Tomé. “O João Rocha dobrava o prémio no pós-jogo”

14 Fevereiro 2018

É ele o primeiro português a marcar ao Liverpool, num 1-0 do Vitória em 1969, no Bonfim. A partir daí, um sem fim de histórias deliciosas com Di Stéfano, Yazalde, Eusébio, Mamede e Carlos Lopes.

Fernando Massano Tomé é uma peça. Aos 70 anos, o homem é uma enciclopédia ambulante. Sabe tudo da sua vida e a dos outros. Por outros, entenda-se os dois clubes mais marcantes da sua carreira. Pelo Vitória FC, ganha a Taça de Portugal 1967 mais o famoso torneio Teresa Herrera 1968. Pelo Sporting, faz a dobradinha em 1974 e ainda levanta mais duas Taças de Portugal. Na seleção, é internacional AA em duas ocasiões. Nas competições europeias, é ele o primeiro português a marcar ao Liverpool, adversário do Porto nesta quarta-feira à noite, no Dragão. Além disso, marca ao Bayern de Maier e é o único jogador do Vitória com hat-trick na UEFA, num 5-0 ao Lyon. Repetimo-nos para que ninguém se esqueça do inesquecível Fernando Massano Tomé. Ei-lo, ao vivo e a cores no restaurante Restinguinha, em Setúbal, cheio de camisolas de futebol penduradas nas paredes.

Tens camisolas destas lá em casa?
Algumas. Naquela altura, trocávamos pouco.

Trocaste com quem?
Olha, tenho uma do Vasas de Budapeste e outra da Suíça, a propósito da minha estreia na seleção em 1969. Tenho mais uma do West Bromwich, com quem jogámos num torneio de fim de época nos EUA. Mais tarde, já depois de ser jogador, tenho camisolas de Domingos e Edmilson, do Porto. E a do Figo do Sporting, com aquele patrocínio do Queijo Castelões.

Porquê?
O meu filho adorava o Figo. Então aproveitei a ida a Alvalade e pedi a camisola 7 ao roupeiro Manuel Fernandes, Uns dias depois, ele ligou-me para casa a dizer ‘Teté, o Luís já me entregou a 7’.

Teté?
Nem perguntes, eheheheheheh.

Grande luxo, o 7 do Figo.
A quem o dizes. Há aí gajos que a querem comprar e oferecem-me dinheiro.

A sério?
Não me quero meter nisso de novo, já fui enganado uma vez.

Quando?
Há uns anos, por um gajo da Irlanda.

Então?
Uma camisola do Eusébio.

Ai também tinhas essa e não me dizias nada?
Eheheheh. Troquei com o Eusébio na final da Taça de Portugal 1971-72. Ganhou o Benfica por 3-2, após prolongamento, e o Eusébio marcou os três golos. Não sei se já viste, mas há uma entrevista no final do jogo, ainda no relvado. É o Fialho Gouveia com o Eusébio e ele está vestido com uma camisola do Sporting. É a minha.

Xiiiiiii, espectáculo.
Já estava tudo combinado antes do jogo. Na minha primeira internacionalização, a tal com a Suíça em 1969, de qualificação para o Mundial-70, empatámos 1-1 e o nosso golo foi do Eusébio. Antes da viagem, o meu pai foi ao aeroporto e entregou-me uma mala com conservas para toda a gente, sobretudo o Eusébio, que era a estrela. Era um costume nosso, do Vitória, levar conversas para o estrangeiro. Porque gostávamos e porque nunca se sabia o que se encontrava para lá da fronteira. A partir desse dia, e sempre que nos encontrássemos, o Eusébio lembrava-se desse detalhe e falava-me do meu pai.

Falaste do Eusébio a propósito do gajo da Irlanda. Afinal, o que se passou?
O rapaz entrou em contacto comigo por e-mail a dizer que era um colecionador e gostava de alimentar, por assim dizer, um museu lá na Irlanda. Como sabia que eu tinha algumas camisolas, pediu-me a do Eusébio nessa final da Taça 1971-72, a última do Paulo Sousa no Benfica, antes da transferência para o Sporting, em 1993, arranjada pelo guarda-redes Silvino, e ainda uma do Jaime Graça, da final da Taça de Portugal 1970-71, na época em que o Benfica vestia Lacoste.

Lacoste?
É verdade, o Benfica vestiu Lacoste [Tomé saca do telemóvel, mostra a coleção e, lá está, o crocodilo na camisola do Benfica].

E então?
Ele ficou-me com as camisolas. Assim sem mais nem menos. Um dia, já chateado com a situação, apertei-lhe e disse que ia fazer uma queixa à polícia. Foi então que ele me deu mil-e-tal-euros pelas três camisolas. Lembrei-me agora, também tenho uma do Magdeburgo, a da ½ final da Taça das Taças 1974, com o Sporting.

Essa eliminatória é famosa. O que é que houve cá?
Muita coisa. O Dinis falhou um penálti, marcámos um autogolo e atirámos três bolas ao poste. Continuo a dizer, a eliminatória resolveu-se cá. Jogamos lá 15 dias depois e falhei o 2-2 a dois minutos do fim.

Como?
O Dinis faz uma grande jogada pela esquerda, vai à linha [Tomé começa a mexer nos talheres e desenha a jogada] e cruza para trás. Eu, já dentro da área, finjo que atiro para um lado e remato para o outro, só que a bola sai a centímetros do poste. Olha, tal e qual, o lance do Costinha nesta final da Taça da Liga, entre Sporting e Vitória: o Costinha tira o Rui Patrício da jogada e atira ao lado. Ainda havia 1-0, lembras-te?

Ya.
O meu lance em Magdeburgo foi assim.

Como é que te sentiste?
Porraaaaa, nem me fales. Já no campo, senti que era a última oportunidade. E depois no balneário o mundo parece que nos cai aos pés. Pelo prestígio. Imagina lá jogar-nos uma final europeia? Ainda por cima, com o Milan [por acaso, ou não, ganha o Magdeburgo por 2-0] Depois, havia o dinheiro. O prémio era de 50 contos para aquele jogo e a presença na final dava 100 contos a cada jogador do Sporting.

E ir à RDA nessa altura?
Difícil, complicada à brava. Havia uma série de fronteiras, 26 ou 27. Pois bem, o motorista do nosso autocarro conseguiu entrar por uma fronteira que não estava aberta ao público.

Hã?
Ficámos horas e horas à espera da autorização para passar. No nosso autocarro, estavam o Alves dos Santos, da RTP, e o Aurélio Márcio, d’A Bola. Aliás, esse jogo deu em direto na RTP.

E não houve outra tourada no regresso?
Chegámos a Frankfurt e não havia voos para Portugal. Naturalmente, era o 25 Abril e o país estava fechado. Fomos para Madrid e daí para Badajoz, de autocarro. Chegámos lá e ficámos novamente parados na fronteira. Dormimos uma noite em Badajoz e só entrámos em Portugal no dia seguinte. E foi porque o João Rocha conseguiu falar com o General Spínola. Ainda me lembro de o ver a ser encaminhado para um gabinete, rodeado de gajos com G3. Eheheh.

Chegaram cá a Portugal e depois?
Ganhámos a Taça de Portugal, 2-1 ao Benfica, após prolongamento. Nessa época, o Sporting faz a dobradinha. Só faltou a Taça das Taças e volto a dizer: tínhamos equipa para o Magdeburgo, só que tivemos muito azar no jogo da primeira mão, em Alvalade.

Antes de Magdeburgo, já tinhas ido à RFA, certo?
Bayern 6 Vitória 2 para a Taça das Taças 1967-68. Jogámos no Olímpico de Munique, que era grande que se fartava. Havia um colega nosso, o Carriço, que costumava dizer na brincadeira ‘amanhã é que se vai dar a goleada histórica’. Olha, foi ali que ele acertou: seis-dois. Marcámos primeiro, pelo Pedras. Ele fizeram 1-1, 2-1, 3-1, 4-1, 5-1. E eu fiz o 5-2 ao enorme Maier. Depois, penálti e hat-trick do Müller. Além de Maier e Müller, ainda havia o Beckenbauer.

Isso é primeira ou segunda mão?
Primeira, a segunda é em Alvalade, 1-1.

Alvalade?
O Vitória inaugurou o Bonfim em 1962 e ainda não tinha electricidade.

E Alvalade encheu?
Assim-assim. O jogo com pior assistência foi na Luz, um Vitória 0 Juventus 2 para a Taça das Cidades com Feira 1966-67. Choveu tanto tanto tanto mas tanto que só se viam os porteiros e os polícias.

Como é que foi em Turim?
Estava 1-0 para nós a 15 minutos, acabou 3-1 para eles.

Já aí a Juventus era assim, chi-ça.
O Carlos Pinhão tinha a crónica toda feita a enaltecer o Vital e rasgou as folhas todas.

Porquê?
O Vital meteu os pés pelas mãos ou lá o que foi. Sei que andaram desavindos durante um tempo e o Vital queria encontrar-se com o Pinhão, eheheheheh.

E o que lhe fazia?
Ah, aquilo era só falar, as zangas eram sempre um 31 de boca. Nunca passava disso.

Bayern 6 Vitória 2 para a Taça das Taças 1967-68. Jogámos no Olímpico de Munique, que era grande que se fartava. Havia um colega nosso, o Carriço, que costumava dizer na brincadeira 'amanhã é que se vai dar a goleada histórica'. Olha, foi ali que ele acertou: seis-dois. Marcámos primeiro, pelo Pedras. Ele fizeram 1-1, 2-1, 3-1, 4-1, 5-1. E eu fiz o 5-2 ao enorme Maier. Depois, penálti e hat-trick do Müller. Além de Maier e Müller, ainda havia o Beckenbauer.

Essa Juventus é de quem?
Del Sol, um argentino-espanhol. Chinesinho, um brasileiro. E o treinador era o Helenio Herrera, um craque.

Craque és tu: marcas ao Bayern, marcas hat-trick ao Lyon.
Eheheheh, essa do Lyon ainda me custou um pouco.

Porquê?
Já tinha marcado três golos e há um penálti para nós. Fui pedir ao treinador para o bater e ele negou-me.

Quê?
Escolheu o Petita. Só mais tarde é que entendi o seu lado, mas doeu. Ia marcar quatro golos num jogo europeu, era história.

Mesmo três já foi, não? És o único do Vitória com hat-trick na UEFA.
Bem sei, mas quatro era melhor.

Porquê o Petita?
Ele era um avançado que estava sem golo e, nesse jogo, até foi suplente. Quando apitaram o penálti, o treinador Fernando Vaz viu ali a oportunidade para dar moral ao Petita.

O que significava marcar três golos na UEFA?
Uma reprimenda do meu pai.

Repito-me: quê?
Ganhámos ao Lyon, fui jantar a casa com a minha família e depois tinha de voltar ao estágio para o próximo jogo.

Isso era assim?
Estágio, jogo, estágio, jogo. Estava a jantar com os meus pais e o meu irmão mais novo. Havia algum entusiasmo na mesa e o meu pai cortou-me logo as vasas a dizer que eu não tinha feito nada de especial.

Espera aí, vou repetir-me outra vez: quê?
Ainda hoje falo disso com o meu irmão. Só me apetecia sair da mesa, mas a verdade é que o meu pai só queria que eu não ficasse cabeça no ar pelos três golos.

E?
Fiquei.

Craque. Marcas ao Bayern, marcas hat-trick ao Lyon e marcas ao Liverpool.
Aqui no Bonfim, ganhámos 1-0 para a Taça das Cidades com Feira 1969-70.

O Carlos Cardoso foi ao ataque e atirou de longe, à trave. Na recarga, de primeira, marquei. Uns anos depois, tive uma história engraçada. A rapaziada do Vitória cortava o cabelo no Hotel Esperança e o dono, o João, estava a falar desse jogo. Às tantas, comigo sentado na cadeira, diz que esse golo foi do Cardoso. Eu interrompi e disse-lhe '1-0 golo do Tomé'. Ele respondeu logo 'isso é que era bom, aposto já uma grade de cervejas'.

Foste o primeiro português a marcar ao Liverpool.
Eheheheheh.

Ainda te lembras?
Como diz o outro, a gente não esquece as coisas boas do futebol. O Carlos Cardoso foi ao ataque e atirou de longe, à trave. Na recarga, de primeira, marquei. Uns anos depois, tive uma história engraçada. A rapaziada do Vitória cortava o cabelo no Hotel Esperança e o dono, o João, estava a falar desse jogo. Às tantas, comigo sentado na cadeira, diz que esse golo foi do Cardoso. Eu interrompi e disse-lhe ‘1-0 golo do Tomé’. Ele respondeu logo ‘isso é que era bom, aposto já uma grade de cervejas’.

E tu?
Nada, fiquei tranquilo. Ia lá apostar com ele. Para quê? Quando lhe descrevi a jogada, esse João desculpou-se assim ‘comecei a gritar golo no remate do Cardoso’. Eheheheh, é só artistas.

E o Vitória passou o Liverpool?
Passou, pois. Em Anfield, na 2.ª mão, estivemos a ganhar 2-0 e eu fiz a jogada do segundo golo, com o Arcanjo. Dei-lhe a bola e ele continuou a jogada a gritar-me ‘vai, vai, vai’. Passou-me a bola e fiz um chapéu ao guarda-redes. A bola já tinha entrado quando o Strong na bola, só que o árbitro e a UEFA continuam a dar o golo na própria baliza.

E os adeptos?
Caladinhos. Em cima dos 90 minutos, estávamos a ganhar 2-1. Nos descontos, eles deram a volta e acabou 3-2. Passámos nós pela regra dos golos fora. Nessa noite, o Vital tinha um monte de moedas pequenas que não valiam nada no canto da sua baliza. Ele, coitado, apanhou com tanta moeda. Foi juntando, juntando, juntando e já dizia que era comprar um presente para o filho.

E conseguiu juntar?
Quando acabou o jogo, nem se preocupou com as moedas. Foi a correr para o balneário. O pessoal do Liverpool estava assim prò zangado.

Pois, o Vitória passou.
Fomos a única equipa portuguesa a eliminar uma inglesa nessa eliminatória, porque o Arsenal afastou o Sporting, o Newcastle afastou o Porto e o Southampton afastou o Vitória de Guimarães.

Jogávamos muito à bola. No fim-de-semana anterior, 5-0 ao Porto no Bonfim. Duas semanas depois, 1-0 ao Benfica no Bonfim. O mister era o Pedroto, que, antes do jogo em Liverpool, disse-nos 'vamos fazer uma peladinha a dois toques'. Era código para roubar-lhes a bola e partir para o ataque pelo chão. Sempre pelo chão, nunca pelo ar. Aí, eles eram especialistas, embora tivéssemos bons centrais

E como é que eliminou o Liverpool?
Jogávamos muito à bola. No fim-de-semana anterior, 5-0 ao Porto no Bonfim. Duas semanas depois, 1-0 ao Benfica no Bonfim. O mister era o Pedroto, que, antes do jogo em Liverpool, disse-nos ‘vamos fazer uma peladinha a dois toques’.

Isso era código?
Eheheheh, era, era. Tínhamos de roubar-lhes a bola e partir para o ataque pelo chão. Sempre pelo chão, nunca pelo ar. Aí, eles eram especialistas. Se bem que tínhamos bons centrais.

Quem eram?
Cardoso e Alfredo. Também havia o Herculano. Costumo dizer que sou do Liverpool em Inglaterra, da Juventus em Itália, do Bayern na Alemanha e do Vasco da Gama no Brasil.

Não me digas que marcaste ao Vasco?
Por acaso, marquei num 1-1 no São Januário, pelo Sporting.

Ainda bem que fala disso, como é que o Tomé sai do Vitória para o Sporting?
O primeiro a contactar-me foi o Benfica, embora o Vitória estivesse de relações cortadas com o Benfica por causa de um negócio com o José Maria.

Contactou-te como?
No final de um jogo para o campeonato, no Jamor.

Jamor?
O Benfica foi suspenso por oito jogos à conta de uma invasão de campo com o Belenenses, um deles foi o Vitória. Eu até marquei o 1-0 e o Benfica ganhou 3-1. No fim do jogo, ainda no relvado, o massagista do Benfica chegou-se ao pé de mim com um papelinho e disse ‘amanhã, liga para este número de telefone’. E liguei. No outro lado da linha, estava o Francisco Calado. Marcámos um encontro ali em Santana, perto de Sesimbra, por cima de uma farmácia. E eu fui com instruções rígidas do meu pai: ‘não assinas nada, limitas-te a ouvir’.

Tu foste e quê?
Deram-me um papel em que dizia assim ‘eu, Fernando Massano Tomé, declaro que se sair do Vitória só quero representar o Sport Lisboa e Benfica’.

Ganhavas quanto nessa altura?
Dois contos e 500.

Ofereceram-te quanto?
Nada, não falámos de verbas. Só queriam que assinasse aquele compromisso por escrito.

E quando é que entra o Sporting nessa história?
O major Lobo da Costa lá conseguiu arranjar o telefone da mercearia do meu pai. Ligaram para lá e falaram com o meu pai a marcar uma hora comigo, eheheheh. Embora o meu pai não acreditasse naquilo do Sporting, informou-me e lá estava à espera da chamada. O telefone tocou, eu atendi e perguntaram-me se sabia onde era a Praça Luís de Camões.

E tu?
Não sabia onde era, mas perguntava e ia lá dar. O encontro ficou marcado para os escritórios da Censura, um pouco acima do Camões.

Censura?
Era onde trabalhava o major. Fui lá ter e contaram-me do interesse do Sporting. Falei-lhe do Benfica e a decisão ficou para o Vitória.

E?
O Vitória acertou com o Sporting.

E tu?
Nós, do Vitória, fomos estagiar para a Venezuela e só quando voltámos é que me disseram do Sporting. Reuni-me então com o diretor do futebol Abraão Sorín, o presidente Brás de Medeiros e o treinador Fernando Vaz, ali numa casa na Avenida da República. Quando me falaram do ordenado, disse-me que ia abandonar a reunião.

Então?
Ofereceram-me o dobro do Vitória, cinco contos. Disse que, assim, não ia. E o Fernando Vaz acalmou toda a gente. Diz assim o Abraão Sorín ‘então e se oferecermos o contrato do jogador mais bem pago do plantel?’

Quem era?
O Peres, extremo-esquerdo.

Ganhava quanto?
Doze contos e 500.

Agora sim.
Está bem. Só que enganaram-me, porque o Peres tinha um contrato a dizer que ganhava 12 contos e meio e tinha um contrato paralelo a dizer que ganhava muito mais.

Imagino a tua cara.
Bem lixado fiquei. O segundo contrato foi melhor. E o terceiro já foi igual ao segundo e foi aí que resolvi voltar ao Vitória.

Nós, no Sporting, ganhávamos mais em prémios de jogo do que em ordenados. Nisso, o João Rocha era um mestre. Chegava ao pé de nós e perguntava-nos quanto era o prémio. Nós dizíamos cinco contos e ele acrescentava mais cinco. Se fosse dez, era dobrava à mesma. E fazia isso depois dos jogos. Há gente que não acredita, mas é verdade que o João Rocha aumentava o prémio depois do jogo. Também o fazia antes, atenção. Às vezes, era assim: 'o prémio é de cinco? Então subo para 15'.

Eischhhh.
Nós, no Sporting, ganhávamos mais em prémios de jogo do que em ordenados. Nisso, o João Rocha era um mestre. Chegava ao pé de nós e perguntava-nos quanto era o prémio. Nós dizíamos cinco contos e ele acrescentava mais cinco. Se fosse dez, era dobrava à mesma.

Antes dos jogos?
Depooooois. Há gente que não acredita, mas é verdade que o João Rocha aumentava o prémio depois do jogo. Também o fazia antes, atenção. Às vezes, era assim: ‘o prémio é de cinco? Então subo para 15’.

O João Rocha tinha dinheiro?
Então, ele era dono do Banco do Algarve. Nesse aspeto, nunca tivemos problemas de dinheiro com ele à frente do Sporting.

E o que se passou entre ele o Di Stéfano?
Eles não se davam bem. Houve um dia, durante o estágio no Brasil, em que o João Rocha sentou-se ao lado do Di Stéfano e ele saiu da mesa. Beeeem, estás a ver? A verdade é que o Di Stéfano nem ficou aqui para a primeira jornada do campeonato, quando perdemos 1-0 em Faro com a Olhanense. Nesse dia, foi o adjunto Osvaldo Silva quem assumiu a equipa.

E o Di Stéfano, que tal?
Ele percebia de futebol, só que estava acostumado ao futebol espanhol.

Isso quer dizer o quê?
Por exemplo, ele só queria guarda-redes que fossem bisarmas. Chegou aqui e apanhou dois fininhos: Damas e Botelho.

Bolas, o Damas?
E o Damas já era da seleção, só que o Di Stéfano até disse ao João Rocha que precisava de um bom “portero”. E ainda um bom defesa-esquerdo, quando tínhamos o Inácio e o Da Costa.

E o João Rocha?
Disse-lhe que não, claro. E até sugeriu, em tom de brincadeira, que metesse o Chico Faria à esquerda.

E depois?
O Di Stéfano saiu e assumiu o adjunto Osvaldo Silva. Depois veio o Fernando Riera, chileno. Tinha o hábito de beber um Dão aquecido antes dos jogos.

E o Yazalde, como estava no meio de tudo isso com o Di Stéfano?
O Chirola era um caso à parte, porque sempre defendeu o grupo. É verdade que ele era amigo do Di Stéfano, só que primeiro estava o Sporting. Assim foi.

E o Yazalde?
Impecável, que figura. Quando ganhou a Bota de Ouro, para o melhor marcador europeu, ele ganhou um Toyota e sorteámos o carro. Sabes o que aconteceu?

Nem ideia.
Saiu à casa, eheheheheh. Vendemos rifas e tudo, só que a rifa vencedora estava connosco e acabámos por vender o Toyota ao Fernando Mamede. Ainda assim, sobrou dinheiro para dividirmos por todos uns três contos.

Outubro 1972, com o Leixões. Estava lá a jogar. O árbitro era o Carlos Lopes, de Coimbra. Isto foi assim: ele apita penálti contra nós no início e o Damas defende. Manda repetir e, à segunda, o Leixões marca. A bola vai ao centro, nós vamos à área do Leixões e é canto. Ele assinala pontapé de baliza. Invasão de campo. Eheheheheh. E eu, dentro do campo, olho para atrás da baliza sul e vejo os gajos a passar pela pista de ciclismo. E digo ao árbitro que vai haver invasão de campo. 'Ai vai?', pergunta ele, e puxa-me do cartão amarelo.

Maravilha. Falaste numa invasão de campo do Benfica. E aquela em Alvalade?
Outubro 1972, com o Leixões. Estava lá a jogar. O árbitro era o Carlos Lopes, de Coimbra. Isto foi assim: ele apita penálti contra nós no início e o Damas defende. Manda repetir e, à segunda, o Leixões marca. A bola vai ao centro, nós vamos à área do Leixões e é canto. Ele assinala pontapé de baliza. Invasão de campo. Eheheheheh.

C’um caraças.
E eu, dentro do campo, olho para atrás da baliza sul e vejo os gajos a passar pela pista de ciclismo. E digo ao árbitro que vai haver invasão de campo.

E ele?
‘Ai vai?’ e puxa-me do cartão amarelo. Toma, levei um cartão por dizer uma verdade. Ele já nem quase conseguiu meter o cartão no bolso, porque a multidão aproximou-se e foi um berbicacho de todo o tamanho.

Porquê essa atitude do árbitro?
Estava bêbado. Rui, se o Manuel Marques [célebre massagista do Sporting] fosse vivo, era isso que ele dizia. Então, o Manuel Marques queria levá-lo ao hospital e o árbitro recusou terminantemente: ‘para o hospital é que não vou’. Tinha medo de fazer o teste e acusar, não é? Levámos oito jogos de castigo, fomos para o Jamor.

E o árbitro?
Tanto quanto sei, nunca mais apitou na 1.ª divisão [verdade, Carlos Lopes sobe à primeira categoria em 1971-72 e retira-se ingloriamente nessa tarde de 8 Outubro 1972].

Que cambalacho. Só mais um: os penáltis com o Rangers. Onde estavas?
Lá dentro. Marquei o primeiro golo da noite e fui substituído no prolongamento. Fui tomar banho e voltei para o banco de suplentes.

Então?
Era assim naquela altura. Não podíamos ficar no relvado, tínhamos de ir para o balneário.

Muito bem, Adiante.
Quando acabou o prolongamento, o árbitro, que desconhecia as novas regras, indicou penáltis. Eu disse logo ao treinador Fernando Vaz que não havia razão para penáltis, porque tinha lido nos jornais qualquer coisa sobre o assunto. Tipo se acabar empatado assim e tal. Transmiti isso ao Vaz e ele ia-me matando: ‘ai sabes mais que o árbitro?’. O problema é que o tipo da UEFA não conseguiu descer ao relvado para impedir os penáltis ordenados pelo árbitro.

Porquê?
A malta adepta do Sporting saiu do estádio, depois voltou a entrar e isso provocou uma grande agitação nas bancadas. Ele demorou imenso tempo a chegar ao túnel. Quando lá chegou, disse Sporting eliminado e o Sporting tinha acabado de ganhar os penáltis.

E o Damas?
Estava eufórico. Depois é que foram elas, eheheheheh. Depois, ele foi a cara de um reclame de um creme de barbear da Palmolive.

E os escoceses?
Digo-te, eles marcavam os penáltis e riam-se. Sabiam da inutilidade daquilo. Seguiram em frente e acabaram por ganhar essa edição da Taça das Taças.

Só histórias.
A melhor de todas está por contar.

Conta aí.
Torneio de Páscoa 1971, em Paris, entre Sporting e Benfica. Ganhámos 3-1 e faço o primeiro golo. Na baliza, o Zé Henrique. No hotel, antes do jogo, aparece-nos uma família de sete pessoas.

Sete?
Um casal com cinco filhos, tudo em escadinha. Equipados à Sporting. Como a malta achou graça, demos-lhe tudo entre autógrafos, fotografias e oferta de adereços vários. Quando vamos a caminho do estádio, ainda no autocarro, alguém os vê. Vestidos à Benfica.

Nãããããã.
Estou a dizer-te. Alguém olhou pela janela e viu os sete. Quer dizer, era um família especial. Impossível confundir por outra. Sabes a melhor? No fim do jogo, eles estavam encostados ao nosso autocarro. Vestidos à Sporting. Ninguém lhes passou cartão, eheheheheheh.

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