Ahhh… admirável mundo novo! Desengane-se quem pensa que o discurso em torno da tecnologia e seus maravilhosos poderes na transformação das sociedades ficaria pelas páginas do romance de Aldous Huxley de 1932 ou por entre as comunidades de aficcionados empreendedores ou entusiastas da Web Summit ou assíduos de LAN Parties. Tenho observado a crescente e incessante ode às STEM (termo que agrupa as disciplinas académicas da Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática) nos discursos em torno das políticas educativas e das opções curriculares como estratégia vital para a competitividade e para o desenvolvimento.

A um ritmo ainda mais acelerado, mas desprovido de sentido crítico, ouço de Norte a Sul do país, pais de estudantes imberbes aplacarem os seus medos gigantes acerca do futuro incerto dos seus filhos com uma galvanização cristalizada na escolha vocacional pela área das Ciências e Tecnologias. Ainda na semana passada, um antigo colega de trabalho me dizia acerca da filha que está a frequentar o 9.º ano: “Ai a Joana é assim toda criativa, continua a adorar desenhar e tem imenso jeito…” Perguntei com naturalidade se ela estaria a pensar seguir Artes, ao que me responde prontamente “Nãaao, achaas que eu a deixava escolher Artes? Ela vai é para Ciências!”. Concluí, com pesar, que o percurso da Joana pelo menos no que ao nível do Secundário diz respeito, está traçado e condicionado pela amplitude dos estereótipos daquele pai.

É que a preocupação com o porvir de quem depende de nós, é denominador comum a todas as mães e pais mas o cerrar irracionalmente fileiras às várias possibilidades na vã tentativa de proteger os filhos, não é política muito eficaz… STEM é cool, é IN, dá emprego, paga bem… faz-me lembrar aquele anúncio publicitário de 1986 da Robbialac. Podíamos até facilmente adaptar: “S-T-EM é uma grande escolha, S-T-EM é o futuro de sucesso. Toda a gente escolhe S-T-EM, S-T-EM é o futuro de sucesso”. Nem sei por que continuam a existir outras opções nos percursos formativos do ensino secundário e do ensino superior se, claramente, a escolha certa é ciência, tecnologia, engenharia ou matemática. Daahhh!!!

Não, nada disto é verdade. Só parece. A explicação da sobrevalorização destas áreas científicas combina um conjunto de variáveis tais como o estatuto social percebido das pessoas destes domínios do saber, a grande procura do mercado de trabalho por profissionais destes sectores, as formas mais visíveis, e por isso mais facilmente identificáveis, de oportunidades de trabalho, as médias progressivamente mais altas de acesso a cursos de ensino superior STEM, o enorme investimento feito em branding, academias de trainees e recrutamento pelas empresas tecnológicas, o discurso de oposição entre as ciências naturais e as ciências humanas e sociais, como se a ciência não fosse toda ela provisória, os discursos sexy e facilitistas de lógicas instrumentais de reintegração profissional através de cursos de reconversão estritamente orientados para a programação…

Compreendo que as pressões das dinâmicas da economia relativamente à necessidade de emprego conduzam as pessoas por processos menos reflectidos e mais imediatistas de ocupação profissional, com menos espaço para se questionarem e desenvolverem, e assim construírem um projecto de vida equilibrado e alinhado com os valores e necessidades pessoais. A par de tudo isto, experiencio uma reduzida disponibilidade das famílias, dos agentes das comunidades escolares, dos media e dos influenciadores para ajudarem a desconstruir mitos associados às escolhas vocacionais e ao universo do trabalho, para criarem espaços intencionais de exploração e reflexão slow possibilitadoras de algumas âncoras neste mundo VUCA (volátil, incerto, complexo e ambíguo). Tanta conversa acerca das competências-chave do futuro e continua-se a promover o afunilamento…

Psicóloga especialista em Psicologia Clínica e da Saúde, Psicologia da Educação, Psicoterapia e Psicologia Vocacional e do Desenvolvimento da Carreira