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O Banco Central Europeu (BCE) espera que a inflação continue baixa durante um período prolongado e que, depois, comece a crescer gradualmente até 2%, a meta do banco, afirmou o presidente da instituição Mario Draghi. Mas o presidente do BCE diz que é que preciso estar atento aos riscos que podem levar a uma espiral de queda nos preços, em especial nos países com maiores dificuldades.

Na abertura do segundo dia do Fórum do Banco Central Europeu sobre os novos caminhos da política monetária, que se realiza até esta terça-feira em Sintra, o líder do BCE não desiludiu e manteve o mesmo discurso sobre os riscos de deflação que têm sido levantados nos últimos meses.

Para o responsável, no total da zona euro, “as empresas e famílias não parecem estar particularmente expostas à dinâmica dívida-deflação”, ainda assim, essa imagem esconde as diferenças entre os países da zona euro.

“O rácio do serviço de dívida face aos rendimentos tende a ser mais elevado nos países em dificuldades. O baixo nível de financiamento parece estar a contribuir para a debilidade económica nesses países. A nossa análise sugere que os constrangimentos no crédito estão a travar a recuperação nos países em dificuldade, o que impulsiona as pressões deflacionárias”, disse.

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As empresas nestes países em maiores dificuldades, como é o caso de Portugal, têm visto custo de servir a sua dívida crescer desde 2008.

Mario Draghi defende a posição menos ativa do BCE a lidar com a ameaça da deflação até ao momento dizendo que não é anormal que existam fluxos de crédito mais baixos no período inicial de uma recuperação económica, que muita da queda de preços que se verifica nos países que tiveram mais dificuldades se deve ao processo de ajustamento que têm levado a cabo que, de alguma forma, tem levado a uma espécie de desvalorização de preços interna.

Compra de ativos?

Apesar de defender a inexistência de um problema, enquanto diz que é preciso reconhecer os riscos de que este possa a acontecer, Mario Draghi reconhece que poderá ser necessário agir contra uma queda de preços e em especial para ajudar a que o crédito chegue às empresas e às famílias.

Nesse sentido, diz que a política monetária pode servir de ponte, apoiando através de operações de refinanciamento (BCE já o faz sem limite todas as semanas nas principais operações de refinanciamento e de forma mais esporádica em financiamento a mais longo prazo) mas, também, “através da compra de asset-backed securities (títulos de dívida com ativos de garantia de todo o tipo”.

Estas medidas, diz Mario Draghi, “podem ajudar a reduzir algum constrangimento na recuperação que venha de constrangimentos temporários no fluxo de crédito”.

Este tipo de compra de ativos por um banco central tem sido muito utilizada pela Reserva Federal norte-americana desde o início da crise, mas também pelo Banco de Inglaterra e mais recentemente pelo Banco do Japão. Os investidores estavam na expetativa de que Mario Draghi pudesse avançar com um programa de compra de ativos em larga escala na zona euro para injetar liquidez na economia e assim combater o risco de deflação.

No entanto, a lista de medidas que veio a público que pode vir a ser discutida na próxima reunião do conselho de governadores do BCE, a 5 de junho, não inclui ainda essa opção.

Nessa lista, segundo o The Wall Street Journal, estarão no entanto novos cortes nas taxas de juro de referência, que se encontram já em mínimos históricos, incluindo na taxa de juro dos depósitos do BCE (que passaria a cobrar para aceitar depósitos dos bancos comerciais) para valores negativos.