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Exames Nacionais

Reflexos na pauta /premium

Autor
  • Teresa Espassandim

Vamos lá lutar é por aquela décima no exame que a média agradece e os rankings rejubilam! Mas não esquecer o teatro, ERASMUS, o associativismo, o activismo, o desporto, o voluntariado, as viagens…

Já deve ter notado, a não ser que faça parte do bendito clube dos muito distraídos (quase lunáticos), que está em curso a época de avaliações escolares, que é para muitos uma espécie de Processo Revolucionário em Curso (PREC) mas ao contrário, e que entretém (e afecta) crianças, jovens e menos jovens com exames de aferição, provas finais e exames nacionais ou para quem frequenta o Ensino Superior, os exames do 2.º semestre.

Se, entretanto, desceu ao planeta Terra e tropeçou neste processo, digo revelação, esclareço que não é uma febre, um delírio colectivo ou uma tempestade passageira na dobra do cabo das Tormentas. É, realmente, todo um sistema que se criou constituindo um mal menor na ausência de alternativa viável e garante que possamos todos dormir descansados com mais certezas relativamente ao quão bem todos esses estudantes são capazes de responder num determinado dia a uma determinada hora às questões que lhe forem perguntadas.

Desengane-se quem considere que assim se distinguem os melhores, os mais inteligentes, os mais capazes, num tal processo justo que pretende garantir igualdade, após um percurso por caminhos diversos e com apoios e escolhos distintos que se nomeou de ano lectivo. A quadra é concomitantemente de festas populares, mas temo que estas se circunscrevam tal e qual como um balão de São João que queima e cai a pique, depois de brilhar no céu durante uns instantes.

Depois dos exames, nada. Está feito, até para o ano. E volta-se a casa, mais alegre ou mais cabisbaixo, consoante as expectativas e investimento feito na “festa”. E a despesa até pode ser considerável, contabilizando os custos directos envolvidos em honorários de explicações, livros de exercícios e de resolução de exames, correcções de provas e repetição de exames mas já agora também os custos indirectos como as tardes em que não se brincou nem se criou coisa alguma, as noites mal dormidas, a ansiedade vivenciada, os tempos de convívio em família e com amigos entrecortados por sessões de estudo obcecadas com a matéria ainda em falta e os mal-entendidos no whatsapp e instagram gerados pela baixa tolerância dominante. Ahhh, custa mesmo sermos colocados à prova desta vil forma sob a égide irrefutável da aprendizagem e do futuro de sucesso que ninguém quer perder. Se ao menos todas as estatísticas, rankings e rácios produzidos contemplassem outras variáveis para além das notas tiranas que pouco ou nada revelam sobre as pessoas que moram nos alunos…

Segundo a PORDATA, o número de estudantes matriculados no Ensino Superior em 2018 é de 372.753 (em 1978 eram 81.582) mas só 18 em cada 100 pessoas com mais de 20 anos no nosso País é que têm um curso de ensino superior completo, o que é bastante baixo. E se pudéssemos também saber, não como se tivéssemos ido a exame e soubéssemos de cor, mas antes porque o experienciamos em cada célula do nosso organismo que a adaptação às exigências da sociedade e sermos bem-sucedidos no nosso projecto de vida não advém das classificações que obtemos mas muitíssimo mais das atitudes e competências sócio-emocionais que desenvolvemos e evidenciamos ter?

A auto-regulação, a adaptabilidade, o pensamento criativo, a resolução de problemas, o pensamento crítico, a resiliência e a comunicação são competências já bastante promovidas através de metodologias de referência em programas eficazes no contexto escolar e em entidades do sector social mas cuja frequência se esbate à medida que as transições da infância para a adolescência e desta para a adultícia se operam. No Ensino Superior, por exemplo, poderiam predizer sucesso académico e redução de taxas de abandono, saúde e bem-estar e compromisso com a gestão de carreira, potenciando-se os recursos de todos para todos, contribuindo para o crescimento económico e para a coesão social. Quanto a disponibilização de meios para o investimento no desenvolvimento pessoal, assobia-se para o lado e enfia-se a cabeça na areia das hard skills contrariando o que a Ciência já sabe e organismos como a OCDE disseminam. Vamos lá lutar é por aquela décima no exame que a média agradece e os rankings rejubilam! Mas não esquecer o teatro, ERASMUS, o associativismo, o activismo, o desporto, o voluntariado, as viagens… que apesar de não deixarem registo formal têm reflexo na pauta.

Psicóloga especialista em Psicologia Clínica e da Saúde, Psicologia da Educação, Psicoterapia e Psicologia Vocacional e do Desenvolvimento da Carreira

Não queremos ser todos iguais, pois não?

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