Jean-Claude Juncker conseguiu o cargo que lhe faltava na Europa, é presidente da Comissão Europeia. Mas para lá chegar precisou da ajuda de outros grupos políticos para além do seu, o que o vai obrigar agora a distribuir entre socialistas e liberais alguns dos cargos de topo que faltam ocuar em Bruxelas, assim como pastas importantes no seio da Comissão. O luxemburguês fez em Estrasburgo uma defesa acérrima do euro e lembrou o orgulho de ser europeu sob uma chuva de apupos dos eurocéticos.

Já está. Depois de ser o primeiro-ministro democraticamente eleito que esteve mais tempo no poder (18 anos), presidente do eurogrupo e figura assídua nos últimos 30 anos da construção europeia, Jean-Claude Juncker chegou ao topo da cadeira hierárquica em Bruxelas e vai mesmo suceder a Durão Barroso. O Parlamento Europeu deu-lhe uma maioria de 422, o que indica que tanto socialistas como liberais cumpriram o prometido à risca – embora com algumas dissidências – e aprovaram o luxemburguês como presidente da Comissão Europeia. Votos contra teve os dos eurocéticos. A Marine Le Pen que lhe chamou o novo “guardador dos infernos europeístas”, Juncker agradeceu mesmo que não votasse nele.

Mesmo quem não votou nele, como este eurodeputado dos Verdes, reconhece-lhe o senso de humor.

Agora está na hora de pagar os favores. Ainda não há indicação de quem será o próximo Alto Representante da Comissão (equivalente a ministro dos Negócios Estrangeiros da União), presidente do Eurogrupo e presidente do Conselho Europeu, nem estão escolhidos os 26 novos comissários europeus e as respetivas pastas. São poucos lugares para muitas solicitações. Esta terça-feira no plenário, os socialistas deram a entender que pretendem ficar com a pasta dos Assuntos Económicos na Comissão e os Liberais estão à espera de ficar com um dos três lugares de topo na União.

As propostas do sucessor de Barroso e os conflitos com Cameron

Juncker também vai ter de fazer concessões a nível programático, especialmente no alívio à austeridade e às metas do défice, como anunciou esta terça-feira em Estrasburgo. “Se os Estados-membro fizeram grandes esforços então vamos ter de refletir isso nos incentivos financeiros que devem acompanhar esses esforços” sublinhou, acrescentando que o euro previne “guerras monetárias” entre os países que têm a moeda única e que tem um plano de 300 mil milhões para a inovação na Europa.

O luxemburguês prometeu ainda que a Comissão “vai ser um órgão político”, que vai ter um comissário dedicado aos direitos humanos e que o problema da imigração não é só dos países mediterrânicos. Sobre o acordo de comércio livre que está a ser negociado entre os EUA e a União Europeia, Juncker diz que os documentos não podem ser secretos, sob pena de isso enfraquecer as negociações com os norte-americanos.

O processo para a eleição dos novo presidente da Comissão começou antes das europeias, quando Juncker – juntamente com representantes das maiores famílias europeias – foi escolhido como cabeça de lista do Partido Popular Europeu (PPE) (grupo político europeu integrado pelo PSD e pelo CDS) e assim, candidato à Comissão. Teve a oposição de Cameron assim que o centro-direita europeu venceu as eleições, numa batalha que durou até ao último Conselho Europeu onde o primeiro-ministro britânico foi vencido numa votação entre os Estados-membro pela nomeação de Juncker. Apesar de ter ultrapassada este obstáculo, o processo só termina em outubro ou novembro, depois da nova equipa de Juncker ser ouvida exaustivamente no Parlamento Europeu e aprovada em plenário.

Cameron parece no entanto não abandonar a luta, já que na remodelação em curso no Reino Unido anunciou que o comissário britânico será Lord Hill, até agora líder da Câmara dos Lordes e não uma mulher como teria sido pedido por Juncker. O Reino Unido detém atualmento o cargo de Alto Representante da União através de Catherine Ashton e Jean-Claude Juncker terá prevenido Cameron que seria melhor indicar uma mulher para conseguir uma pasta de relevo dentro da Comissão.