Procrastinar, a arte de adiar o inadiável

19 Outubro 20142.040

O fim de semana será a altura ideal para procrastinar. Por isso preparámos um guia essencial sobre tudo o que precisa de saber sobre a nobre arte da procrastinação.

Oscar Wilde, o célebre escritor irlandês, era um homem de muitos talentos. Conhecido pelo gosto requintado e génio literário, Wilde era também um verdadeiro especialista na arte de bem procrastinar. “Nunca deixo para amanhã o que posso fazer depois de amanhã”, dizia.

À semelhança do escritor irlandês, são muitas as pessoas que ainda hoje se dedicam à arte da procrastinação. Mas afinal o que é isso?

 

Adiar o inadiável

Quase um sinónimo perfeito de “adiar”, “procrastinar” significa evitar as tarefas importantes, substituindo-as por outras. Um procrastinador tende a deixar para o fim aquelas coisas que tem mesmo de fazer, distraindo-se facilmente por tarefas menos importantes mas que, para ele, são mais interessantes ou apelativas.

Piers Steel, professor na Escola de Economia de Haskayne da Universidade de Calgary, desolveu uma equação que explica exatamente isso. A equação, U=EV/ID, explica que os procrastinadores tendem a adiar coisas que têm de fazer em troca de atividades que oferecem recompensas imediatas. O “U” significa “utilidade”, o “E” expectativa e o “V” valor da conclusão. Tudo isto é dividido pela imediatidade, “I”, e pela sensibilidade pessoal em relação ao atraso da conclusão da tarefa, “D”.

Apesar de a procrastinação ser bastante comum (estima-se que cerca de 95% das pessoas o façam), é mais frequente nos jovens e principalmente nos estudantes universitários. Como refere Rowan Pelling, um autoproclamado membro do grupo dos procrastinadores, “a procrastinação é a maldição do estudante”. “Para que servem as bibliotecas das universidades se não para olhar para o infinito, para ver colegas sexy, ligar o iTunes ou planear a próxima saída?”.

Mas a procrastinação pode não ser apenas provocada por preguiça ou falta de concentração. Alguns autores defendem que as causas vão desde o perfecionismo e o medo de falhar, à fadiga, frustração, rebelião ou mesmo dificuldades em lidar com tarefas complexas. De acordo com o jornal The Guardian, existem dois tipos de procrastinadores — os caóticos e os perfecionistas. Os caóticos são, por normal, pessoas pouco ambiciosas e pouco persistentes, impulsivas e desorganizadas. Por outro lado, os perfecionistas são aqueles que não se atrevem a agir. Costumam ser rebeldes, desagradáveis e até mesmo hostis e não gostam que nenhum horário lhes seja imposto.

Apesar de a maioria das pessoas procrastinarem casualmente, existem aqueles que o fazem regularmente — os chamados procrastinadores crónicos. Joseph Ferrari da Universidade de DePaul de Chicago, autor de Still Procrastinating? The No Regrets Guide to Getting It Done (2012), defende que 20% da população mundial sofre de procrastinação crónica, uma condição que não só complica as suas vidas, como as torna mais curtas.

"A grande fraqueza dos investigadores: chamar à procrastinação investigação."
Stephen King

De acordo com alguns estudos, os procrastinadores crónicos têm menos dinheiro, são menos saudáveis e menos felizes. Tendem também a ser pessoas ansiosas e a sofrer de uma baixa autoestima ou de falta de confiança. E ao contrário do que se diz, o melhor trabalho nunca é feito sobre pressão e em cima do prazo. “O trabalho feito no último minuto tem mais erros do que aquele que é feito a tempo”, refere Pelling.

Apesar de geralmente associada a aspetos negativos, há também quem olhe para a procrastinação de maneira positiva. A psicóloga Anna Abramowski da Universidade de Londres é uma dessas pessoas. Para ela, “os indivíduos que procrastinam ativamente mostram um certo nível de autossuficiência, autonomia e autoconfiança porque têm consciência dos riscos” que correm ao completarem as tarefas nos últimos minutos e sob pressão.

Nas últimas décadas, houve um aumento de entre 300% a 400% de procrastinação, refere a BBC. Para Piers Steel, isto significa que “estamos realmente a entrar na era dourada da procrastinação”. Apesar de ser algo inerente ao ser humano, como refere Steel, “o ambiente certo” pode tornar maior a tendência para a procrastinação. “E temos vindo a criar esse ambiente nos últimos 50 anos”, acrescenta. A evolução tecnológica e a invasão do ambiente de trabalho por computadores, tablets e todo o tipo de gadgets, veio criar as condições necessárias para um aumento. “Aumentámos a nossa proximidade com a tentação”, disse Steel.

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Fugir à tentação

Apesar de Steel defender que a procrastinação é algo inerente ao ser humano, o autor sugere algumas formas de a evitar. Uma consiste em dividir as tarefas em pequenos trabalhos, realizando-os de forma metódica. Uma outra implica dar 50 euros a um amigo de confiança que, no caso de a tarefa não ser cumprida, os doará a alguma causa.

Mas para aqueles que estão determinados em vencer a procrastinação, existe toda uma nova indústria especializada ao seu dispor — livros, palestras e, mais recentemente, aplicações para tablets e smartphones.

Durante dois anos, o autor David Nicholls escreveu com a ajuda de uma aplicação chamada “Write or Die”, que apaga automaticamente todo o texto quando se demora muito tempo a escrever a próxima palavra. Nicholls descreveu a experiência como “escrever com uma arma apontada à cabeça”. Curiosamente, ao fim de dois anos de trabalho e 32 mil palavras, o escritor decidiu deitar o trabalho fora e começar de novo. Mas existem outras aplicações menos intimidantes como o “Yelling Mum”, que tenta captar a atenção do utilizado através de sons, como refere a BBC. Existem ainda outras que restringem o acesso à internet como o “Freedom”, ou que permitem restringir sites específicos.

 

Uma coisa de outros tempos

A procrastinação não é uma coisa dos tempos modernos. Na verdade, é tão antiga quanto a própria humanidade. “Existem hieróglifos egípcios sobre procrastinação”, refere Steel. Mas se em alguns casos a procrastinação deu frutos, em outros nem por isso.

O general romano Quinto Fábio Máximo era conhecido por “Cunctator”, literalmente “aquele que adia”, e era um alvo constante de insultos por falta de ação. Ao evitar defrontar-se em batalha com Aníbal, o cartaginês, Fábio Máximo acabou por mudar radicalmente o rumo da Segunda Guerra Púnica. O general ficou assim para a história como um procrastinador de sucesso. O dramaturgo Quinto Énio até escreveu sobre ele — “ao adiar, um homem restaurou o Estado”. E assim foi.

Leonardo da Vinci era também um mestre da procrastinação. Apesar da obra extensa, rica em esboços, não são muitos os quadros que terminou. A “Mona Lisa”, por exemplo, demorou 16 anos a ser completada e a “Última Ceia” apenas foi acabada porque o seu mecenas, Ludovizo Sforza, duque de Milão, ameaçou cortar-lhe os fundos. Conta-se que da Vinci terá ficado indignado quando um dos monges do mosteiro (o fresco de “A Última Ceia” foi pintado na parede do refeitório do mosteiro de Santa Maria em Milão) lhe disse que estava a demorar demasiado tempo. Em resposta, da Vinci explicou que estava a ter dificuldades em encontrar a cara certa para Judas e que, caso não descobrisse as feições certas, que usaria as do monge.

"Adoro prazos. Adoro o som sibilante que fazem enquanto passam."
Douglas Adam, autor de À Boleia pela Galáxia

Franz Kafka, apesar de se queixar da falta de tempo para escrever, parece ter tido um grave problema de gestão horária. O crítico literário alemão Walter Benjamin escreveu ao seu amigo e filósofo Gershom Scholem que a procrastinação lhe era instintiva “nas situações mais importantes” da vida.

Um dos mais conhecidos procrastinadores de todos os tempos não era escritor, pintor ou mesmo real. No século XVI, William Shakespeare criou uma das personagens mais icónicas de todos os tempos, mas também a mais procrastinadora. Hamlet, o príncipe órfão da Dinamarca, passa diversas cenas e inúmeros atos a tentar decidir se mata ou não o tio, se vinga ou não o pai. O dilema de Hamlet é o dilema do homem moderno e, neste caso, o dilema de qualquer procrastinador — deixar para amanhã o que era para fazer hoje.

Alguns famosos também se tornaram mestres em encontrar formas de afastar a “preguiça”. O escritor francês Victor Hugo, autor de Os Miseráveis, costumava despir todas as roupas e pedir ao seu mordomo que as escondesse para que não pudesse sair de casa. O orador ateniense Demóstenes tinha por hábito rapar apenas um lado da cabeça, obrigando-se assim a ficar em casa.

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