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Que pena ser a alma tão pequena

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Contemplo os jovens estudantes e sinto crescer em mim um sentimento que de início não entendo, não consigo explicar, é um aperto leve mas contínuo, um esgar de contrariedade, uma incomodidade.

1. Foi há uns 12 anos, o miúdo teria uns 18 e já era um calmeirão. O António e a Maria, orgulhosos pelo facto do filho ter entrado à primeira na Universidade da sua escolha, faziam contas à vida e antecipavam o dia em que ele lhes anunciaria o primeiro emprego, o casamento, as promoções, a vida feita. Terminada a licenciatura e o mestrado, o filho do António e da Maria aceitou um convite para estagiar numa empresa da região. Recebia subsídio de refeição e uma pequena verba para os transportes; os pais continuaram a dar-lhe mesada, para além, claro, do alojamento e alimentação. Findo o estágio de 6 meses, a expectativa de contrato no final não passou disso mesmo – expectativa – e o filho do António e da Maria conheceu o primeiro período de inactividade. Com a crise e o grande número de formados em gestão, só recebia ofertas de estágios semelhantes ao anterior, o que não lhe interessava. Os pais culpavam o sistema, o governo, “eles”, continuando a pagar a mesada e as despesas da casa. Ao fim de algum tempo, o filho do António e da Maria arranjou um emprego numa grande multinacional: ordenado mínimo e subsídio de refeição. Encantados, os pais suprimiram os apoios e apoiaram financeiramente o arrendamento de um T0 nos arrabaldes. Quando o contrato acabou depois do ano contratualizado, o filho do António ficou de novo desempregado. Foi há 5 anos e desde então, entre biscates, estágios vários, vagas promessas profissionais, não voltou a arranjar contrato com nome de emprego, salário compatível e vista para o futuro. O miúdo tem agora 30 anos, vive em casa dos pais com direito a mesada e, embora continue um calmeirão, os pais notam-lhe os ombros curvados e um olhar de desistente.

2. Em vez do filho do António, podia falar-vos da Isabel. Trabalha desde miúda, não completou o ensino obrigatório, começou cedo a servir à mesa, depois limpou casas alheias, sempre a viver no limiar da pobreza em nome da fuga à interioridade, do acesso à civilização litoral, das longas costas marítimas, gentes e cosmopolitismo. Deixou na aldeia os pais já velhos, gerada que foi numa serôdia natalidade. Chegou cheia de ilusão à cidade, em busca da realização. Não a encontrou. Os pais aguardam-na na terra longe, continuam a semear a leira familiar com pouco mais de 1 hectare, e esperam vê-la regressar um dia a cavalo num automóvel brilhante, pela mão de um homem louro que os tratará com a consideração que a vida lhes negou; a mãe sonha com o beijo do genro, na mão, como nas séries que passam na televisão de 4 canais em sinal aberto. Sonham com netos de cabelos dourados e olhos azuis. Sonham. Na cidade à beira mar, Isabel faz 3 casas por dia e envia aos pais 100 euros por mês, pouco mais sobrando; ainda não desistiu de esperar, um dia o seu cavaleiro andante virá num automóvel brilhante e moderno e largarão livres pelo país. Sonha. No meio dos sonhos, um pesadelo: está de regresso à leira paterna, entra no quarto onde os pais repousam, enterra-os e enterra-se, semeia a terra e espera, já não o homem louro que não virá, nem o cavalo motorizado, não virá ninguém, só lhe resta esperar. Godot talvez venha.

3. Olho os meus jovens estudantes numa pausa da aula. 20 anos, que coisa, 20 anos (ninguém tem 20 anos, penso). Depois olho-os outra vez, do mais brilhante – a quem acabei de dar 19 valores, coisa rara na faculdade – aos fracos das últimas filas, difíceis de controlar na sua tendência para conversar, consultar telemóveis ou, simplesmente, dormitar. Contemplo os jovens estudantes e sinto crescer em mim um sentimento que de início não entendo, não consigo explicar, é um aperto leve mas contínuo, um esgar de contrariedade, uma incomodidade inominada. Olho-os um a um enquanto falam à espera que eu retome a lição, já perplexos alguns, pelo ar estranho com que os fixo, um a um, fila a fila, medindo-os, avaliando-os, lamentando. E percebo ser de comiseração o sentimento que sinto, um sentimento de pena ao ver aqueles jovens, 20 anos de esperança, a sonhar com um futuro onde cabem empregos, realização pessoal e profissional, com rendimentos que os levem a viver tão bem ou melhor do que os pais viveram, como os pais em relação aos avós; olho-os com pena porque sei o que eles não sabem, ou sabendo-o rejeitam-no com o vigor da juventude que são, 20 anos, aos 20 não há impossíveis, mas eu sei que há, e tenho pena, não devia, faz-me pena ter pena. Detesto ter pena. E então revolto-me, sinto outro sentimento, de estima, de revolta, a minha pena é agora revolta e estima, estima por aqueles jovens tão jovens, têm 20, em breve 30, provavelmente o meu aluno de 19 valores viverá longe, noutro país, remunerado, feliz, alguns dos outros não, sobreviverão de estágios, empregos breves e mal pagos; sinto estima e revolta contra um sistema que condena a inteligência jovem do país a partir, ou manter-se num regime de precaridade insuportável. Da minha pena fez-se revolta. Ainda bem.

4. O estudo que o Expresso publicou este fim de semana, e que Pedro Santos Guerreiro comentou de forma concisa e brilhante numa crónica designada “geração espontânea” fala de uma realidade que devia ser “de todos os dias”. Tem razão o director do Expresso: é vergonhoso, é triste, é assustador. Envergonha-nos, como país, que as malfeitorias dos últimos anos, da Ongoing ao BES, passando pelo BPN e outros tantos exemplos de “malbaratagem” de recursos nacionais, impeçam o florescer das novas gerações, condenando-as ao fado amargo que o referido estudo ilustra; entristece-nos, como pessoas, assistir ao desmoronar da esperança de tantos jovens, amigos dos nossos filhos, filhos dos nossos amigos, cujos olhos há muito deixaram de brilhar; assusta-nos, como portugueses, a perspectiva de um país cujos jovens mais brilhantes, educados, preparados, emigram ou não logram encontrar perspectivas de vida e vivem, ainda, aos 30 anos, ou 35, 40, ou mais (necessariamente virá a ser mais) a expensas dos pais. Envergonha-nos, entristece-nos, assusta-nos, não sabermos onde começa o fim do princípio desta realidade. Vale certamente a pena fazer deste um combate permanente, urgente, diário, instante. É difícil entender, escreve Santos Guerreiro e eu permito-me repetir, “como este não é um tema de todos os dias”. Está enganado: este é um tema de todos os dias para os filhos que não encontram emprego condigno e de acordo com a sua formação, obrigados a emigrar mesmo que não queiram, é um tema de todos os dias para os pais que os sustentam e lhes entregam parte das reformas para que (sobre)vivam. E devia ser um tema de todos nós, portugueses, porque a nossa alma lusitana, sabem, não é pequena.

5. O filho do António e da Maria emigrou. Teve força, teve sorte, teve sobretudo capacidade, conseguiu um contacto “lá fora”, arranjou um contrato “lá fora”. Emigrou, escapou ao ciclo vicioso da dependência paterna e da precariedade laboral, foi-se embora. O António e a Maria sentiram-se aliviados, felizes, esperançosos. Provavelmente deixarão de o ver por longos períodos, o filho não voltará à Pátria. Não faz mal, há sempre o skype. E aviões. E telefones. O que não há é empregos decentes para os jovens em Portugal.

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