Logo Observador
Crónica

O alto preço da independência de uma mulher

Autor
62.183

O preço de ser uma mulher independente é o de ter que viver parcialmente anestesiada, para aguentar o bombardeio diário acerca de cada uma das decisões que tomou na sua vida.

O preço da independência de uma mulher varia conforme o local e o ano de nascimento. Mas uma coisa eu garanto: nunca é pequeno o valor que uma mulher paga para ser dona da própria vida. A maioria dos homens nunca vai entender isso. Algumas mulheres distraídas também não. Mas quem sente isso na pele, vai. Ah, se vai.

Homens não entendem porque simplesmente não convivem com essa ameaça. Eles sabem que, a partir do momento em que saírem da casa dos pais, são donos da própria vida. Eles não sentem que devam algo a alguém a partir disso.

Já as mulheres não. E não estou falando apenas do velho clichê de sentir-se dependente de um eventual marido. Estou falando de muitas outras coisas. Do poder que toda a família segue exercendo sobre a vida de uma mulher adulta; dos olhares e frases atravessadas que seguimos recebendo de fiscais não autorizados a policiar nossas vidas, mas que mesmo assim o fazem: colegas, conhecidos, parentes distantes, pessoas que nunca vimos antes. É como se a vida do homem fosse vida privada e a vida da mulher fosse vida pública.

Tudo começou com as mulheres que decidiram não se casar. O preço? Um eterno rótulo de falhada, independentemente do fato de ser uma opção. Olhares de frustração vindos de todos os familiares. A sensação de ser diariamente questionada se ela não era boa o bastante. Era assim em 1940 e segue sendo muito semelhante. Homem que não casa é bon vivant, mulher que não casa é perdedora.

Depois vieram as que não tiveram filhos. Estas pagam seu preço diariamente respondendo perguntas indiscretas, questionando se foi uma estranha decisão ou uma lamentável limitação física. E se disserem que foi por opção, o cheque dobra de valor. Você vai ficar sozinha, seu marido vai se arrepender, você não sabe o que está fazendo, filhos são o verdadeiro sentido da vida. Homem que não tem filho é porque a vida não quis, mulher que não tem filho é porque é egoísta.

Na sequência, estão as que dedicam-se com afinco à própria carreira. Este preço disparou ultimamente. Centenas de dedos são apontados para o seu rosto: ambiciosa, workaholic, gananciosa. Quem cuida dos filhos dela? Quem cuida do casamento dela? Onde ela pensa que vai chegar com tudo isso? Homem bem sucedido é homem de sucesso, mulher bem sucedida é mulher que sacrifica a família.

Já as mulheres que ganham muito dinheiro, são cobradas muito além dos seus tributos. Ouvem com frequência: você vai afastar os homens desse jeito; é melhor disfarçar para não parecer arrogante; por que você não se contenta com uma vida normal? Homem que ganha muito é porque merece, mulher que ganha muito é porque deu sorte.

As divorciadas, embora muito frequentes, seguem pagando um preço salgado que não muda desde a década de 60. O sentimento de decepção por parte dos parentes mais velhos. A descrença dos pais de que tudo possa acabar bem. Os “amigos” dizendo que ela vai se arrepender, que ela nunca mais vai encontrar alguém tão legal quanto ele. Homem divorciado é homem corajoso, mulher divorciada é mulher sem juízo.

As mulheres que viajam sozinhas se arriscam. As que fazem qualquer projeto que não envolva os filhos são péssimas mães. As que têm um relacionamento sério mas optam por não casar estão sendo enroladas. As que nunca param de estudar estão atrasando a vida da família. As que ganham o mundo, perdem a própria vida pessoal. As acusações nunca terminam.

O preço de ser uma mulher independente é o de ter que viver parcialmente anestesiada, para aguentar o bombardeio diário acerca de cada uma das decisões que tomou na sua vida. É ter que habituar-se aos olhares, às sobrancelhas arqueadas, às frases feitas e aos conselhos inúteis, ainda que muito bem intencionados. É preciso estar disposta todo santo dia. É preciso querer muito e conformar-se com o fato de ter que pagar valores altos para ter o simples direito de seguir com a própria vida.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
Crónica

Os taxistas de Lisboa

Ruth Manus
1.131

Os portugueses costumam ser amáveis e receber bem as pessoas, mas não dentro dos táxis. É um mundo sem regras de boa educação, de segurança, de asseio e de boa prestação de serviços.

Crónica

O machismo carinhoso

Ruth Manus
4.177

Muitas vezes o machismo aparece de uma forma sutil- quase carinhosa- que pode não soar diretamente como agressão, mas que nos agride, nos fere e nos ameaça da mesma forma.

Crónica

Pai: presente, distante, ausente, inexistente

Ruth Manus
5.763

O pai distante não precisa ser um pai ausente. Há inúmeros pais que se fazem presentes onde quer que nós estejamos. Há inúmeros pais que, mesmo quando morrem não deixam seus filhos sozinhos. 

Crónica

Ocasiões de choradeira

Miguel Tamen

O maior serviço que a televisão presta é pelo contrário o de proporcionar a quem nela aparece a falar ocasiões de choradeira: dar azo ao apreço que quem fala sente por si próprio.

Crónica

O cidadão às compras

Miguel Tamen

A Loja do Cidadão parece sugerir que a nossa relação com o estado pode ser descrita como uma relação de comércio. Mas isso é dar-lhe um aspecto de primeira necessidade que talvez seja exagerado.

Crónica

Uma Carta para o Guardian/Observer sobre Lisboa

Lucy Pepper
616

O Guardian atribui a corrente renovação de Lisboa a António Costa. Quem é que em Portugal fazia ideia de que o actual primeiro ministro era o único responsável por este milagre económico? 

Crónica

Os taxistas de Lisboa

Ruth Manus
1.131

Os portugueses costumam ser amáveis e receber bem as pessoas, mas não dentro dos táxis. É um mundo sem regras de boa educação, de segurança, de asseio e de boa prestação de serviços.

Crónica

A complexidade deste mundo

Miguel Tamen

A complexidade das sociedades é uma ideia que as pessoas costumam ter sobre as sociedades em que vivem. Inversamente, a simplicidade é uma característica atribuída a sociedades em que não vivem.

Crónica

A filosofia pelo fado (III)

Miguel Tamen

Os fadistas, quando cantam, falam de si próprios? Mas os melhores fadistas são aqueles que sabem que cantar o fado não é falar, nem dar recados, e que a letra do fado pouco pode esclarecer. 

Catolicismo

Fátima (1): Aparições ou visões?

P. Gonçalo Portocarrero de Almada

Na Cova da Iria os pastorinhos tiveram visões e não aparições, mas o valor não é menor porque, como notou Bento XVI, visões têm uma força de presença tal que equivalem à manifestação externa sensível.