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Crónica

Um certo tempo

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O que é dizer uma coisa? Se eu contei um segredo a mim próprio não posso ser acusado de bisbilhotice ou de traição: não disse nada.

Desculpa-se o secretário de estado à saída da cerimónia: “Não temos timing para dizer tudo o que mereceria ser dito.” O lamento exprime uma intuição filosófica com valor. Trata-se da intuição de que precisamos de um certo tempo para dizer as coisas importantes; e que, não o tendo, mais nos vale francamente admitir que não é possível dizê-las.

O que é porém dizer uma coisa? Se eu contei um segredo a mim próprio não posso ser acusado de bisbilhotice ou de traição: não disse nada. E se o contei a um agente inimigo sem perceber que a chamada tinha caído também provavelmente não. E, como observou um filósofo, se contei o meu segredo muito depressa não só não contei nada como talvez também não tenha dito coisa nenhuma. E o mesmo aconteceria se bisbilhotasse extraordinariamente devagar.

Uma lei portuguesa determina que quando se invoca uma sondagem se tenha de referir a sua ficha técnica. Não indica porém a que velocidade. Se as coisas fossem diferentes poderíamos referi-la com desafogo. Dá-se porém que as coisas não são diferentes. E assim a ficha técnica da sondagem, incluindo as justificações para o facto de haver uma probabilidade não-negligenciável de poder estar completamente errada, tem de ser recitada à velocidade fatal de um acto de contrição, e pelas mesmas razões. Mas será que a uma tal velocidade ainda nos estamos a referir a ela?

Uma fatalidade muito parecida sobrevém às associações que aparecem na televisão durante os chamados tempos de antena. A essas associações é dada a possibilidade de dizer o que acham sobre si próprias. O que acham é parecido com o que toda a gente acha; e o que toda a gente acha é parecido; mas a confirmação é tranquilizadora, e o conceito valerá a pena. Como porém existe um grande número de associações, a logística dos tempos de antena é extraordinariamente complicada. Haver tanta gente com coisas para declarar, e não obstante declararem as mesmas coisas, impede os oradores de falar com calma; têm assim de ir ao essencial a grande velocidade. As cerimónias sugerem uns latidos de cão de quinta: começam sem aviso e acabam de repente; não chegam completamente a ser verbais.

Uma fatalidade semelhante sobrevém todavia a muitos dos que seguem o caminho contrário. Os grandes oradores latino-americanos do período clássico tinham uma concepção ancha do tempo requerido para dizer as coisas. A verdade, como observou um deles, é um espectáculo público que demora seis horas; e até pode demorar um pouco mais. Ajudou que esses filósofos-reis dispusessem quase sempre de meios para assegurar que ninguém arredaria pé durante a explicação. Mas mesmo condições logísticas perfeitas não conseguem evitar que alguns dos circunstantes concluam que os oradores não disseram realmente nada, e que a cerimónia foi uma perda de timing.

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