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Tem dias. Mas, às vezes, o mundo parece uma prisão de alta segurança. Com a particularidade de estarmos todos em casa. O mundo “seguro” e ultra-monitorizado que a pandemia ajudou a acentuar não é um mundo muito amigo de quem pense. É um mundo onde “vence” quem melhor funciona. Por mais que esse “vencer” seja um lugar efémero. Ou descartável. Onde uma “vitória” se esgota, muitas vezes, no dia seguinte. Perdurando o presente, desta forma, sobre a lonjura do tempo, um mundo assim corre o risco de se tornar, vezes demais, num lugar sem passado nem futuro.

Talvez (vendo bem) até nem seja por isso. Mas, num mundo onde o tempo parece um bem que nos foge e escasseia, há uma frase que tenho escutado, com insistência, dia após dia, que, por mais que possa ter os condimentos certos para ser razoável, me “magoa”; um bocadinho. Regra geral, porque ela não me chega de forma soalheira. É por isso que, a propósito seja do que for, quando alguém me retorque: “Um dia de cada vez!…”, sinto que o entusiasmo, em mim, se assusta e se refreia. Como se estivesse a viver depressa demais. Ora, é verdade que a vida não se ama com pressa. Mas, habitualmente — então quando isso nos chega na primeira pessoa — “um dia de cada vez” nem sempre representa uma experiência de clarividência. Ou um assomo de sabedoria. Ou, mesmo, um testemunho de superação. Antes traz consigo alguma censura; que nos estraga os planos. Uma nesga de “ralhete”. E, sobretudo, uma prova de resignação. Como se — tantas vezes na sequência duma doença, por exemplo — as pessoas não pudessem ter, sobretudo, futuro. Ou como se ele fosse o dia de hoje. “Este momento”. Na sua mais completa e absoluta planura. E nada mais.

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