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O eurodeputado socialista Francisco Assis defendeu esta quinta-feira que não se deve condenar aqueles que mantêm em aberto a possibilidade de o PS vir a fazer um acordo à direita, isto é, um bloco central. Para Assis, há entre o PS e a direita algum entendimento em “temas tão importantes” como a Europa, enquanto que com os partidos mais à esquerda há apenas “divergências doutrinárias profundas”.

“Porque estranha razão haveria o Partido Socialista de privilegiar entendimentos com partidos com quem nunca até hoje se entendeu devido a divergências doutrinárias profundas e haveria de excluir em absoluto acordos com partidos que, malgrado as profundas discordâncias presentes, não se situam em temas tão importantes como o tema europeu numa posição absolutamente oposta àquela que preconizamos?”, questiona num artigo de opinião do jornal Público. E acrescenta que não compreende o “serôdio sectarismo” daqueles que, diz, têm tentado fazer uma “estigmatização pública” dos socialistas que não se opõem à “possibilidade teórica” de fazer um acordo com a direita.

Num artigo sob o título “Abriu-se uma grave crise política no interior do Partido Socialista”, Assis — que já declarou o seu apoio público a António José Seguro — , procura abrir o que entende dever ser uma “discussão séria” sobre “o futuro do Partido Socialista em aspectos determinantes” e defende o que para si devem ser os temas centrais desse debate. Porque, diz, é importante que os portugueses saibam o que “António José Seguro e António Costa pensam”.

“Essa crise [do PS] não deve ser colocada nem no plano da moralidade nem no domínio da legitimidade. Pelo contrário, ela só poderá ter sentido se devidamente tratada no campo da confrontação política, estratégica e, se for caso disso, doutrinária”, diz o agora eurodeputado socialista. A este propósito, critica a “desonestidade intelectual” daqueles que fizeram “comparações indevidas” entre o resultado obtido pelos socialistas este ano e noutras alturas “completamente distintas”, e defende Costa, afastando-o desse leque. “O que move António Costa é algo de mais profundo e mais respeitável: a convicção de que pode alargar a influência política do PS, reforçar a sua capacidade oposicionista e potenciar a sua expansão eleitoral”, diz.

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Relação do PS com o passado

Sobre as decisões tomadas pelo PS logo no início do Governo de Pedro Passos Coelho, há três anos, Assis defende que o PS se devia ter abstido nas votações dos primeiros Orçamentos do Estado – como fez no primeiro. Isso, diz, faria com que o PS mostrasse “um elevado sentido de responsabilidade nacional, sem prejudicar a sua capacidade de enunciação concreta de um programa político alternativo”. Mas, mais do que isso, permitia resolver um outro problema – “o do relacionamento com o nosso passado governativo”. Ou seja, sobre o pedido de ajuda externa por parte do Governo socialista de José Sócrates.

Sobre isso Assis diz ainda que, “por muito que desagrade, os portugueses sabem que a austeridade começou connosco [com o PS]” e “são levados a não acreditar em radicalismos retóricos que parecem relevar mais de um impulso mágico do que de uma criteriosa avaliação da situação real do país”. “Só um partido suficientemente forte para assumir o sentido do compromisso teria estado em condições de sustentar, com sucesso, uma explicação sobre as origens da crise distinta daquela que a direita procurou apresentar”, diz.