todos eles, de tal modo é forte a sua imposição ao longo destas páginas. Mas justamente porque conheço o personagem, a sua noção de “serviço”, a honra face ao interesse nacional, o seu horror ao “descompromisso”, a atitude entre o (aparentemente) distante e o respeito pelo país (um bem que muitos tomaram como um “mal” que fazia de Cavaco um “chato esfíngico” em vez de um grande comunicador divertido), imagino-o dentro do casulo. Com o ar rarefeito e tendo como única companhia face ao seu interlocutor a mais total e porventura desajeitada perplexidade primeiro, e uma crescente preocupação depois. Preocupação capaz de transformar em figurantes todos os outros grandes actores políticos de tal modo a “acção” se polarizava naqueles dois homens.

Nunca certamente se terá visto dois seres humanos tão visceralmente — das forma mentis aos métodos e procedimentos — opostos sentados semanalmente face a face durante cinco anos que devem ter parecido cinco mil.

4. No lançamento do livro há dias, no Centro Cultural de Belém – casa “amiga” da caminhada longa deste político de difícil classificação –, aconteceu algo de inusitado e por isso digno de registo. No momento em que Cavaco Silva entrou numa sala apinhada, com gente até ao tecto dentro e fora do recinto, as pessoas puseram-se de pé com uma espontaneidade que só podia ser natural e aplaudiram com alguma coisa que só poderia ser convicção. Não me parece que seja costume aplaudir os autores quando entram nas apresentações dos seus livros. Foi interessante observar que ali o quiseram fazer.

5. Não sei o que a má fé vai fazer com esta obra. Apercebi-me (não foi difícil) da “opinião” de comentadores que aparentemente sem possibilidade de terem ainda lido obra tão vasta e minuciosa emitiram acusações horas depois do próprio lançamento. Nada que espante, é só mal-empregado: um livro destes deveria ser “bem lido”, goste-se ou não do autor. Isso é o que menos interessa. O que Cavaco Silva conta sobre os seus primeiros cinco anos dentro do Palácio de Belém a olhar para Portugal, está para além de amores ou desamores de ocasião. Nem serão eles que farão ou escreverão a História.

6. Haverá um segundo livro. O qual espero bem, satisfará o meu rol de muitas e naturais curiosidades. Políticas e não políticas. É que foram muitos anos e há muita coisa que ainda não se sabe.