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Congregar todos os grupos palestinianos e lutar pela auto-determinação da Palestina: estes foram os principais motivos que levaram à fundação da Organização para a Libertação da Palestina (OLP). Esta quarta-feira cumprem-se os 50 anos desde a criação da entidade sem a qual os palestinianos “não teriam a [atual] representação internacional”, resumiu Ana Pinto, investigadora do Instituto Português de Relações Internacionais (IPRI), ao Observador.

A organização, hoje, “está longe de ser perfeita”, admitiu a também docente da Universidade Nova de Lisboa. Em parte, isso explica-se graças a “uma série de iniciativas, tanto positivas como negativas”, que a OLP desempenhou “no processo de paz” com Israel. Ana Brito, porém, considera “inegável” que, sem a entidade, “a comunidade palestiniana não teria hoje a estrutura autónoma que é a Autoridade Palestiniana”.

Tudo começou a 28 de maio de 1964. Por decisão da Liga Árabe, reúniram-se 422 delegados em Jerusálem, representantes dos movimentos palestinianos que existiam em territórios como a Jordânia, o Líbano, a Faixa de Gaza ou a Síria. São os membros-fundadores da OLP. Na carta fundadora, lê-se que a OLP seria “responsável pelo povo palestiniano”, além da sua luta pelo direito à auto-determinação” e o “regresso à pátria”.

O papel de Yasser Arafat

Yasser Arafat (cortada)

Em suma, a missão era criar “um estado autónomo e soberano” da Palestina, resume Ana Brito. Um dos grupos fundadores da OLP é a Fatah, movimento político que, em 1969, ajuda a colocar na presidência da organização o nome cujo legado se tornou incontornável – Yasser Arafat. “Hoje é impossível desligar as declarações de Arafat da OLP”, defende a investigadora, além de lhe atribuir “o lado palestiniano” do processo de paz com Israel.

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A liderança de Arafat durou quase 35 anos, até à sua morte, em 2004. Foi ele que conduziu a OLP por entre conflitos armados – na Jordânia e no Líbano, países onde a organização começa por se fixar, antes de passar para a Tunísia, onde permanece entre 1982 e 1991. Foi a sua cara, voz e palavra que imperaram em vários “momentos históricos” no processo de paz com Israel. E são várias as decisões de Arafat, tomadas entre “o final da década de 80 e toda a década de 90”, que delimitaram o que hoje é a relação entre palestinianos e israelitas.

A investigadora destacou ao Observador as duas que considera “determinantes” – em 1974, quando Yasser Arafat discursa na assembleia-geral das Nações Unidas, em Nova Iorque, após a ONU reconhecer a OLP como único representante dos palestiniano e, em 1988, no momento em que proclama unilateralmente a auto-determinação (independência) da Palestina.

A legitimidade do Estado da Palestina, contudo, apenas foi reconhecida em 1993. Em setembro desse ano, a OLP assinou os Acordos de paz de Oslo. Arafat reconheceu a legitimidade de Israel e Yitzhak Rabin, primeiro-ministro israelita, determinou a retirada das suas tropas da Faixa de Gaza e da Cisjordânia. O documento culminou também na criação da Autoridade Nacional Palestiniana (AP), que substituiu a OLP como representação oficial da comunidade palestiniana.

Onde está hoje a OLP

Antes e depois dos Acordos de Olso, acrescenta Ana Pinto, há “dois momentos com consequências negativas” para o processo de paz. Ambos protagonizados pela liderança de Yasser Arafat na OLP.

Em 1991, Arafat é o único líder árabe que apoia Saddam Hussein na primeira Guerra do Golfo, o que “prejudicou as relações da OLP com os EUA e a Jordânia, por exemplo”. Depois, em 2000, nas negociações de Camp David, em Washington, um Arafat já presidente da AP “não aceita um acordo” com Israel. Esta decisão, lamentou a investigadora do IPRI, fez o “processo de paz entrar num período de congelamento no qual, até hoje, os progressos foram mínimos ou inexistentes”.

Entre boas e más decisões, Ana Pinto não duvida que Arafat “marcou aquilo que hoje é o lado palestiniano do processo de paz” e deu “visibilidade internacional” à OLP. A investigadora conclui que, atualmente (e desde a existência da AP), a organização se transformou num “elemento simbólico daquilo que a comunidade palestiniana procura” – auto-determinação e a criação de um estado soberano.

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