Jornalismo

Longe da vista, longe do coração

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Com tanta dispersão, perdeu-se de vista os milhares a morrer no Mediterrâneo ou a lutar em Caracas. Eis o jornalismo a esquecer a sua missão: formar opinião pública na defesa dos valores democráticos.

Houve uma altura em que se contavam diariamente os refugiados que, consoante a sorte, as águas do Mediterrâneo engoliam ou salvavam. Era a história dos nossos tempos: centenas de milhar de homens, mulheres e crianças a arriscar a vida para fugir da morte certa. Em Setembro de 2015, quando o corpo do menino Aylan deu à costa, a Europa assinou o compromisso de resolver o problema pela raiz. E, de certo modo, assim fez: hoje, a situação dos refugiados não chega à primeira página dos jornais nem abre os noticiários televisivos. Porque deixou de haver quem arriscasse a vida para alcançar a costa europeia? Não. O número diminuiu, face a 2016, mas só entre Janeiro e Maio foram mais de 50 mil e, nos últimos 15 dias, estima-se que mais de 6 mil tenham tentado a sorte (sendo certo que pelo menos 250 não chegaram ao destino). O ponto é que, não sendo novidade, há muito menos gente a escrever sobre o assunto e a atribuir-lhe destaque. Veja-se, a título de exemplo, o escândalo recentemente exposto pelo jornal italiano L’Espresso, que revelou como as autoridades italianas (em 2013) negaram auxílio a mais de 400 sírios à deriva (morreram 268 pessoas, entre as quais 60 crianças) – nenhum jornal português levou o assunto à primeira página.

Há outros assuntos a progressivamente cair na indiferença. Veja-se o caso da situação política na Venezuela, onde as manifestações populares persistem desde Março. A paisagem é de confrontos nas ruas, de desespero de famílias que lutam para comer, de corpos queimados na via pública. Há uma economia arrasada e um regime em queda, há crianças com fome, há escassez de medicamentos, há monopólio dos média pelo governo, há uma comunidade portuguesa assustada e desorientada. Contam-se, pelo menos, quatro dezenas de mortos, sendo a repressão do regime cada vez mais violenta. E, no entanto, encontram-se cada vez menos notícias em Portugal acerca do que se passa em Caracas. Uma jovem luso-venezuelana que vive em Lisboa, a quem chegam relatos de atrocidades na primeira pessoa, perguntava-me no outro dia: por que razão em Portugal se fala tão pouco disto? A resposta possível é esta: o prolongar do impasse político na Venezuela desgastou a cobertura noticiosa e tirou os protestos das manchetes, o relativismo político atenuou a percepção dos efeitos da tirania de Nicolás Maduro, os jogos diplomáticos obstruem a condenação do regime venezuelano pelas autoridades portuguesas. Mas esta é, também, uma resposta moralmente inaceitável.

Ou seja, com tanta dispersão mediática nas últimas semanas, perdeu-se de vista os milhares a morrer no Mediterrâneo ou os milhões a lutar pela liberdade em Caracas. Os exemplos poderiam continuar – Ucrânia e Síria, entre outros – e o ponto seria sempre o mesmo: com o passar do tempo, os assuntos gastam-se, as notícias diminuem em quantidade e destaque, e a atenção social reduzem-se a mínimos, até uma espécie de dormência. Não é conspiração dos políticos, não é amoralidade dos cidadãos. Mas é, diga-se, o jornalismo a esquecer-se da sua missão: formar a opinião pública, promover a cultura democrática, servir de referência na identificação dos problemas e das questões fundamentais para uma comunidade.

Perante a avalanche diária de notícias, é função dos jornais focar a atenção no primordial, oferecer ao leitor aquilo que, popular ou não, é mais importante. É essa uma das (várias) diferenças fundamentais entre as redes sociais e os jornais. As primeiras são cacofónicas e trocam o essencial pelo supérfluo entre dois likes. Os segundos prestam serviço público e têm a responsabilidade democrática de escrutínio do poder político e de defesa dos valores (liberdade, vida e dignidade humana, igualdade) que definem a comunidade. No fundo, devem orientar o debate público para que os cidadãos se interessem pelo que realmente importa.

Ora, quando uma tragédia humanitária é encostada ao segundo plano noticioso, isso traduz um problema: há menos quem, nas direcções de jornais, assuma essa responsabilidade de liderança e de formação de opinião pública. Seja por que motivo for (falta de recursos, dependência financeira, opção editorial). Nestes tempos de populismo, a perseverança na defesa dos valores democráticos e a sua inclusão na agenda mediática tornou-se um combate crítico. Um combate que compete ao jornalismo de referência. E que este não está a vencer.

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