Política

Uma tragédia portuguesa

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De vez em quando, do alto da montanha de livros e merchandising partidário que acolhe na Marmeleira (?), Pacheco Pereira olha para baixo e deprime-se. Voltou a acontecer esta semana

De vez em quando, do alto da montanha de livros e merchandising partidário que acolhe na Marmeleira (?), Pacheco Pereira olha para baixo e deprime-se. Voltou a acontecer esta semana, na qual, em crónica no Público, o popular intelectual lamenta o desprezo que, cito, “a escola, a universidade, a sociedade, a comunicação – já para não falar das chamadas ‘redes sociais’ – e a política hoje dão às humanidades e aos estudos clássicos”. Desencantado, Pacheco Pereira atribui parte da culpa desta desgraceira ao governo PSD-CDS (cá dentro) e ao sr. Trump (lá fora). Amargurado, Pacheco Pereira constata que os jovens e os adultos de agora não fazem uma ideia sobre “Polifemo ou Salomão, ou Judite ou o Bom Samaritano”, não suspeitam coisa nenhuma acerca da “Odisseia, ou da Antologia Grega”, não sabem “quem era Argos ou Tifão”, nem conhecem “Esparta e Atenas”, e “Sófocles e Tucídides”.

Como careço dos pergaminhos de Pacheco Pereira, não duvidarei dos ilustrados e remotos tempos em que jovens e adultos recitavam a Antologia Grega nas feiras e nos mercados. O importante é ficar implícito que Pacheco Pereira domina todos os temas acima, erudição que decerto exercita nas conversas em “off” com o amigo Jorge Coelho – um evidente especialista em Calímaco e São Gregório de Nazianzo. Por outro lado, fica explícito que tamanha sapiência não lhe serve de muito, já que mesmo assim continua um encarniçado defensor da sofisticada gente que manda no país.

Já a gente que obedece constitui um enigma. Se é verdade que, nos cafés ou nas paragens de autocarro, a populaça só esporadicamente troca palpites alusivos a Plutarco, é igualmente verdade que a sua rudeza não a impede de partilhar com Pacheco Pereira o gosto pela frente de esquerda que governa a nação, sob o sorriso da oligarquia e a reverência da generalidade dos “media”. Pelos vistos, frequentar os clássicos ou ignorar a respectiva existência produz resultados idênticos.

A julgar pelas sondagens, os portugueses andam satisfeitíssimos com quase tudo. E, empurrados pela confiança do PR e a tranquilidade do PM, acreditam em tudo. Acreditam que a história do Montepio vai correr bem. Acreditam que o golpe do Novo Banco correrá melhor. Acreditam que há alternativa à “austeridade”. Acreditam que a satisfação das clientelas não lhes custará um cêntimo. Acreditam que o “recorde” do défice é para levar a sério. Acreditam que o recorde da dívida não é para levar a sério. Acreditam que Pedro Passos Coelho e o “estrangeiro” conspiram contra o nosso sucesso. Acreditam no nosso sucesso. Acreditam em consumados mentirosos. Acreditam que gregos são os do Benfica e o sr. Varoufakis.

Descontada a última convicção, os portugueses acreditam de facto na visão alucinada em que Pacheco Pereira, por conveniência, finge acreditar. É aqui, e apenas aqui, que se nota a diferença propiciada pela intimidade com os clássicos. Nas cabecinhas erradas, as referências certas inspiram um curioso apreço pela dissimulação. Ou seja, os ignorantes são enganados; os instruídos colaboram no engano. Pacheco Pereira tenta provar a falta de sabedoria na sociedade e prova abundantemente a falta, também perigosa, de vergonha na cara.

No meio disto, a eventual boa notícia é que o rumo que o país adoptou encurta diariamente a distância das massas a Atenas. À medida que nos aproximamos de nova bancarrota e de novo resgate (ou – Deus nos valha – de resgate nenhum), a familiaridade com os gregos arrisca-se a aumentar a olhos vistos. E quem diz os gregos diz, com um pedacinho mais de azar e um pedacinho menos de “Europa”, os venezuelanos. Para quê ler as tragédias clássicas se podemos protagonizar uma?

Nota de rodapé

Regressado de férias em terras do tio Trump, confesso-me um bocadinho a leste (ou, para ser preciso, a oeste) das novidades da pátria. O único assunto do género a perturbar-me o descanso chegou por via de um telefonema, no qual a minha mãe me informou apavorada de que o prof. Marcelo estava num desfile de moda a tecer comentários acerca das “tendências” de vestuário da próxima estação. Ambos, o telefonema e os comentários, eram redundantes: é sabido que o prof. Marcelo irrompe nos mais extraordinários lugares a aliviar-se dos mais extraordinários palpites; e é sabido que a tendência que nos ficaria a matar seria a clássica camisa-de-forças.

Na dramática ausência desse traje, continuamos a julgar-nos no melhor dos mundos: o nosso. A vida avança por prados verdejantes e, enquanto não surgir o fatal precipício, tudo está bem. Tudo? Não exageremos. Mal aterrei em Pedras Rubras, o joelho de um sujeito descolou a caminho do nariz de outro e, quase por desfastio, este abençoado país descobriu alguma coisa com que se afligir. A subjugação geral a uma aliança de leninistas e oportunistas não perturba ninguém. O particular apêndice nasal de um infeliz, operado de urgência, lançou a indignação pela semana fora.

Porquê? Porque o golpe de luta-livre aconteceu num campo de futebol, e porque chegámos a um ponto em que apenas o que acontece aí tem relevância. Falar em anestesia é dizer pouco: a atenção das gentes esgota-se na bola e nas figuras que, literal ou figurativamente, correm atrás dela. Um dia, Portugal estoura e, entretidas com o “Mais Bastidores”, as pessoas nem reparam. Talvez reparem nas consequências. Ou nem isso, que depois vem o “Dia Seguinte”.

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