Crítica de Livros

A ficção de Dickens é uma autobiografia

Em "Grandes Esperanças", escreve Jorge Almeida, Dickens mostra-nos que há uma continuidade entre aquilo que somos e as nossas fantasias. O mesmo Dickens que é um representante da humanidade inteira.

Getty Images

Autor
  • Jorge Almeida

Título: Grandes Esperanças
Autor: Charles Dickens
Editora: E-Primatur
Páginas: 560
Preço: 22,01€

grandes esperanças

O romance Grandes Esperanças foi um dos maiores êxitos literários de Charles Dickens. Entre as razões que se apontam para esse sucesso imediato aparece sempre destacadamente aquela que declara que este romance retrata com precisão as ambições e angústias de um certo tipo de indivíduo representante da classe média pré-vitoriana que, então, se encontrava num período em que ter esperança numa melhoria das condições de vida parecia um sentimento legítimo.

Neste argumento, as aventuras da ascensão e queda de Pip, o narrador e protagonista do romance, seriam, para os leitores contemporâneos de Dickens, um reflexo de muitas histórias reais, o que, por si só, justificaria o interesse do público pela narrativa da vida de um aldeão aprendiz de ferreiro que se tornou num cavalheiro londrino, e que nesta explicação é uma espécie de símbolo de uma classe. Tudo isto é verdade, mas este argumento parece ser um pouco redutor não só porque faz de Dickens um mero retratista social, mas também porque a colocação de toda a ênfase da genialidade do romance na descrição das peripécias resultantes das ambições de Pip faz com que Dickens saia a perder na comparação com outros romances oitocentistas que abordam o mesmo tema como, por exemplo, O Vermelho e o Negro de Stendhal e Ilusões Perdidas ou Misérias e Esplendores das Cortesãs de Balzac, romances esses em que a escalada e derrocada social dos protagonistas é apresentada de modo mais complexo.

A sofisticação do romance de Dickens que a E-Primatur edita agora (numa tradução que infelizmente apresenta um português algo datado, onde a sintaxe e o vocabulário, por vezes, nos aproximam mais de alguns textos portugueses de meados do século XX do que do texto original) reside essencialmente noutro aspecto: no facto de esta ser a história de um jovem muito peculiar, especialmente pela sua maneira de percepcionar e narrar a sua vida.

O poeta T.S. Eliot escreveu, a propósito do discurso final de Othello na famosa peça de Shakespeare, que “nada morre mais penosamente do que o desejo de pensar bem de si próprio”. Eliot referia-se ao ‘auto-encorajamento’ presente nas últimas palavras de Othello, aquelas em que o protagonista da tragédia homónima se esforça por fazer lembrar que, para além dos seus actos condenáveis recentes (o homicídio da sua mulher), a sua vida foi a vida de um homem moralmente virtuoso, que se deixou perturbar apenas pelo amor e pelo ciúme e que, uma vez ou outra, se deixou influenciar excessivamente. Segundo Eliot, esta curta autobiografia feita à pressa, que serve em primeiro lugar para que Othello se iluda a si próprio, acaba por iludir também o espectador/leitor. Na opinião de Eliot, nunca houve outro escritor capaz de denunciar tão claramente “a vontade humana de ver as coisas como elas não são” como Shakespeare no monólogo final de Othello. Esta ideia parece-me discutível depois de ler Grandes Esperanças, uma vez que a narrativa contada por Pip parece-se muito com um livro de memórias de alguém que, querendo enganar-se a si próprio, acaba por enganar os leitores.

Na verdade, muitos são os casos em que Dickens parece lembrar o leitor de que uma narração autobiográfica não é sinónimo de uma verdade absoluta, sobretudo se tivermos em conta algumas das características deste narrador. Aliás, Dickens avisa o leitor disso mesmo logo no primeiro parágrafo do romance:

O meu apelido de família por parte de meu pai era Pirrip e Philip o meu nome de baptismo; mas não fui capaz, quando criança, de arranjar, quer do primeiro, quer do segundo, outro nome mais comprido ou mais explícito do que Pip. Deste modo, o nome que eu atribuía a mim mesmo era Pip, e foi Pip o nome que fiquei a ter.” (p. 7).

A primeira coisa que o narrador nos diz é que foi o criador do seu próprio nome e que o conseguiu impor aos outros. A autobiografia que nos vai ser apresentada não é muito diferente disto, uma vez que é a história de uma vida atribuída por alguém a si próprio e que, posteriormente, deve ser imposta como verdadeira aos leitores.

A propensão de Pip para inventar histórias é desde cedo assinalada com vários episódios. Da inscrição ‘minimalista’ presente no túmulo da sua mãe “Também Georgiana, mulher do acima referido”, Pip diz ter concluído que a sua progenitora “era sardenta e andava quase sempre adoentada” (p. 7) e que interpretava “«mulher do acima referido» como uma referência lisonjeira à elevação do meu pai num mundo melhor” (p. 55). A Pip basta-lhe um pequeno conjunto de letras numa lápide para construir a história dos seus antepassados. Um pouco mais à frente na narrativa, existe um episódio em que Pip descreve à família a sua primeira visita à Casa Satis, uma casa já de si espantosa, onde não entra a luz solar e onde a dona da casa passeia à volta de uma mesa preparada há décadas para a festa do seu casamento (que nunca chegou a acontecer).

Visivelmente impressionado com a atenção que os seus familiares dão à sua descrição desta casa decadente, Pip deixa-se levar até ao ponto de inventar coisas ainda mais inacreditáveis do que aquelas que vira. Porém, perante a expressão de credulidade e bondade do seu cunhado Joe, Pip decide confessar que o seu relato não correspondia exactamente à verdade, e que não sabia exactamente o que o levou a mentir, confessando “não sei o que é que se apoderou de mim” (p. 85). Poderia pensar-se que se trata apenas de um caso típico de um adolescente com tendência para enriquecer a realidade com passagens ficcionais, mas não é disso que se trata, pois, ao longo da vida de Pip, este tipo de acontecimento vai repetir-se frequentemente.

Num passo em que Pip, então já estabelecido em Londres graças a uma generosa pensão que lhe é dada por um mecenas desconhecido, tenta organizar os documentos relativos às suas dívidas, diz confundir “este edificante processo e o pagamento na realidade” (p. 317), acrescentando que a sua auto-aprovação nesses momentos lhe proporcionava “uma sensação absolutamente luxuriosa” (p.318) e admitindo até que chegou a ficar com “uma admirável opinião” de si mesmo. Pip sabe que organizar os papéis das dívidas não significa pagá-las, mas esse conhecimento da realidade é marginalizado por uma ficção que lhe apazigua a consciência. Todavia, esta espécie de wishful thinking torna-se por vezes tão degradante que Pip chega mesmo a indignar-se com o facto de ser simultaneamente o criminoso e a vítima deste processo. Numa das viagens de regresso à sua aldeia, Pip comenta que lhe “era evidente” que, por gratidão para com Joe, tinha de dormir na sua antiga casa, mas que “começou a inventar razões e arranjar pretextos” para se hospedar mais confortavelmente na estalagem local. Perplexo com a sua atitude, Pip diz:

Todos os outros intrujões da terra nada são comparados com aquele que se intruja a si mesmo. Por certo, uma coisa curiosa. Que eu inocentemente recebesse um objecto falso fabricado por outro, compreende-se; mas, conscientemente, considerar como verdadeiras as minhas próprias falsificações?” (p. 260)

Não parecem, assim, restar dúvidas sobre a capacidade que Pip tem para se iludir a si próprio e para, em muitas ocasiões, resistir à percepção de que isto está a acontecer. O narrador parece sublinhar que esta característica não é algo exclusivo do jovem cheio de esperanças que foi outrora quando afirma: “era demasiado covarde para fazer o que sabia estar certo, como tenho sido demasiado covarde para evitar fazer o que sabia não estar certo” (p. 53). Todos os comentários deste tipo fazem crer que Dickens nos quer fazer perceber que as características do Pip do passado são as características do Pip do presente, ou seja, que a propensão para se iludir a si mesmo e aos outros é uma característica deste narrador e que, como tal, ter uma crença absoluta em tudo o que este narrador nos diz não deve ser a postura mais correcta para entender a história da vida de Pip.

Esta ideia parece ser reforçada com a constante preocupação que Pip, à maneira de Othello, apresenta na parte final do romance com a possibilidade de vir a ser “desprezado por gerações ainda não nascidas” (p. 483) e com a hipótese de que Biddy e Joe o retratem aos seus filhos como alguém digno de censura. De certa forma, o que Pip procura fazer com esta sua autobiografia é apropriar-se do epitáfio que o bom Joe escrevera um dia para o seu falecido pai: “«Quaisquer que fossem, sim, os seus defeitos / Lembra-te, ó tu quem lês / Que o seu coração era dos direitos!»” (p. 59).

Tudo o que foi dito até aqui parece pedir ao leitor que encare a narrativa autobiográfica de Pip com uma atenção redobrada e com um certo grau de cepticismo. Este posicionamento parece-me necessário para que o leitor não fique tentado a descrever esta personagem como o fez, por exemplo, G.K. Chesterton quando afirmou que a história de Pip serve para mostrar como “as circunstâncias podem corromper os homens”. Se há coisa que Pip se esforça por mostrar é, precisamente, que foi vítima das circunstâncias (veja-se a descrição já citada em que o protagonista diz que algo se apoderou dele quando começou a mentir) e que o momento fulcral dessa história foi o primeiro contacto com uma classe socialmente superior à sua aquando da primeira visita à Casa Satis, sobretudo o momento em que se apaixonou por Estella, a rapariga insolente que lhe fez notar pela primeira vez o quão grosseiro e estúpido ele era (p. 75).

Ao longo de toda a narrativa, Pip vai classificar muitas vezes este momento como aquele que o alterou profundamente e que nunca mais lhe permitiu voltar a ter os desejos humildes de outrora, quase como se esse momento o tivesse transformado instantaneamente num arrivista “inquieto, ambicioso, insatisfeito” (p. 128). Quando Pip se decide a fazer planos para voltar à simplicidade da vida de ferreiro na aldeia, imediatamente, diz: “caía sobre mim qualquer lembrança desconcertante de Miss Havisham [a proprietária da Casa Satis e da jovem Estella], qual projéctil destruidor, e perturbava-me outra vez o juízo” (p. 156). Uma vez mais, Pip descreve o seu comportamento como o resultado de um combate entre as suas boas intenções, pelas quais ele é responsável, e uma influência externa maligna que acaba por se superiorizar às primeiras, influência essa que, a acreditar em Pip, fora inserida no seu espírito pelo amor que tem a Estella e a todas as coisas do mundo social a que a sua amada pertence.

O número de vezes em que Pip tenta justificar o snobismo de certos comportamentos seus com o facto de estar apaixonado por Estella (como, por exemplo, quando diz explicitamente à sua amiga Biddy que a vai abandonar porque quer “ser um cavalheiro distinto por causa dela [Estella]” (p. 152)) é tão elevado que nos faz recordar as estratégias usadas para se convencer de que é uma boa pessoa. Aliás, o próprio Pip, num daqueles momentos de lucidez aos quais tenta a todo o custo evitar dar sequência, percebe isso: “Até que ponto eu seria o culpado do meu desagradável estado de espírito, qual a parte que cabia a Miss Havisham, ou a minha irmã, não interessa agora saber. A mudança operou-se: a coisa estava feita. Bem ou mal feita, desculpavelmente ou indesculpavelmente, estava feita” (p. 127). A aparição da sua irmã na enumeração de possíveis culpados pela sua mudança espiritual e moral é pouco comum na narrativa, mas na verdade, antes de Pip conhecer Estella e o mundo de Miss Havisham, já a sua irmã era culpada por Pip pelo facto de a pobre casa onde crescera lhe ser um lugar desagradável, o que nos mostra que algumas das ambições deste jovem são prévias ao dia que ele descreve como o dia em que tudo mudou. Pip nunca assume a completa responsabilidade pelos seus actos mais condenáveis, pois declara sempre existir uma influência exterior que lhe parece ser a principal responsável por estes, convencendo quase por exaustão, o leitor de que, como Othello, foi o seu carácter influenciável e o amor por uma mulher que o desviaram de um caminho que seria irrepreensível de um ponto de vista moral.

Mais do que nos dar, à maneira de Thackeray, um retrato inesquecível das possibilidades de ascensão social e das esperanças da classe média na sociedade inglesa da primeira metade do século XIX, parece que Dickens nos mostra, de uma forma simultaneamente pungente e subtil, que a ficção faz parte de toda e qualquer autobiografia, que há uma continuidade entre aquilo que somos e as nossas fantasias e que muitas vezes isso acontece porque “a consciência é uma coisa terrível quando acusa um homem ou uma criança” (p. 18). Sendo assim, Dickens não faz de Pip um representante de uma classe social, mas sim um representante da humanidade inteira. É por isso que Pip, como Othello, se encontra no panteão das personagens literárias.

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