Estados Unidos da América

Confrontos na marcha de supremacistas brancos na Virgínia. Declarado estado de emergência em Charlottesville

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A cidade de Charlottesville declarou estado de emergência local para receber os mais de 6.000 manifestantes que chegam este sábado, para uma das maiores demonstrações de supremacistas brancos

Homens de longas batas brancas com dois buracos para os olhos, tochas e cânticos de saudosismo nazi. Não se trata de Berlim dos anos 1930 nem dos tempos da segregação racial oficial nos Estados Unidos, mas quem chegasse para passar o fim de semana em Charlottesville, no estado de Virgínia, neste sábado, era com este cenário que se deparava.

A marcha “Unir a direita”, que concentra este sábado milhares de brancos supremacistas na cidade universitária — e quem os quer combater — já fez feridos e desencadeou a declaração de estado de emergência local. As autoridades consideraram, entretanto, esta reunião “ilegal”, depois de os confrontos terem feito do Parque da Emancipação um campo de batalha. Alguns manifestantes estavam vestidos com farda militar, usavam capacetes e escudos improvisados, feitos de chapa. Segundo o Washington Post, os supremacistas também envergavam paus e tacos de basebol mas ambos os grupos pulverizaram “o inimigo” com irritantes químicos.

Alguns manifestantes tentaram também destruir a estátua do herói sulista da Guerra da Secessão Robert E. Lee, episódio que terá funcionado como a “gota de água” que levou a polícia a declarar o estado de emergência. A polícia está a retirar as pessoas do parque, segundo avançava ao início da tarde de sábado o diário Washington Post. A remoção da figura do general foi aprovada no início do ano e, desde aí, alguns ativistas de extrema-direita têm utilizado esta decisão para argumentar que a tradição e a história norte-americanas estão a ser apagadas e substituídas.

As manifestações começaram já na sexta-feira à noite, quando uma onda de supremacistas invadiu a Universidade da Virgínia para festejar a decisão de um juiz federal em permitir que esta manifestação se realizasse. Os estudantes que estavam ainda no campus, tal como algumas pessoas que participavam numa missa dentro da igreja de São Paulo, envolveram-se em confrontos com o grupo que envergava bandeiras da Confederação, cruzes e tochas, e entoou slogans como “Vocês não nos vão conseguir substituir!” ou “As vidas dos brancos importam!”, um contraponto com a campanha “As vidas dos negros importam” (Black Lives Matter) que começou como crítica à violência policial sobre a população negra, que alguns ativistas consideram desproporcional em relação aos seus “crimes”.

O organizador da marcha, Jason Kessler, afirmou em comunicado que esta manifestação era legal e apoiada na primeira emenda à Constituição norte-americana, que protege a liberdade de expressão. O objetivo, disse ainda num texto difundido pelos meios de comunicação norte-americanos, é o de apoiar “os grandes homens brancos que estão a ser difamados, caluniados e derrubados nos Estados Unidos”.

O Southern Poverty Law Center, que investiga os grupos que fomentam a violência descreveu esta marcha como “o maior encontro de ódio da sua classe em décadas nos Estados Unidos”.

Porque em Charlottesville?

As duas marchas anteriores, em maio e julho, não foram tão significativas, nesta que já foi um dia considerada a cidade mais feliz de todos os Estados Unidos. Mas Jason Kessler, que é residente em Charlottesville e considera existir “um ódio contra os brancos” na cidade, está convencido que a extrema-direita terá cada vez mais gente nos seus eventos. “Os eventos anteriores foram vistos como uma afronta às pessoas liberais desta cidade e deste país e reabriram as ferias. Foi como colocar o dedo num nervo desta gente que falhou em entender que o país elegeu Donald Trump”, disse Kessler, citado pela CNN.

Depois da decisão de remover a estátua de Robert Lee, a cidade tornou-se pela primeira vez alvo de protestos supremacistas. Nesse evento, em maio, algumas centenas de pessoas saíram à rua com tochas na mão, para protestarem contra essa decisão. Segundo Heidi Beirich, analista do Southern Poverty Law Center, esse protesto “resultou muito bem” porque “as imagens e os símbolos são muitos fortes e as pessoas gostam de imagens fortes” e porque, todas juntas, “notaram que não estavam sozinhas e que, afinal, ninguém parecia ter grandes problemas com estas demonstrações em tudo semelhantes a uma marcha do KKK a martirizar os negros”.

Em julho, um novo encontro: desta vez em Justice Park, um parque que já tinha carregado o nome de um outro general famoso da Confederação: Stonewall Jackson. Poucas centenas marcharam no centro da cidade, os seus cânticos ampliados pelos Loyal White Knights, um grupo de extrema-direita da Carolina do Norte. Foram recebidos, contudo, por mais de 1000 contra-manifestantes e os seus gritos de “Poder branco!” foram abafados pelos “Racistas vão-se embora!” de quem estava do outro lado.

Como os dois eventos tiveram mais pessoas do que seria de esperar, principalmente numa cidade tão liberal, e porque apenas Charlottesville decidiu “limpar” a cidade de nomes associados à defesa da escravatura, a pacata cidade tornou-se um símbolo de duas lutas opostas.

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