Crescimento Económico

Uma sorte (na economia) que não dura sempre /premium

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O que foi sorte, o que foi talento na evolução da conjuntura política e económica em Portugal da era António Costa? A resposta pode chegar antes das eleições de 2019.

A esmagadora maioria dos economistas e comentadores foi surpreendido em 2017 com o desempenho da economia portuguesa e, por arrasto, das finanças públicas. Depois do cenário preocupante que se viveu nos primeiros meses da governação de António Costa, apoiado pelo PCP e pelo Bloco de Esquerda, o primeiro-ministro conseguiu reconquistar a confiança internacional e a economia regressou aos carris. A questão que agora se coloca é se a locomotiva foi apenas a recuperação da economia europeia e o disparo do turismo ou se há talento do Governo no crescimento que vivemos em 2017.

A resposta que a economia portuguesa nos deu no passado é: não, não há talento, por genial que seja, que consiga proteger Portugal de tempestades que chegam do exterior. Portugal pode criar as suas próprias crises – ou seja estar em crise sem contaminar os outros – mas não é imune à crise dos outros seus mais importantes parceiros comerciais.

O que um Governo português pode realmente fazer é evitar asneiras, por acção, que nos lancem numa crise gerada por nós e, ao mesmo tempo, agir para que estejamos preparados para aguentar sem muita dor a crise que vem de fora. É o destino de um pequeno país sem poder global e com uma pequena economia aberta. Foi isso que estivemos a fazer nestes últimos anos?

As últimas conversas entre o Presidente da República e o primeiro-ministro através das entrevistas que deram ao Público e ao Diário de Notícias revelam, em si, um nervosismo que até agora não existia. E há de facto razões para essa preocupação, como se está a revelar pela conjuntura internacional e pelos primeiros números do crescimento deste ano. Há riscos externos que não controlamos e há riscos internos essencialmente associados à dependência do turismo, a um sistema financeiro ainda frágil e à ausência de medidas, nomeadamente na administração pública, que mantivessem a trajectória de mudança estrutural que vinha da era da troika.

Esta legislatura, fruto das exigências do acordo para o PS governar, foi executada ao contrário do que é a gestão política de um ciclo eleitoral. Deu-se tudo no início. E o PS corre agora o risco de nada ter para dar em vésperas de eleições, exactamente a altura em que os eleitores memorizam o bom desempenho do governo e o premeiam, reelegendo de novo o mesmo partido.

António Costa sabe que quanto mais tempo passar maior será o risco de se esfumarem os efeitos políticos da reposição de rendimentos e do crescimento da economia e do emprego. Neste momento é o único a quem interessam eleições antecipadas.

Os riscos que se conseguem detectar no horizonte são inúmeros, alguns deles já a confirmarem-se.

O primeiro facto de origem externa é o abrandamento da economia da Zona Euro que já se verificou no primeiro trimestre deste ano, com a Alemanha a registar uma redução no seu crescimento que foi superior ao esperado. Como era de esperar, a economia portuguesa reflectiu esse efeito, com um primeiro trimestre a crescer 2,1%. Depois do extraordinário ano que foi 2017, as economias europeias e com elas a portuguesa regressam aos seus velhos problemas.

A política comercial norte-americana (e geo-política) é uma das razões para o abrandamento da economia alemã mas existem outras incertezas políticas no horizonte. Além do Brexit, temos o agora bastante visível problema de Itália. Esta semana a Itália está no epicentro de um abalo político e financeiro, depois de ter sido divulgado um documento de compromisso para a formação de Governo entre a Liga e o Movimento 5 Estrelas (M5S) que defende, entre outras coisas, o regresso a uma Europa anterior ao euro e o perdão de dívida. Uma revelação que, como seria de esperar, levou à fuga de investidores com a subida das taxas de juro dos títulos de dívida pública. Claro que podemos estar perante um abalo temporário, nesta espécie de “gerigonça” à italiana, semelhante ao vivido em Portugal em finais de 2015 após o acordo do PS com o PCP e o Bloco de Esquerda, mas ninguém sabe. O certo é que o contágio aos juros portugueses, mesmo que mínimo, não se fez esperar, mostrando bem que não estamos ainda em “porto seguro”, para usar uma expressão do ministro das Finanças.

A concretização dos riscos na frente interna depende em parte da evolução da economia na Zona Euro. Se a conjuntura económica se degradar, será mais difícil fazer um Orçamento do Estado para 2019 do agrado mínimo da esquerda. É verdade que, nestes quase três anos, já vimos o PCP e o Bloco de Esquerda validarem medidas que nunca nos passaria pela cabeça ver. Mas com eleições à porta é preciso marcar acentuadamente as diferenças e, a esta distância, parece impossível uma aprovação do Orçamento por parte do PCP e do Bloco sem um aumento salarial da função pública.

Haverá então eleições antecipadas, como avisou o Presidente da República e concordou o primeiro-ministro? Se todos agirem racionalmente não parece provável. Quem assumir o ónus do chumbo do Orçamento corre o risco de ser castigado nas urnas. No limite poderemos ver o PSD a viabilizar o último Orçamento desta legislatura. Na prática, o PS pode jogar duro, fazendo um Orçamento para 2019 que muito bem entende, já que é o único que está interessado em ir a votos o mais depressa possível. Quanto mais tempo passar, mais riscos corre de se ver que pouco ou nada se fez para garantir que Portugal resiste melhor à próxima crise ou até e apenas a um abrandamento da economia europeia.

Até lá António Costa tem ainda de resistir ao Verão, esperando-se que a falta de meios e organização para combater os incêndios não se transforme em mais uma tragédia.

Tudo isto demonstra até que ponto o país económico e financeiro continua vulnerável. Este Governo tem tido sorte e nós com ele. Temo-nos deixado ir na boa onda do crescimento europeu e no crescimento do turismo. Basta um desses pilares falhar para regressarmos aos problemas do passado, o que pode acontecer antes das eleições do próximo ano. A sorte não é eterna.

Agora que entramos em 2019...

...é bom ter presente o importante que este ano pode ser. E quando vivemos tempos novos e confusos sentimos mais a importância de uma informação que marca a diferença – uma diferença que o Observador tem vindo a fazer há quase cinco anos. Maio de 2014 foi ainda ontem, mas já parece imenso tempo, como todos os dias nos fazem sentir todos os que já são parte da nossa imensa comunidade de leitores. Não fazemos jornalismo para sermos apenas mais um órgão de informação. Não valeria a pena. Fazemos para informar com sentido crítico, relatar mas também explicar, ser útil mas também ser incómodo, ser os primeiros a noticiar mas sobretudo ser os mais exigentes a escrutinar todos os poderes, sem excepção e sem medo. Este jornalismo só é sustentável se contarmos com o apoio dos nossos leitores, pois tem um preço, que é também o preço da liberdade – a sua liberdade de se informar de forma plural e de poder pensar pela sua cabeça.

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