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Tric tric… é o som das agulhas do crochê. “Enquanto estou a fazer tric tric não penso em nada. Quando estou com as agulhas, é uma maravilha. Nunca penso na idade que tenho e sou sempre jovem”, refere Ermelinda Gonçalves, de 72 anos.

Horas e horas de crochê. “Mas isto não é trabalho, é um entretenimento e algo que faço desde os 11 anos”. Quem o diz é Ivone Dinis. Tem 89 anos, mas gosta que a tratem por menina.

“Foi um prazer estar neste projecto, nunca pensei que tivesse esta dimensão”. A admiração é de Alice Nunes, 71 anos. Quebrou a rotina e trabalhou até de madrugada, para que tudo estivesse pronto a tempo e horas.

Ermelinda, Ivone e Alice são vizinhas. Vivem no centro histórico de Coimbra, numa zona que inclui o Quebra-Costas e o Arco de Almedina. Colaboraram na preparação do 2o Festival de Crochê Social, que arranca hoje, 4 de Julho, em pleno dia da cidade.

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A iniciativa é da responsabilidade da Câmara Municipal de Coimbra. Juntam-se ao município diversas instituições, que realizam projetos em zonas específicas da cidade. O InProject é da responsabilidade da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Coimbra. O objectivo é claro: combater o isolamento dos idosos.

A essência do InProject começou em 2013, numa disciplina das licenciaturas em Serviço Social e Psicologia. O objetivo era transportar as ideias teóricas da sala de aula para o exterior. No caso, a propósito da solidão dos mais velhos. E esta não existe apenas nas aldeias e nos espaços suburbanos. “Mesmo nestes contextos de grande movimento, de grande atração turística, de zona histórica, verificamos que os idosos passam muito tempo sozinhos, sem grandes atividades”, avisa a coordenadora do projeto e professora universitária, Joana Guerra.

Para contrariar essa tendência negativa, professora e alunos aproveitaram a edição inaugural do Festival do Crochê Social para uma ação no terreno. Numa faculdade onde as mulheres estão em franca maioria, promoveram uma atividade destinada maioritariamente às idosas. O crochê é uma arte que estas senhoras dominam e que “fazem com gosto, criatividade e cor”. A chave, salienta Joana Guerra, esteve em incentivá-las “a fazê-lo ao serviço de um bem comum”.

O projeto repetiu-se este ano, com uma adesão reforçada. O plano passava por embelezar as ruas com estas peças artísticas. Começou por ser um desafio para os idosos, mas acabou por se transformar numa tarefa comunitária, que envolveu pessoas mais novas, amigos e comerciantes, “com um empenho extraordinário”. A coordenadora é taxativa: “Não há ninguém nesta zona que não tenha aderido”. E, em simultâneo, foi uma experiência enriquecedora para os alunos envolvidos. “Construir um projeto em conjunto com as outras pessoas e não estar apenas a debater as metodologias na sala de aula tem um impacto enorme na nossa formação”, refere Celina Vilas-Boas, estudante de Serviço Social.

O festival dura até finais de Agosto. Até lá, algumas ruas de Coimbra ficam diferentes. “Ganham cor e alegria”, garante Ivone, uma das artesãs do crochê. Ao mesmo tempo que afirma que os estrangeiros dão mais valor a isto do que os portugueses. “Acho que na terra deles não há nada destas coisas”, equaciona. “Deve haver”, responde-lhe Ermelinda.

Para o ano, todos desejam que o festival regresse. Ermelinda deixa votos para que tudo seja antecipado. “Claro, se eu tivesse sabido mais cedo, ainda tinha feito mais”, avisa. Tric, tric, tric…. mais um pouco do crochê da eterna juventude.